01/11/2018 às 09h14min - Atualizada em 01/11/2018 às 09h14min

PT reduziu votação em 68% das cidades brasileiras

FOLHAPRESS
A violenta Belford Roxo, município na Baixada Fluminense (RJ) com população estimada em 508 mil habitantes, foi a cidade brasileira onde o PT teve a maior queda percentual na votação para presidente entre as eleições de 2018 e 2014.

Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, no pleito passado, a então candidata Dilma Rousseff (PT), obteve 74,82% dos votos válidos. Já na disputa deste ano Fernando Haddad teve apenas 31,12% dos votos válidos -numa queda de 43,7 pontos percentuais.

Sem pisar na cidade durante a campanha eleitoral, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) foi a escolha de 68,88% do eleitorado local. A situação não é diferente no restante do país. Ao todo, o PT teve menos votos que em 2014 em 3.829 cidades brasileiras - 68,7% total - e teve mais votos do que na última eleição em outros 1.737 municípios – todos concentrados no Nordeste e do Norte.

Em 4 cidades, a votação do partido foi rigorosamente igual à de quatro anos atrás. Em Belford Roxo, o discurso de combate à violência e o desejo pela mudança na política foram os motivos que levaram à população a optar pelo capitão da reserva em detrimento do candidato do PT, mesmo com um legado de investimentos sociais.

A cidade tinha, em outubro deste ano, 48 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família, cerca de 24% da população local. Na última década, cinco condomínios do Minha Casa Minha Vida foram erguidos na cidade.

Em contrapartida, a taxa de homicídios em setembro esteve em 33 casos por 100 mil habitantes, acima da média do estado do Rio como um todo, de 23 homicídios na mesma base comparativa.

A reportagem visitou o município na terça-feira (30) e foi orientada pelas autoridades locais a não circular nos bairros da periferia da cidade. Belford Roxo viveu na última década um êxodo de criminosos expulsos de comunidades do Rio com as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Estão presentes na cidade as três principais facções de tráfico e meia dúzia de grupos milicianos.

Na cidade, os sinais de que a violência tem lugar cativo são visíveis. A sede da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, por exemplo, fica separada por uma rua da boca de fumo da favela do Castelar, uma das mais violentas da região. Em março, o secretário de Defesa Civil da cidade, Marcos Wander Silva de Oliveira, 43, foi morto a tiros numa tentativa de assalto dias depois de uma professora da rede pública do município ser baleada em um arrastão.

A 35 quilômetros do centro do Rio, a cidade é dormitório para trabalhadores da capital, mas não tem muitas opções de educação, cultura e lazer. Segundo moradores, Bolsonaro despertou a esperança de que a violência daria uma trégua na região, algo que disseram não ter ouvido de seu principal adversário na disputa eleitoral.

Nascido e criado na cidade, o camelô Rafael Antônio da Silva, 26, explicou que o legado social do PT não se sustentou no voto porque a sensação geral, com a crise econômica e a violência, é de passo atrás.

"O filho do pobre aqui realmente fez faculdade, curso técnico, mas foi trabalhar no Uber porque o país quebrou e não tem emprego na área. O soberano às vezes perde a mão", disse ele, que deu voto em Bolsonaro, tendo optado por Dilma na eleição passada.

Já para o vendedor Vitor Souza, 24, "as opções eram mais do mesmo", o que favoreceu a escolha por aquele que apresentou o discurso mais forte contra a criminalidade.

O resultado eleitoral em Belford Roxo foi similar em diversos outros locais da Baixada Fluminense, como Queimados, Japeri, Duque de Caxias e Nova Iguaçu. Das 15 cidades que tiveram a maior queda de votação no PT entre 2014 e 2018, 14 ficam no estado do Rio.

Além do Rio de Janeiro, cidades de Minas Gerais, Santa Catarina e Rondônia estão entre as que o PT mais perdeu votos entre 2014 e 2018. Na avaliação do sociólogo Jorge Alexandre Neves, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a recessão fez com que a população de cidades com maior nível socioeconômico se desencantasse com o PT e migrasse para Jair Bolsonaro.

"A parte mais rica de Minas abandonou o PT. São pessoas que ascenderam socialmente, mas hoje enfrentam problemas como desemprego e queda na qualidade de vida", explica.

Segundo o professor, mesmo tendo um perfil mais conservador, as pequenas cidades mineiras votam de forma pragmática. "Não é um voto ideológico", afirma o professor.
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