26/10/2018 às 11h18min - Atualizada em 26/10/2018 às 11h18min

Gino Degane forma nadadores para o Brasil

ALÉM DO PRAIA CLUBE E UTC, TREINADOR COMANDOU POR VÁRIAS VEZES A SELEÇÃO BRASILEIRA

Éder Soares
Treinador é uma das referências da natação brasileira (Ascom/Praia Clube)
É incontável o número de nadadores que já ouviram as cobranças e conselhos do técnico Gino Zardo Degane, uberlandense criado em Ituiutaba e que aos 58 anos sequer cogita o dia de se aposentar da beirada das piscinas do Praia Clube, onde é coordenador técnico do departamento de natação e técnico das equipes principal, juvenil e júnior.
Gino é casado com Maria Julia Duarte Degane e tem duas filhas. Formou-se em Educação Física pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), tem pós-graduação em Treinamento Desportivo pela UFU e em Administração Esportiva pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
O técnico que já comandou equipes brasileiras em uma infinidade de torneios, fala do amor ao esporte que tornou sua profissão. 
 
Diário de Uberlândia: Como iniciou a vida no esporte, mais especificamente na natação?
Gino Degani: Aos seis meses, fui morar com minha família em Ituiutaba, onde passei toda minha infância e parte da juventude. Meu pai foi nadador, nadou no Uberlândia Tênis Clube (UTC) com o saudoso professor Mario Godoy. Quando criança, meu pai me ensinou a nadar e aos dez anos comecei a treinar na equipe de natação do Ituiutaba Clube, no qual meu pai foi diretor. Treinei com o técnico Orcival Pinto Barra, que tinha mudado de Uberaba, onde tinha conquistado um título inédito, de Campeão Mineiro de Natação com a equipe uberabense.
 
Chegou a ganhar títulos como atleta?
Fui atleta de natação até 1973, onde me sagrei campeão estadual nos 100 e 200 metros nado peito. Por falta de estrutura do clube, não pude ir ao Campeonato Brasileiro naquele ano. Depois passei para o futebol de Campo, treinei no Boa Esporte, na época Ituiutaba, era goleiro, no famoso estádio da Fazendinha, e passei também pelo vôlei. Naquela época, os alunos das escolas estaduais, eram incentivados a praticar todos os esportes de quadra e campo. Disputei vários Jogos Estudantis e Escolares. Joguei vários anos os Jogos Universitários pela Educa/UFU.
 
E como treinador, quando iniciou?
Foi no UTC, onde trabalhei por 20 anos. Em 1986 trabalhei por um ano no Clube Filadélfia de Governador Valadares, sendo que em 1987 retornei ao UTC, ficando até os anos de 1997, quando fui para Botucatu (SP) trabalhar na Associação Botucatuense. Fiquei no clube até 2000, em 2001 fui ser secretário de esportes de Botucatu, mas em 2002 deixei o cargo para vir para o Praia Clube.
 
Fale um pouco sobre a formação de nadadores.
Natação é um esporte complexo para formação de atletas de alto rendimento. Após iniciar os treinos nas categorias de base, são pelo menos oito anos para alcançar resultados expressivos. Fui convocado algumas vezes para seleção, outras vezes pedi dispensa. Mas minha primeira convocação para seleção foi em 1993 no Campeonato Sul-americano Juvenil, onde foram convocados dois atletas do UTC: João Lucas O’Connel e Dennys Garcia Xavier, campeões Brasileiros, Sul-americano e Multinations. Essa seleção foi campeã sul-americana. Depois fui convocado para outras seleções ao longo da carreira. Em 1998, fui ao meu primeiro campeonato mundial de piscina de 25m, pela equipe de Botucatu, onde trabalhei por quatro anos. Tive duas atletas convocadas, Carla Arruda e Juliana Almeida.
 
E como começou a sua história no Praia Clube?
Iniciei no Praia Clube em 2002. São 16 anos neste clube sensacional. Tivemos muitos resultados expressivos a nível de equipe e individual. Quando cheguei, o Praia Clube não figurava entre os 100 melhores clubes de natação do País, nossa melhor colocação foi sexto lugar no Ranking Nacional de Clubes. Fomos campeões do Estado várias vezes. Tivemos vários atletas recordistas e campeões tanto no estado, nacional e Sul-americano. Participamos de vários campeonatos internacionais, Campeonato Mundial Junior, Jogos Olímpicos da Juventude, Multinations, Copa do Mundo. Com certeza isso foi um trabalho duro de toda nossa equipe de professores, técnicos e atletas, bem como de toda a diretoria e funcionários, que se propuseram a colocar o Praia Clube no lugar que merece, a nível nacional e internacional.
 
Como formador, você participou das carreiras de vários atletas, entre eles o Gabriel Fidelis. Cite outros talentos que passaram por suas mãos.
Pergunta difícil. Ao longo dos meus 40 anos no esporte foram mais de 4 mil atletas. A memória já não é a mesma. Com certeza, se for colocar nomes, vou esquecer vários deles, o que seria injusto da minha parte. Tenho certeza, que todos foram extremamente importantes na minha carreira, pois foram os meus atletas que me deram a oportunidade de realizar o meu sonho, desde aquele atleta com menor potencial técnico aos que obtiveram resultados expressivos. Todos eles me desafiaram dia após dia, a ser uma pessoa melhor, um técnico melhor. Só tenho a agradecer a todos os atletas e aos seus pais, pela oportunidade e confiança que tiveram de colocar seus filhos em minhas mãos.
 
Atualmente, como está a equipe de natação do Praia? Quais os atletas mais preparados no momento e o que eles vislumbram para o futuro?
Como disse anteriormente, estamos em um novo ciclo de formação e esperamos que em breve possamos estar novamente a caminho de resultados ainda mais expressivos. Temos vários jovens buscando seu aprimoramento técnico e já conquistando lugares entre os melhores do país. O Praia Clube tem feito várias ações com objetivo de aprimorar tanto os atletas quantos os profissionais envolvidos. Temos feitos clínicas, Swim Camp, curso técnicos. Tudo com objetivo de oferecer a melhor qualidade técnica aos jovens nadadores. De uma coisa você pode ter certeza, todos aqui têm trabalhado duro para que os resultados sejam os melhores.
 
Na sua ótica, porque que o Gabriel Fidelis (bicampeão brasileiro dos 200m peito), um notado talento uberlandense, não conseguiu ir para uma Olimpíada? A ida dele para Baltimore (EUA), em uma fase tão alta como ele estava, acabou prejudicando-o, pois ele precisou se adaptar a uma nova metodologia?
Na minha visão, independentemente do treino em Baltimore, o que faltou para o Gabriel foi acreditar que ele era melhor do que ele imagina poder ser. Todos os meus amigos técnicos sempre me diziam: “o Gabriel pode fazer muito mais”. Nunca foi problema de treinamento, ao contrário, mas faltou aquela dose extra de confiança. Mas a ida dele para Baltimore, deu a carreira dele uma oportunidade única, que poucos tiveram na vida, ter como amigo Michael Phelps e Bob Bawman, melhores atleta e técnico do Mundo. Suas portas se abriram para sua profissão. Hoje, ele trabalha com os dois, como técnico de natação, na melhor natação do Mundo. Com certeza, terá uma carreira de sucesso.
 
Como você vê o atual estágio da natação uberlandense?
A natação de Uberlândia, hoje, vejo com muita tristeza e indignação, mas com esperança que o Uberlândia Tênis Clube (UTC), possa voltar novamente com uma nova mentalidade de formação, bem como o SESI, que vinha fazendo um belo trabalho e encerrou suas atividades competitivas, causando um grande prejuízo para vários jovens e para o esporte da nossa cidade. A nova piscina do Parque Aquático Municipal poderá dar um novo impulso a nossa natação, logicamente se for bem administrada. Temos vários outros clubes e entidades que tem piscinas, que poderiam estar incentivando a natação em nossa cidade. Não sei o motivo pelo qual não se importam com a natação e também com os vários esportes que morrem à mingua numa cidade que se diz progressista e rica. Com certeza não é falta de dinheiro, é falta de vontade política. Precisamos de gestores competentes, que não fiquem na dependência de dinheiro das entidades. O Governo oferece possibilidades e facilidades de financiar projetos esportivos e sociais aos montes. Mas com certeza não cai do céu, temos que trabalhar duro para conseguir.
 
E sobre a natação nacional, o que você consegue dizer?
Quanto a natação brasileira, ainda estamos tentando nos reerguer do grande escândalo pós-Olimpíada. Como não é novidade para ninguém, a natação, assim como o Brasil, foi destruída com tamanha corrupção. Estamos em fase de grandes mudanças, mas acredito sempre que nossos técnicos e atletas iram se superar e teremos uma excelente participação em 2020. Nossos atletas praianos, já pensam em 2024 e 2028.
 
Quais as nossas maiores esperanças, tanto no masculino quanto no feminino?
Nossa maior chance de medalha é o revezamento 4x100 livre masculino, que foi segundo lugar no Mundial de Budapeste, perdendo para os EUA, por menos 32 centésimos. Poderemos ter vários atletas chegando as semifinais, e algumas finais. Mas pelos resultados atuais a nível de ranking mundial, ainda não estamos tão próximos das medalhas olímpicas. Mas com certeza, nossos técnicos e atletas estão trabalhando duro para mudar essa realidade.
 
Pretende permanecer por quanto mais tempo dentro do esporte?
Ainda não pensei seriamente em abandonar o esporte, mas, com certeza, este dia está bem mais próximo do que há 40 anos.
 
Para finalizar, o que você gostaria de dizer para os leitores do Diário de Uberlândia?
Lendo um artigo produzido pela ESPN Brasil, sobre esporte como meio de inclusão social, li a seguinte frase: "Gentileza gera gentileza". Pois é, uma frase simples, banalizada até, e extremamente verdadeira. Algumas coisas na vida, de tão simples, não são percebidas. É isso que o esporte pode trazer para vida dos nossos jovens. O esporte é uma fonte transformadora, pois agrega educação, superação, ensina perde, ensina a ganhar, ensina respeito ao próximo, ensina a superar limites, ensina a ter controle emocional, ensina a ter objetivos, ensina superar dificuldades, ensina a valorizar o trabalho duro, ensina a valorizar as conquistas, ensina respeito ao próximo.
Aí eu digo: a formação do jovem é muito mais importante que o resultado esportivo”. O resultado é consequência de vários outros fatores. Assim como a educação, o esporte e o lazer, são direitos constitucionais. Assim como vários outros que infelizmente não são respeitados no Brasil.
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