11/10/2018 às 08h44min - Atualizada em 11/10/2018 às 08h44min

Cultura está na pele, no sangue e nos ossos

Festa chega ao auge no domingo mas nunca termina para os congadeiros

ADREANA OLIVEIRA

Foto: Adreana Oliveira
Pode apostar. No próximo domingo (14) as timelines e feeds de suas redes sociais serão inundadas por cores, sons e ritmos da Congada, que chega no seu auge depois das novenas iniciadas no último dia 5. As pessoas vão comentar como é bonito, como é rico, que cultura maravilhosa. Nemana seguinte, para a maioria dos uberlandenses a concentração na Praça do Rosário será passado, não deve figurar nos trending topics ou estar entre as hashtags mais populares. Porém, àqueles comprometidos com essa cultura a Congada nunca passa. Ela fica, ela está na pele, no sangue, nos ossos.

O pequeno Arthur ainda usa chupeta e no colo da mãe, Ana Caroline Silva, 24 anos, ele acompanhou a novena na noite de terça-feira (9) na Igreja do Rosário, Centro de Uberlândia. Ali o leiloeiro anunciava as prendas, os congadeiros esquentavam os tambores, as cores começam a aparecer e os anciãos do grupo recebem o devido respeito de quem está na praça e por quem passa pela praça.

Para Ana Caroline a Congada é uma tradição de família. “Meu pai é dono do terno Camisa Verde e minha família é toda presente nesta manifestação. É algo que está dentro de nós”, disse ela, natural de Ituiutaba e que dança praticamente desde quando estava no ventre da mãe. Ao lado dela, Douglas Ferreira Tomaz e Tiago Elias, ambos de 20 anos. A repórter pergunta se são irmãos ou parentes. “Somos irmãos de fé”, responde Ana Caroline.

Para Douglas, a “nova geração” não liga muito para cultura em geral, muito menos para a cultura afro-brasileira. “Gostam de balada, pagode, boate e a minha geração, apesar de ainda ser novo, traz o legado de nossos pais e avós. Meu pai comanda o Moçambique Rosa Branca, do bairro Planalto e para mim, tudo que envolve a Congada é uma forma de tirar os jovens das ruas, das drogas, das bebidas... O jovem brasileiro, o jovem uberlandense, precisam de mais cultura”, reforça.

O dia a dia de Tiago começa com o pé na Congada. “A primeira coisa que faço quando acordo é agradecer a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, os santos padroeiros que festejamos. Peço proteção para o dia que está por vir e durante praticamente todo o ano participo das atividades que culminam nessa festa: ajudo a levantar prendas para os leilões, vejo sobre o transporte de instrumentos e pessoal, alimentação”..., comentou ele que é Soldado de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário e desfila como capitão do terno Moçambique Quilombolas.

ALÉM DO FOLCLORE
Terno, Capitão, Soldado. Esses termos podem não alcançar a todos com o mesmo significado. Mesmo assim, a tradição congadeira sobrevive. Moradores do bairro Santa Mônica, Lourdes Dantas e Altamir José foram à praça do Rosário só para acompanhar as festividades pós-novena. No domingo prestigiarão outra Congada, a de Catalão (GO), cidade natal dos dois. “O pessoal aqui é muito animado, mas lá é bem mais, parece até Romaria. Acho que falta mais divulgação aqui em Uberlândia”, dizem.

Talvez divulgação não seja a palavra certa para este caso, e sim, reconhecimento. A filósofa e graduanda em Direito Vanilda Honória dos Santos afirma que a representatividade do povo negro e de sua história em Uberlândia estão longe do ideal. Há três anos ela se dedica a estudar a história que não é contada nos livros. Tem desenvolvido pesquisas na academia a partir da história da Uberlândia pré-1888. “Queria entender a história da cidade e sua relação com o período da abolição e da escravidão e não encontrava porque não tem essa história escrita. Minha pesquisa começou aí. A partir da dos quilombos em Minas Gerais, descobri que existe toda uma relação da história da cidade de Uberlândia e a construção da igreja do Rosário, suas mudanças de local em nome do progresso da cidade”, contou a pesquisadora.

Vanilda, autora do artigo “A Praça do Rosário como lugar de memória”, afirma que chamou sua atenção o fato de que a história de Uberlândia é a história do povo negro da cidade, que não está escrita. “Trabalho o conceito de reparação da escravidão e vejo essas questões de reconhecimento e resgate de uma história que não é contada porque não se dá o protagonismo de quem de fato é, do negro”, comentou ela.

A pesquisadora comenta que reparação é um conceito jurídico que vem sendo desenvolvido em muitas partes do mundo. No Brasil, a discussão é antiga mas no seio dos movimentos negros, não no âmbito jurídico ou num âmbito mais amplo. “Em 2017 desenvolvi um trabalho a partir dos direitos culturais e o direito à memória que também são conceitos importantes no Direito, nas Ciências Sociais e a partir daí a irmandade pediu a solicitação de registro da praça do Rosário no livro de registro dos lugares como um lugar de memória da população afro-brasileira. Aqui na cidade é mais que cultura, é resistência”, disse.

Para ela essa cultura devia estar mais presente na vida de todos fora de ações pontuais que já existem. “Muita gente entende cultura como folclore, diversão, mas a Congada, a cultura negra em Uberlândia é a cultura de resistência, de permanência nos seus lugares nas suas memórias”, afirmou Vanilda que não encontrou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia nenhum trabalho referente à linha que adotou para a sua pesquisa.

“Quando existem são voltados para a lei especificamente, mas não voltado par a comunidade o que pensa, como é feita a história. “Esse é meu envolvimento que tem a ver com a história do Direito. As construções que são feitas historicamente para que ocorram esses apagamentos tem muito a ver com o direito vigente em cada época. No caso de Minas Gerais é o dos Quilombos mineiros sobre os quais houve um histórico de destruição nos séculos 17 e 18 e quando ocorreu a abolição houve o esquecimento. É como se não tivesse acontecido e as comunidades negras continuaram a contribuir com as cidades.

SERVIÇO
O QUE: 142 anos da Festa da Congada
Até 13/10: 19h novenas, reza de terços e leilões
Local: Igreja de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito
Domingo (14)
Festa da Congada
Local: Início na Rua Prata, nº 890, desce pela Av. Floriano Peixoto e termina na porta da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito
Horário: a partir das 7h com grande cortejo às 16h seguido por procissão, missa coroação de Nossa Senhora do Rosário
Local: Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito
Segunda-feira (15)
19h Despedida
Local: Igreja de Nossa Senhora Do Rosário e São Benedito
ENTRADA FRANCA

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