09/10/2018 às 10h39min - Atualizada em 09/10/2018 às 10h39min

Setor Cultural está apreensivo com cenário político

O Diário conversou com alguns artistas de diferentes segmentos e detectou uma grande preocupação com os resultados do pleito

ADREANA OLIVEIRA
Hoje é dia de eleição. Os brasileiros aptos a votar irão às urnas para eleger Presidente da República (e vice), governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais. O Diversão & Arte do Diário de Uberlândia convidou artistas e fomentadores culturais de diferentes segmentos para saber o que esperam dos possíveis cenários pós-eleição.

Aqui não se trata de revelar votos, defender ou atacar um ou outro candidato. A pergunta é: o que está em jogo no setor cultural nessa eleição tão polarizada? Outro questionamento foi quais os pontos avaliados por eles na hora de definir seus candidatos.

Consideradas agentes de transformação de vidas, a arte e a cultura sofrem com diminuição de incentivos e o próprio compreender da população sobre seu papel na formação do caráter de uma pessoa e não como algo supérfluo ou dispensável. O poder público deve fornecer ferramentas para que o acesso à arte e à cultura seja para todos. Quanto mais conhecimento mais devem se tornar raras situações nas quais um artista se identifica tal e o seu interlocutor devolve com um “mas trabalha com o que?”.

Entre um dos pontos mais questionados por eleitores e até mesmo candidatos está a Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura), criada em 1991, e ainda incompreendida por muita gente. A lei é uma ferramenta conhecida por sua política de incentivos fiscais para projetos e ações culturais: por meio dela, cidadãos (pessoa física) e empresas (pessoa jurídica) podem aplicar nestes fins parte de seu Imposto de Renda devido. Esta é apenas uma forma de estimular o apoio da iniciativa privada ao setor cultural. O ciclo de aprovação de projetos inclui diversas etapas e se finaliza com a avaliação da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), formada com paridade de membros do poder público e da sociedade civil. Todas as decisões são públicas.

A possível extinção do Ministério da Cultura é outro ponto que preocupa os artistas, que já não estão satisfeitos com a atuação da pasta. Confira nesta página as colocações de nossos entrevistados.



ROBISSON ALBUQUERQUE (Escritor e editor da Subsolo) | Foto: Reprodução Facebook

 
O que está em jogo nesse momento é sobretudo a compreensão da população brasileira sobre o que significa nossa Cultura nacional, mais do que promessas ou planos de governos apresentados por candidatos. O que está em jogo nesse momento é a clareza da população em se colocar como País civilizado que incentiva, acolhe, respeita e acredita no poder da diversidade étnica, cultural e artística de seu povo. Ou somos esse camaleão multifacetado, cheio de escamas e contradições, ou somos parede cinza, morta e de concreto chumbado. Parece que esquecemos, ou nunca soubemos, que somos índios, mulatos, cafusos, mamelucos, brancos, pardos e negros e sobretudo, sulamericanos.
Não sairemos do poço que nos encontramos enquanto não for efetivamente determinado como política de Estado que o caminho é pela cultura e pela educação. Pela alegria, pela nobreza e talento de nossa gente. Mas os candidatos não apresentam em suas defesas de campanha uma plataforma que efetivamente coloque a Cultura como peça chave de seu governo.
E ao que parece, certa parte da população e do eleitorado também acusa a classe artística de que são em sua maioria vagabundos ou doutrinadores, quando não são acusados de imoralidade pela transgressão de suas obras. Mas ora essa, a arte está aí para isso: transgredir, romper com o postulado e apresentar novos olhares e horizontes sobre nossa própria humanidade.


 RUBEM DOS REIS (Diretor do Grupontapé de Teatro) | Foto: Divulgação

Me preocupa declarações de candidatos afirmando que esta eleição é uma fraude ou que o resultado só será aceito em caso de vitória. A legitimidade do ganhador já está sendo questionada antes da definição do eleito. As pessoas estão em guerra. A área da Cultura, uma das que foi mais afetadas nos últimos anos, está sendo frontalmente atacada e questionada em relação ao valor que tem e sua “utilidade” para a sociedade. A intolerância está enorme e a continuidade da existência de projetos e grupos culturais e artísticos, ameaçada.
Tem muita coisa em jogo. Falando em características do candidato ideal: honestidade, viabilidade eleitoral, cultura da paz, educação como prioridade maior, crença no valor e na potência da cultura como fator de transformação e desenvolvimento, conhecimento da economia brasileira e de suas nuances, uso racional e sustentável do meio ambiente, perfil inclusivo com entendimento que sendo eleito terá que pacificar o país governando para todos e não só para o lado que o elegeu.


 LOBO GUIMARÃES (Literatura/produção cultural) | Foto: Adreana Oliveira

A expectativa não poderia ser das piores, uma vez que corremos o risco da extinção total de um Ministério da Cultura - algo ainda mais grave que o atual sucateamento. Estamos vivendo a cultura do ódio, da intolerância. Estamos vivendo a cultura do medo. Se antes a inteligência foi substituída pela esperteza, agora, para piorar, o conhecimento está sendo substituído pelo achismo indiscriminado, verdades reveladas na algaravia do disse-me-disse virtual e sem compromisso com a realidade, com a ética e com a própria verdade. Tempos sombrios onde a resiliência e a arte da resistência terão, mais uma vez, de mostrar seu valor.
 

JEREMIAS BRASILEIRO (Historiador, escritor e pesquisador da cultura afro-brasileira) | Foto: Reprodução Facebook

O cenário pós-eleição será sem dúvida um divisor histórico para a cultura popular, há a possibilidade de retrocessos de políticas públicas já institucionalizadas, bem como de obrigar os atores sociais das tradições culturais populares a se reorganizarem para resistir e exigirem a efetivação real de muitas demandas culturais. Esse é o desafio pós-eleição, em qualquer que seja o cenário, a cultura, e nesse caso, a afro-brasileira, de matriz africana, dos remanescentes de quilombos, terá que se reinventar, sem, contudo se submeter, ser coagida e muitos de seus atores sociais ser cooptados pelos novos governantes que surgirão em 2019.


 HÉLVIO LIMA (artista plástico, editor do jornal “Fundinho Cultural”) | Foto: Divulgação

A partir de 2019, os artistas, os produtores culturais, movidos pelo seu próprio instinto, o amor pela arte, certeza, hão de continuar sua tarefa árdua de vencer todos os obstáculos para fazer o seu trabalho e mostrá-lo ao público, como sempre o fazem. Sei que serão anos complicados para a arte e a cultura se ascenderem valores esdrúxulos ao poder. Mas, eu continuarei a lutar para realizar exposições, editar o jornal, escrever poemas e ideias, custe o que custar, seja qual for o sistema político reinante.
Sempre fui um artista batalhador, autodidata, independente, e busquei com meus próprios recursos abrir os meus caminhos. Então, ao longo dos 50 anos de carreira e sete décadas vividas, estou bastante preocupado com quem poderá nos governar, visto que o desgoverno dos últimos anos atingiu a todas as classes, principalmente as menos favorecidas. Quando vejo nas esquinas, às vésperas da eleição, tantas bandeiras, uma multidão de pessoas querendo subir na vida, ganhar altos salários e usufruir de tantas mordomias que só o sistema lhes proporcionaria, tudo isto à custa do meu voto, deduzo, qual deles poderia representar-me? Decepcionado, não posso dizer se estas bem-intencionadas pessoas realmente existem. Assisti, estarrecido, aos discursos surrealistas, que insuflavam o povo ao ódio, à violência e ao preconceito, inflados somente por egoístas vaidades que não podem oferecer nada de bom a ninguém.


 LILIAN TIBERY (Artista Plástica e proprietária da Galeria e Atelier Ponto Azul) | Foto: Celso Ribeiro

Minha opinião é: a galeria não trabalha com recursos institucionais e por ano participamos como apoiadores em diversas áreas. Seja cedendo expertise nas áreas de curadoria, empréstimo de material expositivo e com doações para projetos de cunho cultural. Sempre com o propósito de divulgar e favorecer o acesso da população à área de artes plásticas. Se no privado existe este compromisso, no público a participação das instituições e o cumprimento das leis de incentivo é o real motivo de existência. As secretarias e órgãos de Cultura devem se comprometer a dar apoio ao artista não só para a divulgação como para a execução do seu trabalho. Independentemente do partido A ou B que ocupa o poder no momento. A arte é atemporal e assim sendo deve estar acima das disputas políticas. Para mim, um bom candidato seria aquele que antes de ser eleito assinasse uma carta-compromisso de honrar as verbas destinadas ao setor.


 LUIZ SALGADO (Músico) | Foto: Lilian Salgado/Divulgação

Acredito que o cenário está tenso... tem candidato, que se ganhar, certamente não irá zelar pela parte da cultura, pode até extinguir o MinC... fala do fim de terras para quilombolas e indígenas... isso, além de social, afeta o Brasil culturalmente, de forma direta. Existe uma confusão muito grande, no que se refere à Lei Rouanet... sempre está associada por muitos a "mamar nas tetas do governo". Certamente, como em todas as áreas, existe quem utilize de forma errada esses recursos, mas tem os que fazem dessa lei, uma ferramenta de propagação da arte. Isso é muito debatido entre candidatos, e muito se fala sobre encerrar essa lei. O cenário além de tenso está superficial e com uma cultura ao ódio muito forte. O que me faz escolher meu candidato (esse ano não poderei votar, pois não estarei em meu lugar de votação) são a coerência das propostas e o comprometimento desse candidato, não só com as causas culturais, mas com as minorias. Que não governe para elite, e sim para povo de verdade. Escolho um candidato que não faça de seu posto privilegiado um trampolim para pagar favores políticos. Pode ser utópico, mas penso assim.


 Nara Sbreebow (Cineasta e produtora) | Foto: Reprodução Facebook

Investimento na arte e educação é também investimento na saúde e segurança. Vivemos um momento sombrio da política no País e acredito que essas sombras também estejam presentes em outros países. Mas aqui no Brasil, na nossa área que é de Cultura e Educação, digo isso porque a maior parte dos recursos que recebo vem destas áreas, dos cinco documentários que fui contratada para dirigir este ano, três foram via mecanismos de incentivo do Ministério da Educação e os outros dois via Leis de Incentivo Estadual e Federal. Além destes, desenvolvo um trabalho também via Fundo Setorial do Audiovisual, o que quero dizer com isso? Como eu, outros profissionais (diretores, roteiristas, produtores, maquiadores, diretores de artes, eletricistas, cenógrafos, motoristas, fotógrafos, iluminadores, músicos, editores e tantos outros que são envolvidos) da indústria do audiovisual também dependem de leis que nos resguardam para que possamos continuar exercendo nosso ofício com dignidade. Não queremos nada de graça, apenas o direito ao trabalho honesto e justo. Milhares de trabalhadores sobrevivem da industrial do audiovisual, ninguém está brincando de fazer “arte”.
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