12/09/2018 às 08h07min - Atualizada em 12/09/2018 às 08h07min

Em carta, Lula oficializa troca no PT

Ex-presidente pediu aos seus eleitores que agora votem em Fernando Haddad, que assume a candidatura, com Manuela D'Avila de vice

FOLHAPRESS
Lideranças petistas acompanharam anúncio e apostam em poder de transferência de votos do ex-presidente | Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação
De dentro de sua cela em Curitiba, onde está preso há 158 dias, Luiz Inácio Lula da Silva autorizou que Fernando Haddad fosse oficializado ontem o candidato do PT ao Planalto. Em mensagem enviada à militância e lida durante ato em frente à sede da Polícia Federal, em Curitiba, Lula deu seu recado mais explícito ao afilhado político, pedindo diretamente votos para ele, escolhido como seu representante daqui pra frente. "Quero pedir, de coração, a todos os que votariam em mim, que votem no companheiro Fernando Haddad para presidente da República", escreveu. "De hoje em diante, Haddad será Lula para milhões de brasileiros", completou.

Lula usou a mensagem, novamente intitulada "Carta ao Povo Brasileiro", como a que marcou sua campanha de 2002, para dizer que é vítima de um processo injusto e que vai voltar para "estar junto com Haddad e fazer o governo da esperança". "Nunca aceitei a injustiça nem vou aceitar", disse o ex-presidente. Em seguida, de acordo com o roteiro traçado pelo próprio Lula, Haddad fez seu pronunciamento de menos de dez minutos.
Ladeado por integrantes da cúpula petista, que haviam chancelado sua candidatura em reunião mais cedo, na capital paranaense, o agora candidato afirmou que sentia a dor "daqueles que não vão poder votar em quem queriam que subisse a rampa do Planalto".

Pediu o apoio da militância para a "tarefa monumental" que se abriu diante dele e disse que, por Lula, o PT vai ganhar a eleição presidencial de outubro. Com a renúncia do ex-presidente à candidatura, a chapa do PT, agora formada por Haddad e Manuela D'Ávila (PC do B), sairá em marcha com o desafio de, em menos de um mês, herdar o espólio eleitoral de Lula - que registrava cerca de 30% nas pesquisas de intenção de voto. Segundo dirigentes petistas, Haddad, de saída, centrará esforços na conquista do eleitorado lulista que, sem definição sobre a candidatura, migrou para outros candidatos de esquerda, e se instalou principalmente na órbita de Ciro Gomes (PDT).

Pesquisa Datafolha divulgada na segunda-feira (10) mostrou Haddad e Ciro tecnicamente empatados em segundo lugar, atrás de Jair Bolsonaro (PSL), com 13% e 9%, respectivamente. O pedetista, por sua vez, ganhou seis pontos no Nordeste, reduto eleitoral mais fiel de Lula, e chegou a 20% na região. Haddad cresceu oito pontos, mas ainda fica em 13%. A cúpula da campanha avalia que, agora oficializado, Haddad sofrerá ataques de adversários como Ciro e Geraldo Alckmin (PSDB), que tentarão conter um possível crescimento do petista nas pesquisas.

Os dirigentes do PT, porém, acreditam que, ao informar o eleitor de que é o indicado de Lula, Haddad crescerá "naturalmente" entre os apoiadores cativos do ex-presidente. Pesquisas internas feitas pela sigla mostram que o eleitorado lulista se divide em três: os que não votam em ninguém com a saída do ex-presidente da disputa, os que votam em um indicado por ele sem ressalvas e os que votam em seu herdeiro, mas querem conhecê-lo melhor antes.
 
ESTRATÉGIA

 
A apenas 25 dias do primeiro turno, a transmutação de Lula para Haddad será cercada do apelo ao "vote 13", número do PT, para tentar driblar o desconhecimento do ex-prefeito de São Paulo em regiões como o Nordeste, por exemplo.
O xadrez, conduzido por Lula desde o dia de sua prisão, em abril, foi jogado para tentar garantir ao máximo a transferência do apoio de seu eleitorado a seu herdeiro político quando ele fosse ungido candidato. Lula e grupos do PT ainda resistentes a Haddad insistiam em adiar a troca na chapa até o limite, em 17 de setembro, mas a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que barrou a candidatura do ex-presidente, fez com que o partido elaborasse um novo roteiro, desta vez mais curto.

Ainda que a presidente da sigla, Gleisi Hoffmann, e alguns de seus aliados, permanecessem com o discurso de que era preciso ir até o fim com Lula, a ordem do petista foi respeitar a data estabelecida pela Justiça Eleitoral para a substituição, 11 de setembro, ao mesmo tempo em que sua defesa recorresse à instância máxima, o Supremo Tribunal Federal (STF), para corroborar o discurso de que foi até o limite. E assim foi feito. A partir de então, o próprio Haddad, que temia não ter tempo suficiente para conseguir a transferência de votos do padrinho em tão pouco tempo, acompanhou diretamente a elaboração da estratégia.

O ex-presidente pediu sugestão de seus principais auxiliares, por carta, sobre como a troca deveria ser feita. Na segunda-feira, sem uma resposta do Supremo sobre o mais recente recurso de sua defesa, Lula colocou o plano em marcha. Reuniu-se por horas com Haddad e advogados e orientou o até então vice de sua chapa sobre o pronunciamento que deveria fazer no dia seguinte.
 
CAMPANHA
JINGLE É ADAPTADO E AGORA PEDE VOTO NO 13

 
O PT já colocou na rua as mudanças no material de campanha de Fernando Haddad ao Planalto e adaptou o jingle feito para o ex-presidente Lula, agora pedindo voto no 13, o número do partido. A estratégia é tentar garantir ao máximo a transferência de votos de Lula para Haddad. No lugar de "chama que o homem dá jeito", em referência ao ex-presidente, agora a música canta "chama que o 13 dá jeito". Para completar a transmutação de Lula para Haddad, o jingle também repete que "Haddad é Lula lá", "Haddad é Lula, é o povo".

A comunicação do partido já vinha trabalhando nos últimos dias nas adaptações dos programas eleitorais de rádio e TV, que mostrarão agora Haddad como candidato. Como mostrou a Folha de S.Paulo no mês passado, durante giro de Haddad pelo Nordeste, os petistas estabeleceram que uma das principais estratégias para a transferência de voto seria o apelo ao voto no 13, o número do PT, visto que a campanha é curta -faltam 25 dias para o primeiro turno- e Haddad ainda é bastante desconhecido na região.
 
INTENÇÃO DE VOTOS
Petista avança entre pobres, mas esbarra em Ciro
 

A última pesquisa do Datafolha mostra que Ciro Gomes (PDT) e Fernando Haddad (PT) correm em faixas paralelas na disputa pelos votos da esquerda. Ciro cresceu mais na classe média e entre eleitores mais escolarizados, enquanto Haddad ganha espaço em alta velocidade nas faixas de menor renda.

O candidato do PDT avançou inicialmente sobre territórios tradicionalmente petistas, consolidando um desempenho razoável no Nordeste e no eleitorado mais pobre. Agora, ele se descola de Haddad nas demais fatias da população. Nas últimas três semanas, Ciro cresceu quatro pontos e chegou a 14% entre eleitores com curso superior. Haddad oscilou um ponto para cima, atingindo 10%. O pedetista continua à frente de Haddad no grupo com ensino fundamental, mas o candidato do PT teve maior crescimento: subiu de 2% para 8% nessa faixa.

A cúpula petista já projetava uma consolidação de Ciro na classe média devido ao adiamento da substituição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por Haddad. O partido acreditava, no entanto, que conseguiria reter o eleitor lulista de baixa renda. Haddad, de fato, teve um avanço considerável na população mais pobre: passou de 3%, em agosto, para 10% na pesquisa mais recente. Ciro flutuou de maneira menos intensa, de 10% para 13%. Há um empate técnico entre os dois nesse segmento. O candidato do PDT manteve a dianteira entre os demais eleitores, com renda acima de dois salários mínimos. Ambos oscilaram três pontos: Ciro tem 13% e Haddad aparece com 8% nesse grupo.

NORDESTE

Haddad aposta na força de Lula no Nordeste para crescer nas três semanas e meia de campanha até o primeiro turno. Ciro, que é ex-governador do Ceará, será um obstáculo. O pedetista ganhou seis pontos na região e chegou a 20%. Haddad cresceu ainda mais (oito pontos), mas fica em 13%. O Datafolha ouviu 2.804 eleitores em 197 municípios no dia 10 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no TSE com o número BR 02376/2018. O nível de confiança é de 95%.
 
CIRO E HADDAD - INTENÇÕES DE VOTO NO 1º TURNO

ENSINO FUNDAMENTAL
Ciro Gomes (PDT)
AGO/18: 11%
SET/18: 12%

Fernando Haddad (PT)
AGO/18: 2%
SET/18: 8%
 
ENSINO SUPERIOR
Ciro Gomes (PDT)
AGO/18:10%
SET/18: 14%

Fernando Haddad (PT)
AGO/18: 9%
SET/18: 10%
 
NORDESTE
Ciro Gomes (PDT)
AGO/18: 14%
SET/18: 20%

Fernando Haddad (PT)
AGO/18: 5%
SET/18: 13%
 
ATÉ 2 SALÁRIOS MÍNIMOS
Ciro Gomes (PDT)
AGO/18: 10%
SET/18: 13%

Fernando Haddad (PT)
ago.18: 3%
set.18: 10%
 
MAIS DE 2 SALÁRIOS MÍNIMOS
Ciro Gomes (PDT)
AGO/18: 10%
SET/18: 13%

Fernando Haddad (PT)
AGO/18: 5%
SET/18: 8%
 
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