09/09/2018 às 08h11min - Atualizada em 09/09/2018 às 08h11min

Fajardo e sua escola de futebol

Treinador, que está entre os profissionais que mais vezes comandaram o UEC, desenvolve método de análise tática

ÉDER SOARES
Com cinco passagens no comando técnico do Uberlândia Esporte Clube (UEC), este mineiro de 57 anos, natural de Leopoldina, é um dentre os treinadores que mais vezes comandaram o Verdão na história, com 56 jogos entre os anos de 2002, 2009, 2012, 2013 e 2014. Welington Fajardo mora atualmente em São João Nepomuceno (MG), município próximo a Juiz de Fora, onde analisa propostas para trabalhar em 2019. Neste ano, o treinador comandou a Patrocinense na reta final do Mineiro, evitou o rebaixamento, classificou o clube para as quartas de final do certame e ainda conquistou a inédita vaga para a Série D do Brasileiro. 

Mostrando a atenção e o carinho de sempre, ele topou bater um papo com a reportagem do Diário de Uberlândia, no qual fala sobre a sua paixão pelo UEC, sua trajetória dentro do futebol, o começo como goleiro no América Mineiro, a passagem pelo Cruzeiro, o trabalho de pesquisa e desenvolvimento de ferramentas técnicas para o futebol e também sobre o seu futuro para 2019. 

Diário de Uberlândia: Como foi o início da sua carreira? 
Welington Fajardo: Comecei minha carreira em 1978, no sub-17 do América Mineiro, onde me profissionalizei em 1981, e fiquei até 1986. Fiz no profissional do América 158 partidas oficiais e sou o sétimo goleiro que mais jogou com a camisa americana. Lá ganhei o troféu Guará, em 1985, como o melhor goleiro do ano. Em 1986, o Cruzeiro comprou meu passe por 400 mil cruzados. 

Como foi no Cruzeiro?
Pelo Cruzeiro estou entre os 20 goleiros que mais jogaram, exatos 80 jogos, e fiquei por 3 anos. Fui campeão mineiro em 1987, quando vencemos o Atlético Mineiro por 2 x 0 na final. Em 1986, fui campeão do torneio Cidade de Alicante, quando vencemos o Hercules por 4 x 1 na final, do Torneio de Pamplona, contra o Osasuna, por 3 x 2, e do Torneio Cidade de Madri, quando vencemos o Atlético de Madri por 2 x 1 na final. São competições tradicionais que se jogam no verão na Europa. A Supercopa da Libertadores, em 1988, embora tenhamos sido vice-campeões, vale a pena destacar, pois nessa competição só jogavam as equipes que já tinham sido campeãs da Libertadores.  

A carreira de treinador começou em que ano? 
Comecei minha carreira de treinador no Tupi, em 2001, clube que trabalhei por quatro vezes. Pelo Uberlândia foram cinco vezes, Villa Nova, três vezes, Democrata de Valadares, duas passagens, além de Patrocinense, Sobradinho (DF) e Francana (SP). Fui campeão da Taça Minas Gerais pelo Tupi, em 2008, e campeão do Módulo II em 2001. 

Tupi e Uberlândia são as equipes que você mais comandou. O que estes clubes têm de especial para você?
Foram as duas equipes que mais trabalhei, com 57 jogos pelo Tupi, e 56 pelo Uberlândia. Considero ter identificação com os torcedores, empatia mesmo. Já fui um torcedor também, sinto o que eles sentem quando se ganha e quando se perde. Penso que o treinador não deixa de ser um representante da torcida em seu trabalho porque o objetivo é o mesmo, buscar as vitórias. Para isso me entrego de corpo e alma.

Da sua última passagem pelo Verdão, em 2014, ficou alguma mágoa?
Jamais, nenhuma mágoa. Minha história com o Uberlândia é longa, de muitas batalhas, de muitos momentos difíceis, superações como o livramento do rebaixamento em 2009 e a classificação para a série D, na sequência. São muitas vitórias, de uma sequência invicta no Parque do Sabiá de 19 jogos. Só tenho a agradecer pelas oportunidades de comandar uma equipe tão importante no cenário nacional e pela qual me dediquei extremamente em cada treino e em cada jogo.

Você se arrepende de ter colocado um time reserva contra o Mamoré, naquele ano, quando o time já classificado acabou sendo goleado por 6 a 1 em Patos?
O time já estava classificado para as finais depois de dois anos sem chegar ao hexagonal decisivo. Vários jogadores ficaram suspensos no jogo anterior para “zerar” nos cartões para a próxima fase. Então não tinha muita solução, era o time reserva que teria que jogar com alguns outros que estavam disponíveis. Infelizmente perdemos e fui demitido. Uma pena, pois aquele time tinha tudo para conquistar o título, começamos trabalhando em setembro na captação dos atletas, fizemos uma ótima pré-temporada, classificamos com antecipação, enfim, penso que o trabalho não poderia ter sido interrompido, pois tinha muito conteúdo ali, uma base forte, muitas jogadas ensaiadas. Umas das poucas vezes que consegui iniciar um trabalho no Uberlândia.

Você ainda tem vontade de voltar a comandar o Uberlândia?
Todo treinador que conhece o Uberlândia, sua estrutura, sua torcida e sua grandeza, sem dúvida tem vontade de trabalhar no clube e comigo não é diferente.

Neste ano, o Uberlândia acabou rebaixado para o Módulo II do Mineiro, sendo o quinto rebaixamento do clube desde 1997. Como você conhece bem o clube, o que acha que acontece com o Uberlândia? Existe alguma explicação?
Só tenho a lamentar, pois, como sempre falo, o Uberlândia tinha que, hoje, estar disputando, no mínimo, uma série B, mas de Brasileiro. Penso que as pessoas que vivem o clube no seu dia a dia têm mais condições de responder a essa pergunta do que eu. Repito, só lamento porque conheço a grandeza do clube, mas futebol é assim, infelizmente nem sempre as coisas acontecem da forma programada. 

No último final de semana, o Tupi foi rebaixado para a Série D. Qual o seu sentimento?
De tristeza, mesmo porque tanto o Tupi, quanto o Uberlândia foram times que ajudei muitas vezes a livrar do rebaixamento. Estando de fora e não podendo fazer nada é uma sensação muito ruim.

Você evitou neste ano que a Patrocinense fosse rebaixada para o Módulo II. Mas a diretoria fez a opção por não dar continuidade ao seu trabalho e contratou o jovem Rodrigo Fonseca. Você ficou frustrado?
Não só evitei o rebaixamento como ajudei a classificar o time para as quartas de final. Ainda conseguimos uma vaga para a Série D do Brasileiro, situação inédita para o clube, que terá um calendário cheio no ano de 2019. Não tenho nenhuma frustração, pois tive sucesso para aquilo que fui contratado. Cumpri a missão que me foi dada, vida que segue.

Fale sobre o método que está desenvolvendo para fazer a análise de uma partida.
Vivo futebol 24h por dia. Quando não estou treinando equipes, dou palestras nas faculdades a respeito do futebol e desenvolvo atualmente o tema: “Futebol moderno, o que mudou na prática?”. Quando vejo as estatísticas atuais, que mostram como foi o jogo, acho muito superficial, muito focadas na construção do jogo, mas sem mostrar realmente se houve justiça naquele resultado. Na Copa do Mundo, aproveitei para aperfeiçoar esse tema, criando itens como: Chances Criadas, Chances Efetivas e Chances Eficazes, porque não adianta o time ter uma boa construção de jogo, com muita posse de bola, muitos passes certos, muitos escanteios, e na hora da definição da jogada, na hora de fazer o gol, nada acontece. Estou no final do desenvolvimento desse tema e penso em publicar esse método.

Em termos de futuro, existe alguma negociação ou contatos para comandar algum clube?
Sim. O sucesso do trabalho realizado na Patrocinense fez com que aparecessem algumas propostas já para a Série C do Brasileiro deste ano e, consequentemente, para o Mineiro de 2019. Já começaram algumas sondagens.

Ainda em 2008, você disse, aqui em Uberlândia, que aquele meia de ligação, cadenciador de jogadas, o que chamam de camisa 10 nato, tinha acabado para o futebol. Nove anos depois, você ainda sustenta essa tese? Por que isso acontece?
É um dos temas que desenvolvo nas minhas palestras: “O protagonismo dos volantes e laterais em detrimento dos meias armadores”. Vou tentar resumir um pouco do que penso: o futebol está cada vez mais intenso e veloz, com pouco espaço para jogar e pensar. As linhas estão muito próximas umas das outras, os times muito compactos, tanto para defender como para atacar. Esses atletas [meias tradicionais] têm muita dificuldade na fase defensiva do jogo e atuam numa faixa de campo em que têm que competir o tempo todo, não apenas quando têm a posse de bola. Existe uma defasagem na produção desse atleta, quando se analisa o jogo de forma integral.

Para finalizar, me fale sobre a sua escola de futebol em Juiz de Fora?
A Escola de Futebol Welington Fajardo foi fundada no ano de 2009 pelo meu filho Lucas Fajardo, pós-graduado em Educação Física. Já são quase dez anos com a missão de educar e desenvolver o esporte como ferramenta de socialização. Temos como lema “Ensinando mais do que futebol”. Atualmente, estamos com duas unidades da escola e uma unidade voltada para um projeto social, chamado “Gols para o Futuro”, que é apoiado pela empresa Fripai. Atendemos por volta de 200 alunos entre 3 e 17 anos.

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