09/07/2018 às 08h00min - Atualizada em 09/07/2018 às 08h00min

Começa a urbanização do Glória

Expectativa das famílias é que além da melhoria estrutural, preconceito diminua

VINICIUS LEMOS | REPÓRTER

Divulgação
Em até um mês a Companhia de Habitação de Minas Gerais (Cohab Minas) pretende entregar a posse de pelo menos 500 famílias que hoje vivem na área do campus Glória da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Doada de maneira oficial pela instituição educacional à empresa na última semana, o futuro bairro também já passa por melhorias desde maio, Cemig e Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem (DEER) passaram a atuar no local. Entre o fim de 2017 e o início de 2018, a Cohab também trabalha com o cadastramento de famílias e o georreferenciamento para organização do setor, que fica na zona sul de Uberlândia, ao lado do bairro São Jorge.

Os trabalhos são iniciais para que a antiga invasão se torne o futuro bairro Elisson Prieto, nome provisório do local que ainda precisa ser oficializado pelo Município. A expectativa das quase 2 mil famílias que hoje moram na localidade é de melhoria não só estrutural, mas de imagem e redução de preconceito ligado aos moradores.

A reportagem do Diário de Uberlândia visitou o Glória e as ruas continuam de terra e a poeira é onipresente mesmo dentro de muitas das casas. Não há rede de esgoto e a água corrente, assim como o fornecimento de energia elétrica, seja nas ruas ou para as casas, só existem por meio de ligações clandestinas.

Entretanto, é difícil ainda encontrar barracos no Glória, onde as casas são de alvenaria em quase sua totalidade, por mais humildes que sejam. A organização em lotes, quadras e ruas também já foi elaborada. O mapa elaborado pela Cohab já nomeou todas os logradouros, inclusive, por onde máquinas do DEER passam e dão melhores condições de trafegabilidade, desenhando melhor como as vias serão no futuro. O asfalto, entretanto, pode demorar, pois não há qualquer previsão para que ele seja feito e não deve acontecer rapidamente, uma vez que será preciso instalar a rede de esgoto abaixo da camada asfáltica.

De acordo com o presidente da Cohab Minas, Alessandro Marques, há várias etapas de trabalho de estruturação do Glória. A previsão de todas elas é até o fim do mês de setembro. “Não há nada 100% concluído”, disse, enquanto explicava que o cadastro das famílias é feito conjuntamente ao georreferenciamento. A conferência de cadastros será feita cruzando com dados colhidos pelo escritório de advocacia que atua no local. Ao mesmo tempo são identificadas as metragens das áreas residenciais e definidas as áreas institucionais e comerciais, que somadas chegam a 100 delas.

Ainda neste mês, Marques pretende começar a negociação sobre as mais de 80 áreas comerciais, que deverãoser prioritariamente vendidas para os comerciantes já instalados. Famílias que têm pequenas empresas, comerciais ou de prestação de serviço no terreno de suas casas, contudo, serão cadastradas como de subsistência e não pagarão valores diferentes como se fossem áreas comerciais. Esse cadastramento acontece e os imóveis passam pelo processo de selagem para que haja checagem in loco do núcleo familiar, o que permitirá o recebimento do termo de posse posteriormente.

As duas ações (comercialização de áreas e oficialização da propriedade) poderão gerar verbas para aplicação no trabalho da Cohab. O valor dos espaços ainda não foi definido, segundo Alessandro Marques, da mesma maneira que as condições para compra ainda não foram divulgadas. Apenas a faixa de valores para residências foi definido. Serão 360 meses, com parcelas entre R$ 95 e R$ 125, de acordo com a renda familiar. “À medida que vai ficando pronto (o cadastramento), quero entregar (os termos de posse). Aí posso cobrar contribuição e esse valor vai ser reinvestido”, afirmou.

DENÚNCIAS
Empresa investiga vendas ilegais


Foi garantido pelo presidente da Cohab que a empresa mineira de habitação investiga denúncias de comercialização de terrenos no Glória, o que poderá levar à perda do espaço durante a regularização. Além disso, é preciso que as famílias tenham renda de até três salários mínimos e vivam em situação de alta vulnerabilidade. Os termos são definidos por um instrumento jurídico de política urbana conhecido como Reurb, um conjunto de normas gerais e procedimentos, que abrange medidas jurídicas, ambientais, urbanísticas e sociais, com vistas a tirar da informalidade determinados núcleos urbanos e seus ocupantes.

Desde maio a Cemig trabalha no bairro para instalação de postes e organização da rede elétrica. As obras em si estão previstas para setembro, quando começarão instalações de iluminação nas ruas, padrões e cabeamentos. O investimento será de R$ 20 milhões em conjunto com projetos sociais como substituir 10% das geladeiras das famílias que hoje habitam o Glória, trocar lâmpadas atuais por iluminação de LED, além da troca dos chuveiros para residências com mais de cinco moradores.

Enquanto isso, a rede de esgoto e o fornecimento de água dependem de negociações com a Prefeitura de Uberlândia. De acordo com a Cohab, nesta semana haverá uma reunião na qual essas questões serão abordadas.
Moradores esperam o fim do preconceito.

A regularização do Glória em bairro Élisson Prieto é vista pelos moradores como uma forma não só de trazer a urbanização, mas também de mudar a visão sobre as famílias que vivem lá e criar acesso a equipamentos públicos ou mesmo empregos.

Quando a família de Kerolynne Glenda se mudou para o local, ela era uma adolescente que havia tido a primeira filha. Hoje com 20 anos, a dificuldade de criar a pequena Hemilly Rosa esbarra não só na falta de dinheiro, mas também na dificuldade de conseguir uma consulta para a criança ou mesmo de trabalhar. “Fui sábado (30 de junho) buscar atendimento para minha filha na UAI São Jorge (UPA Sul) e tive restrição por ser do Glória. Ela está com gengivite e estomatite. É como se eu não tivesse residência fixa. Teve uma vez fiz entrevista em uma empresa e passei em todo o processo seletivo, mas por ser do Glória, não fui chamada, porque o ônibus não passa aqui”, contou a jovem, que hoje vive de bicos e vendas autonomamente. “Se regularizar, eu acho que ameniza preconceito, por que aqui a gente tratado como bandido e chamado de invasor de terra, vagabundo, ladrão”, afirmou.

Da mesma forma, que a mãe de Kerolynne, Orléia Rosa Alves aguarda por um espaço melhor para que seus netos sejam criados. Os anseios passam por praças, escolas e unidade de saúde própria do bairro. Ela conta que morou em um barraco, hoje tem uma casa de quatro cômodos que abriga quatro adultos e quatro crianças. “O que nós queremos é pagar pela nossa luz, pela nossa água e a gente não ser mais discriminado porque ninguém, porque aqui em casa ninguém vive de roubar nada”, disse.

Fuga do aluguel

O principal discurso de todas as famílias com as quais o Diário conversou é que o pagamento de aluguel e a dificuldade de comprar a casa própria os levou à invasão, criada em 2012. Quando conversamos com Raimundo Marcos, hoje desempregado, ele construía sozinho uma pequena casa no terreno junto à casa do cunhado. Ele vai morar com a filha, de 4 anos, e a esposa no lugar, como área, quarto e cozinha apenas. A obra é para deixar a moradia de favor que hoje tem na casa da sogra. “É um lugar bom para ficar, porque pagar aluguel é pior coisa que tem”, disse.

Há seis anos

A casa da família de Silvana Andrade Oliveira já tem endereço provisório, a futura rua Antônio Messias. O local onde ela vive com quatro filhos e a nora foi ocupado pelo pai, Olício Rosa de Oliveira, que se mudou em janeiro de 2012. Eles contaram que foi preciso nivelar o solo, que antes era uma grande curva de nível, por onde a água de chuvas insistia em descer com força e causar prejuízos. “Morei por três anos em um barraco e antes pagava aluguel de R$ 600 em uma casa no bairro Morumbi. “A chuva inundou minha casa já. Perdi geladeira, cama, perdi tudo. Nesse lugar onde estou. Mas valeu a pena, porque a gente luta por algo nosso. Na época foi a maior dificuldade. Ganhei um pouco de coisas, tinha um lixão ali em cima e eu ia lá e aproveitava alguma coisa”, contou a dona de casa.

Pedreiro, Olício ajudou a filha a construir a casa onde ela mora, mas antes disse, abriu ele mesmo a rua onde se encontra a residência. “Essa avenida aqui eu comecei abrir com uma Kombi que eu tinha. Trazia entulho e colocava aqui no capim”, disse. A decisão de se mudar para uma ocupação, segundo ele, foi de ajudar a família. “Um pai não quer ver o filho na dificuldade. Se um sofre a dificuldade, vamos sofrer todo mundo. Foi feito de mutirão. Eu que marquei tudo certinho pra ela. Aqui é onde ela sossegou com os filhos”.

HISTÓRICO
Duas famílias estão no local

Em dezembro do ano passado foi assinado o termo de compromisso para transferência da área do Glória para a Cohab Minas. O recebimento aconteceu na última semana. Uma medida provisória assinada pelo presidente Michel Temer no final de 2016 possibilita que União e suas autarquias e fundações transfiram a Estados e Municípios áreas públicas ocupadas por núcleos urbanos informais para fins de reurbanização. Essa legislação facilitou a negociação com a UFU para que a área ocupada do Glória fosse regularizada.

A área foi invadida entre o final de 2011 e o início de 2012, quando famílias ligadas ao Movimento Sem Teto do Brasil (MSTB) começaram a chegar ao terreno de 65,9 hectares. Atualmente, estima-se que quase 2 mil famílias estão no local, muitas dividindo casas, o que geraria uma população de 15 mil pessoas.

O nome do bairro é uma homenagem ao professor Élisson Cesar Prieto, que fez parte do corpo docente do Instituto de Geografia da UFU e morreu aos 32 anos, em outubro de 2012 vítima de câncer. Ele ajudou nas negociações entre movimentos sociais, Governo e UFU em relação da área do campus do Glória hoje ocupada.

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