26/06/2018 às 07h58min - Atualizada em 26/06/2018 às 07h58min

Dois discos políticos e universais provocam renovação do feminino

DEBORA PILL | FOLHAPRESS
"Trança", terceiro disco da cantora, compositora e cineasta Ava Rocha, chega entrelaçando liberdade, afeto e colaboração coletiva. São 19 faixas e 35 artistas que habitam um território musical inventado por Ava e que tem no encontro sua força geradora.

O fluxo narrativo-sonoro é contínuo e percorre presente, passado e futuro. Ava costura sua arqueologia pessoal com deusas e líderes revolucionárias. Inventa seu feitiço, canta dualidades e ri de si mesma.

Ritmo, experimentalismo e espiritualidade dão o tom. "Maré Erê" abre os trabalhos com uma evocação à força da alegria e renovação da vida, envolta em um poderoso coro de vozes femininas composto por Juçara Marçal, Iara Rennó, Bella, Juliana Perdigão, Karina Buhr e Uma, sua filha.

"Lilith", belíssima parceria com Tulipa, tem levada à la Jorge Ben e vocação para hino pop feminista. Mas atenção: o feminismo de Ava é libertário, dialético e transcende gênero, como mostra "Joana Dark", um funk de terreiro com cheiro de erva sagrada, entoado por Linn da Quebrada, Alessandra Leão, Ariane Molina e Mariá Portugal. A letra brinca com várias possibilidades dessa Joana, que manda, queima e dá.

Os títulos das faixas já renderiam um filme. Nele, Erês, Liliths e Joanas Dark coexistem com Dorivais, Bárbaras, Miltons e Itamares.
Corta. Irrompe no horizonte "Cavala", primeiro disco solo de Maria Beraldo. Como Ava, ela é figura ativa na cosmologia de sua geração, colaborativa e inventiva. É integrante do grupo Quartabê, faz parte da banda de Arrigo Barnabé e já colaborou com Elza Soares, Iara Rennó, Rômulo Fróes.

Em "Cavala", liberta-se de suas próprias rédeas. No disco, ela canta, toca clarinete, clarone, guitarra, sintetizadores e também faz programações eletrônicas. A estrutura sonora é concisa, de poucos elementos e curta duração. Sua poesia, doce, íntima e densa, tem pulso próprio e transborda nas ricas paisagens instrumentais, entrecortadas por ruídos.

Em "Amor de Verdade", canta uma conversa honesta: "Pai, gosto muito dos homens, sim/ De tê-los ao alcance da boca, sim/ Mas no calor da manhã quem me fez delirar foi uma mulher/ Como é minha mãe".

"Sussussussu", sua e de Mariá Portugal, é baião experimental bem-humorado, só com voz e programação, com vocação para hit de pista.

Dois discos políticos e universais que, em suas singularidades, provocam a renovação do feminino em sua força motriz.
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