08/06/2018 às 09h58min - Atualizada em 08/06/2018 às 09h58min

A tragédia carioca de Nelson Rodrigues

Premiada montagem de “Boca de Ouro” chega a Uberlândia para duas apresentações no Municipal

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
JOÃO CALDAS/DIVULGAÇÃO
“Guardadas as proporções, Nelson Rodrigues é nosso William Shakespeare”. Com essas palavras, Gabriel Villela mostra a riqueza da obra do dramaturgo brasileiro. Em diferentes épocas, tanto Rodrigues quanto Shakespeare, estiveram à frente de seu tempo. Seus textos atemporais deságuam no século 21 arrebatando admiradores na arte, que em todos os seus segmentos é reveladora, clarividente e trava uma eterna batalha com um nebuloso cenário político e social. Villela é diretor de “Boca de Ouro”, espetáculo teatral com sessões amanhã e domingo (10), no Teatro Municipal de Uberlândia. A peça foi indicada a dois prêmios Shell e teve temporadas de sucesso em São Paulo e Rio de Janeiro e escalas em Belo Horizonte, Curitiba, Campo Grande e Porto Alegre.
Villela, natural de Carmo do Rio Claro (MG), tem uma extensa lista de trabalhos premiados como diretor, figurinista e cenógrafo. Malvino Salvador e Lavínia Pannunzio, também entrevistados pelo Diário de Uberlândia, teceram elogios ao diretor. “É uma condição natural nossa, como diretores, servir o ator desde o primeiro instante em que ele entra no processo de criação. Eu e o Claudio Fontana, que atua e é produtor no espetáculo, no período de pré-produção desenvolvemos um entorno para que o ator comece a se projetar. Nós os cercamos de poesia de inspiração. São pequenas delicadezas que fazem um contraponto com a rudeza do mundo à nossa volta”, disse o diretor, em entrevista por telefone na manhã de ontem.
“Boca de Ouro” se passa no Rio de Janeiro, quando ainda era a Capital Federal. O texto é de 1956. O protagonista, vivido por Malvino Salvador, é um lendário bicheiro carioca. Homem temido e com tendências megalomaníacas, trocou os dentes por uma dentadura de ouro, daí o título da peça. Conhecido, entre outros apelidos, como o Drácula de Madureira, Boca de Ouro é assassinado.
A imprensa tem um importante papel na história. O passado do bicheiro é vasculhado pelo repórter Caveirinha (Chico Carvalho), que procura a ex-amante do bicheiro, Guigui (Lavínia Pannunzio). Os personagens têm três diferentes versões, dependendo de como Guigui os desenha. Sua versão da personalidade do bicheiro muda a partir do momento em que ela sabe de sua morte. Depois, muda de novo em sua tentativa de manter o atual marido, Agenor (Leonardo Ventura). Guilherme Bueno interpreta a figura de Iansã que aparece toda vez que uma cena de morte acontece.
“A Lavínia é a máquina teatral dessa fábula, eu a considero uma das melhores atrizes do teatro brasileiro”, disse Villela, que não para por aí. “Temos um elenco excessivamente jovem, porém, muito maduro. A alma deles é antiga, não acompanha a idade cronológica”, disse o diretor que admira os universos de diretores não-realistas como Akira Kurosawa (1910-1998) e Luigi Pirandello (1867-1936).
Villela destaca o quadrado dramático entre Guigui, Caveirinha e o casal Celeste (Mel Lisboa) e Leleco (Claudio Fontana), que levam Boca a morrer de diferentes maneiras. “Naquela época já existia fake news. Temos uma tragédia carioca muito engraçada”, afirmou.

LAVÍNIA

Na manhã de quarta-feira (6), Lavínia Pannunzio conversou com a reportagem do Diário de Uberlândia em um café no bairro Fundinho, a poucos metros da casa em que cresceu. Filha da escritora Martha Pannunzio, tem sua infância e dos quatro irmãos contada no livro “Veludinho”, que completou 40 anos em 2018. “Jura que já fez 40 anos! Esse livro é muito lindo, lembro direitinho da nossa casa que ficava perto daqui. Foi aquela infância sem muros, entre os quarteirões. A gente conversava com os vizinhos do lado e dos fundos”, recorda.
Com os cabelos em tom avermelhado por conta de seu papel no filme “Pérola”, que começa a gravar na semana que vem, ela demonstra a paixão pela atuação em cada gesto, em cada palavra. “Pérola” tem roteiro de Murilo Benício e Adriana Falcão, com direção do Murilo e conta a história do Mauro Rasi (1949-2003), escritor e dramaturgo brasileiro.
Lavína também batalha um financiamento coletivo para uma peça sobre Elizabeth Costello, alter ego e um dos personagens do escritor sul-africano J. M. Coetzee. “Fiquei apaixonada por ela e como não consegui apoio de nenhum edital vou tentar o financiamento coletivo”, comentou.
Mas neste final de semana a vida dela é Guigui. “Ela é uma carioca suburbana que vive um romance tórrido com o Boca de Ouro. Um ano depois ele morre e um repórter, o Caveirinha, a procura para ver se ela conta algum podre do Boca de Ouro porque querem espinafrá-lo no jornal. Como Guigui está com dor de cotovelo o desenha como um monstro, um assassino sanguinário”, conta Lavínia que não se apresenta na cidade há 28 anos. “A logística de viajar pelo Brasil ainda é muito complicada, infelizmente”.
Porém, ao saber do assassinato do ex ela muda a narrativa. “Nesse momento ela muda o discurso e começa a falar dele como se fosse um lorde inglês. Nesse momento ela desconfigura também dois personagens centrais da história, Celeste e Leleco. E entra outra história. Quando o marido diz que vai embora por conta desse amor declarado por Boca de Ouro ela muda de novo a história para enaltecer o atual marido, colocando o Boca como um covarde. É uma mulher intensa e dramática”, conta a atriz.
A ambientação, figurino e trilha sonora do espetáculo são atrações à parte. “O imaginário do do Gabriel não tem limites. Ele brinca com a disposição das linguagens da peça. Ele leu a peça de uma forma maravilhosa. O Boca nasceu em uma pia de gafieira, a mãe não sabia que estava grávida e o largou lá. Ele quer criar para si uma imagem eterna, mítica. O Gabriel fez o percurso de mito com esse personagem que termina na sarjeta. Ele vai do lixo para o lixo e o Gabriel fez isso lindamente”, finaliza a atriz.

SERVIÇO

O QUE: Espetáculo teatral “Boca de Ouro”
QUANDO: sábado (9) às 20h30 e domingo (10) às 19h
ONDE: Teatro Municipal de Uberlândia (Av. Rondon Pacheco, 7.070, Tibery)
INGRESSOS: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada) à venda na bilheteria do teatro, na loja Provanza (Center Shopping); Brasal Incorporações, no Jardim Karaíba; Bouclè Salon, no Morada da Colina ou pelo megabilheteria.com (com taxa de conveniência)
DURAÇÃO: Duração: 100min
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
 
FICHA TÉCNICA
TEXTO: Nelson Rodrigues.
DIREÇÃO, CENOGRAFIA E FIGURINOS: Gabriel Villela.
ELENCO: Malvino Salvador, Lavínia Pannunzio, Mel Lisboa, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Leonardo Ventura, Cacá Toledo, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold e Guilherme Bueno.
ILUMINAÇÃO: Wagner Freire.
DIREÇÃO MUSICAL E PREPARAÇÃO VOCAL: Babaya
ESPACIALIZAÇÃO VOCAL E ANTROPOLOGIA DA VOZ: Francesca Della Monica.
PIANISTA: Jonatan Harold
FOTOS: João Caldas
DIRETORES ASSISTENTES: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo.
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Luiz Alex Tasso
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Claudio Fontana
PRODUÇÃO LOCAL: Uberlândia na Rota do Teatro
 
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