22/05/2018 às 05h00min - Atualizada em 22/05/2018 às 05h00min

A superação é o que move tenista uberlandense

Em abril, Gustavo Carneiro participou de uma prova de corridas na Patagônia Chilena

ÉDER SOARES | REPÓRTER
 
Desde outubro do ano passado, quando passou por cirurgia para a retirada de parte da perna esquerda, o administrador de empresas e atleta Gustavo Carneiro, de 45 anos, tem definido metas claras para o seu futuro no paradesporto. Entre os planos mais ousados está o de ser, até 2019, um dos três melhores tenistas em cadeiras de rodas do Brasil e representar o País em torneios pelo mundo.

O Diário de Uberlândia vem acompanhando o caminho deste esportista nato, que desde a infância passou por várias modalidades, sempre priorizando a atividade física como parte de sua rotina. Em abril deste ano, mesmo ainda não estando totalmente adaptado a prótese, ele esteve em uma corrida na Patagônia Chilena, onde completou a prova andando, pois ainda não tem o equipamento específico para corridas. Em seu esporte preferido, o tênis, ganhou o primeiro troféu em um torneio disputado em Uberlândia. São os primeiros meses para quem está reaprendendo a caminhar pelos trajetos que ama.

Diário de Uberlândia: Depois da cirurgia, como está a sua vida esportiva?

Gustavo: Retornei aos esportes o mais rápido possível. Com 14 dias fazia musculação, 28 dias estava nadando e com 40 dias comecei a treinar o tênis em cadeira de rodas.

O esporte faz parte da sua rotina desde quando?

Acho que a minha vida toda, desde a infância mesmo. Eu sou um viciado em esporte, assumido, tanto que sempre em minha vida preferi ir para uma corrida do que para uma balada, por exemplo, pois tenho uma motivação fora do comum para me superar e vencer osbstáculos.  Fazer atividades físicas faz parte da minha filosofia de vida e acho que consigo, às vezes, passar isso para outras pessoas.

Quais as suas metas para este ano e 2019?

Tenho dois objetivos muito bem definidos. O primeiro é, até 2019, estar entre os três melhores jogadores de tênis em cadeira de rodas do brasil e representar o país em todos os torneios internacionais. E o segundo é voltar a correr ainda este ano e treinar para minha primeira maratona com a prótese.

Você conquistou seu primeiro troféu no tênis em cadeira. Como se sentiu?

Joguei agora, em maio, um torneio de duplas no Cajubá. É um torneio que acontece a cada dois meses e cada etapa é em uma cidade da região. Foi a primeira vez que o torneio contou com a presença de dois cadeirantes. Fiquei em segundo lugar na classe C. Como me senti? Queria ter ganhado né (risos). Brincadeira à parte, foi uma experiência incrível e já conseguir um troféu foi maravilhoso.

Em relação ao tênis, qual o foco agora em diante?

Vou disputar todos os torneios do calendário da Internacional Tennis Federation (ITF) no Brasil. Será um torneio por mês, a partir de julho. Somente através destes torneios conseguirei conquistar pontos e atingir meu objetivo até 2019. No mês que vem, vou para São Paulo disputar um torneio entre os estados. Será no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro.

A mudança física e uso de próteses alterou em que a sua rotina?

Ainda estou afastado do trabalho. Apesar de ter feito a Ultra Fiord com a prótese, ainda não posso dizer que estou 100% adaptado. Por exemplo, desde que voltei da corrida não usei mais a prótese em função de uma inflamação no coto, que me deu em janeiro, e não tratei direito na época. Preciso ir na empresa que fez a prótese, em Belo Horizonte, e refazer o encaixe da prótese.

Fale sobre a sua aventura no Ultra Fiord na Patagônia Chilena.

A corrida foi no dia 4 de abril numa cidade chamada Puerto Natales, no sul do Chile. A minha prótese não é de corrida. É uma prótese para andar, então caminhei todo o percurso. Foi uma experiência incrível por vários motivos. Foram 30 km em 27h, larguei na quarta, às 8h, e terminei na quinta às 11h da manhã.

Estava sozinho ou com uma equipe?

Estava com meu fisioterapeuta, o Paulinho. Cruzamos uma madrugada de 5 graus negativos, com lama até na coxa em vários momentos, enfim foi uma prova muito mais difícil do que imagina. Achei que faria em 15h e quase precisei do dobro de tempo para concluí-la. Ainda não defini nenhuma meta para as corridas esse ano porque quero estar com a prótese de corrida, o que espero que aconteça nos próximos meses, aí sim poderei planejar a próxima.

O que tudo isso lhe traz como lição de vida?

A lição que tiro com a amputação é que temos que viver intensamente, buscando realizar nossos sonhos e objetivos e a evoluir como uma pessoa melhor sempre.

Você se sente mais disposto e motivado do que antes?

Tenho a mesma disposição e motivação do que antes, aliás, acho que mais do que antes, já que agora tenho um objetivo muito grande no tênis. Graças a Deus, aceitei bem o que me aconteceu e não tenho problema nenhum que me vejam amputado ou numa cadeira de rodas.

O que você tem a dizer para pessoas que recentemente passam por situações semelhantes?

Agradeçam por estar vivas. Esse é o maior presente. Depois procurem calmamente melhorar a sua situação, procurem fazer alguma coisa que lhe tragam alegria, que te façam vibrar.

Como você enxerga a estrutura de Uberlândia em relação ao paradesporto.  Você acha que está bom ou falta muita coisa?

Sinceramente não parei para pensar sobre isso. Mas com certeza temos uma estrutura razoável visto que temos campeões em diversas modalidades como natação e atletismo.

Você chegou a conquistar alguns títulos na época que iniciou no esporte?

Sim, conquistei alguns torneios de tênis pela região, sendo que em 1986 fiz até uma clínica com um dos grandes nomes do tênis brasileiro, que é o Carlos Alberto Kirmayr, revelador de muitos talentos do tênis nacional. Fui primeiro nível na classificação, fui convidado para ficar como atleta em sua escola, mas acabou que não deu certo por questão de distância de casa mesmo. Foi uma frustração que tive, pois tinha o sonho de ser um tenista profissional, mas não deu certo e consegui seguir sempre feliz praticando esporte e me satisfazendo dentro daquilo que gosto de fazer.
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