07/05/2018 às 08h49min - Atualizada em 07/05/2018 às 08h49min

Árbitro: a autoridade máxima do jogo

Profissão é complicada, mas enche de realização quem apita jogos amadores ou profissionais

ÉDER SOARES | REPÓRTER
 
Ser árbitro de futebol é a função mais difícil e polêmica dentro do futebol profissional. Mesmo assim, muitos ainda têm a coragem necessária para encarar este desafio, seja por campos de futebol amador, de várzea, até chegar aos almejados escudos Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e Federação Internacional de Futebol (Fifa), nos quais o status profissional muda de figura e os donos do apito passam a trabalhar em grandes clássicos brasileiros e sul-americano. A pressão por parte das equipes, torcedores e da mídia em geral é grande em cima deles, que têm a obrigação de acertar a marcação de um lance em fração de segundos.

O Diário de Uberlândia foi a campo para falar com árbitros locais, alguns muito jovens e que almejam se destacar na carreira. Entre todos os personagens que a nossa reportagem conversou, uma situação é fundamental e foi destacada unanimemente. Para ser árbitro ou assistente de futebol é preciso ter paixão pela arbitragem e não temer os seus desafios.

A Liga Uberlandense de Futebol (LUF), que promove várias competições em nível amador e de categorias de base e indica árbitros para o quadro da Federação Mineira de Futebol (FMF), conta atualmente com 86 árbitros e assistentes, todos qualificados através de cursos ministrados por profissionais FMF. Um árbitro da LUF tem ganhos médios que variam entre R$ 65 (assistente) e R$ 130 (árbitro), por partida, dependendo do nível da competição. Para quem é daqui, este é o primeiro passo para a escalada na profissão, depois ingressando no quadro da Federação Mineira, da CBF e Fifa, crescimento que depende do destaque de cada árbitro.

No Campeonato Brasileiro, os árbitros que têm no peito o almejado escudo da FIFA recebem um valor entre R$ 3,5 mil e R$ 4 mil por partida. Se o árbitro for aspirante à FIFA, a quantia cai para R$ 2 mil e RS 2,5 mil. Já nas situações dos árbitros assistentes, antigamente conhecidos como bandeirinhas, a grana é menor. Na Série A, os auxiliares FIFA ganham entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil, e os aspirantes entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil.

Estes valores, no caso do Brasileirão, podem variar dependendo de casa divisão e ter alteração de ano a ano. Árbitros renomados e que mais trabalham chegam a faturar mensalmente um valor próximo aos R$ 100 mil ao ano, com as inclusões de ajuda de custo dada pela CBF.

PRATAS DA CASA

Em Uberlândia uma nova safra de árbitros vem chegando com o desejo de levar o nome da cidade ao cenário da arbitragem nacional e internacional. Um destes é Luiz Gustavo Cruz Bindela, de 18 anos. O estudante começou a apitar por brincadeira, em 2016. Integrando o quadro de árbitros da LUF, ele é observado pela entidade como uma das promessas da arbitragem local e quer galgar o seu espaço até um dia chegar ao quadro da CBF e Fifa, assim como o ex-árbitro araguarino Alicio Pena Junior, atualmente membro da comissão de arbitragem da CBF e que começou a carreira na Liga Uberlandense de Futebol.
 
“No começo eu tinha vontade de ser jogador de futebol. Joguei de 2012 a 2015, mas em 2016 houve essa vontade de conhecer a arbitragem. Me decepcionei com o futebol e tive a vontade de conhecer mais de perto a arbitragem. Comecei a apitar alguns jogos antes de entrar na Liga. Em 2016, aconteceu um curso ministrado pelo atual presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Mineira, Giuliano Bozzano, eu fiz e fui aprovado. Ali começou a minha vida na arbitragem”, disse Luiz Gustavo, que falou ainda sobre as suas metas na carreira.

Em junho, ele e outros árbitros aspirantes ao quadro da entidade mineira farão os testes físicos em Belo Horizonte e se aprovados estarão aptos para trabalhar em partidas do Campeonato Mineiro.

“A minha segunda meta é entrar no quadro de árbitros da FMF. Depois disso, minha próxima meta é chegar à CBF, apesar que para você entrar nos quadra nacional de arbitragem é necessário ter a idade mínima de 20 anos. No meu caso, só poderei a partir de 2020. Assim sendo, mais tarde, quero chegar até a Fifa, o que é mais difícil, mas estas são as minhas metas”, afirmou Gustavo, que no pouco tempo de arbitragem apitou em várias finais de competições da LUF.

José Eduardo Costa Santos, de 17 anos, é árbitro assistente e companheiro de Luiz Gustavo em várias partidas. O início da carreira aconteceu justamente por incentivo do amigo. “ O Luiz Gustavo chegou na minha casa, em 2015, me pedindo para bandeirar um jogo. Eu disse para ele que não sabia bandeirar, mas ele insistiu. Fomos lá, apitamos de forma bem legal e começamos a gostar. Todo amistoso que tinha no Poliesportivo Tancredo Neves a gente passou a apitar”, disse Eduardo, que também tem planos ambiciosos para o futuro.

“Almejo chegar até a CBF e quando estiver com mais rodagem ao quadro da Fifa, que é o meu sonho. Sei que para conseguir o que eu quero precisarei me qualificar sempre, fazer cursos de capacitação e nunca desistir”, disse o assistente que falou ainda sobre as polêmicas na profissão.

“Ser árbitro é ótimo, mas quando acontece algum erro, às vezes, é chato. Somos xingados, nos jogam água e até cerveja. Tirando isso, é bom demais. Somos considerados os anticristos do futebol. Mesmo acertando somos criticados, mas isso faz parte do futebol e nunca vai mudar. Precisamos estar sempre preparados para as críticas e ter personalidade”, afirmou.

OPINIÃO

Presidente da LUF diz que exposição é ruim

O diretor da Comissão de Arbitragem da LUF, Ricardo Graciano, foi árbitro na década de 1980. Ele, que é também o vice-presidente da entidade que rege o futebol local, acredita na nova safra de árbitros uberlandense e se posiciona contra algumas novidades na arbitragem, como auxiliares e árbitro de vídeo.

“Os árbitros são muito cobrados e quanto mais se coloca artifícios para facilitar, mais piora, como o árbitro de vídeo e árbitros adicionais que não ajudam em nada, maior parte das vezes. Tem imagem que é clara e tem algumas que não são tantas. A exposição a que a mídia coloca os árbitros nos dias de hoje funciona de forma muito covarde, colocando em cima deles, muitas das vezes, toda a responsabilidade de resultados”.

EXPERIÊNCIA

Um dos mais experientes apitadores de Uberlândia, Eliseu Felix da Silva, de 45 anos, tem no currículo a condução de várias finais de jogos da primeira e segunda divisões, e ainda de competições regionais. Eliseu começou a apitar nos campeonatos de terrão em 1989. Na LUF, ele está desde 2003. “Nunca quis chegar à Federação Mineira porque, naquela época precisava ir para Belo Horizonte, e eu tinha família recente”, afirmou o árbitro, que no ano passado voltou aos campos para apitar o Jogo as Estrelas, no Estádio Parque do Sabiá.

“Eu digo que ser árbitro é uma profissão digna e que você precisa ser apaixonado. Tem muitos obstáculos, de alto risco. Você lida com pessoas, tem aqueles que entendem e outros que não entendem. Você nunca vai agradar todos. Digo para os novos árbitros que é preciso ter amor, dedicação e critério na parte técnica e disciplinar. Quem faz arbitragem é porque gosta mesmo. Pretendo apitar somente por mais uns cinco anos, pois já são 18 anos seguidos deixando a família um pouco de lado, principalmente aos finais de semana”, finalizou Eliseu.

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