01/04/2018 às 05h05min - Atualizada em 01/04/2018 às 05h05min

O preço que se paga para fazer a alegria da galera

Antes dos holofotes e do som plugado os profissionais da música precisam se desdobrar para viver da própria arte

IGOR MARTINS | APRIMORAMENTO PROFISSIONAL
Michel Platini, Max Oliveira e Eduardo Lúcio durante bate-papo com o Diário | Foto: Adreana Oliveira

“Eu não vou pagar o couvert artístico”. “Só posso entrar se eu tiver que pagar o couvert?”. “O couvert está muito caro.” Estas são apenas algumas das frases ouvidas pelos bares, restaurantes e casas de show. Por mais que a vida noturna na cidade de Uberlândia ofereça à população uma variedade de shows, os músicos vêm sofrendo com uma grande desvalorização de sua classe, pagamentos ruins e rotinas extremamente cansativas. E nada disso deve interferir na entrega que eles fornecem no palco. Os problemas precisam ficar para trás. Ali é feito o trabalho mais “fácil”.

Para a grande maioria dos músicos e bandas a vida é diferente do que é visto em grandes festivais como o Lollapalooza ou o Rock in Rio. Chico Buarque, um dos maiores nomes do MBP, escreveu em sua música “Cantando no Toró”, uma crítica sobre o que acontece de fato no dia a dia dos artistas. No refrão: “Festa acabada, músicos a pé, músicos a pé.” Para alguns musicistas, a rotina de shows, ensaios e estudos é algo desafiador e estressante.

O jornal de Uberlândia reuniu alguns profissionais na semana passada para falar desse cenário. Vale lembrar que se trata somente de um recorte. Afinal, a cidade é rica em talentos dos mais variados estilos.

Nossos entrevistados, dos segmentos pop, rock e sertanejo, foram unânimes em não falar em uma suposta crise no mercado, mas sim da questão da valorização desse profissional que muitas vezes precisa de desdobrar para conseguir viver de sua arte.

No ano passado a morte do músico e jornalista Kid Vinil, um ícone da música e do jornalismo musical brasileiro, mexeu com muitos profissionais dessa área, carente de algumas regulamentações. Na época, Kid discotecava em uma festa e, segundo noticiado pela imprensa, não tinha plano de saúde. A transferência dele para um hospital com melhor capacidade para atendê-lo ocorreu graças à Jovem Pan, rádio na qual ele trabalhou por muitos anos.

Segundo Alexandre Barbosa, baixista da banda Mafu, a regulamentação da profissão dos músicos com direitos é essencial para uma maior valorização dos musicistas. “Músico, em sua maioria, não é uma profissão estabelecida. Não tem direitos, férias e nenhum seguro. O que me entristece é que poucos músicos se importam com estas situações”, afirmou.

O uberlandense, com cerca de 30 anos de experiência lembra do início de sua carreira: “Eu comecei na área musical aos 16 anos fazendo cover da banda Titãs. No meu primeiro show, em 1994, recebi R$ 250. Hoje em dia é muito difícil nos pagarem este valor, claro, com algumas exceções”, disse.

O valor recebido por Alexandre há mais de 20 anos não é tão diferente do pagamento que grande parte dos músicos de Uberlândia recebem atualmente. Eduardo Lúcio, guitarrista de duas bandas da cidade, afirmou que os cachês que ganha hoje são praticamente iguais aos de dez anos atrás.

Eduardo também é professor de violão e guitarra e acredita no valor de mercado de cada grupo musical ou cantor e destaca o bom senso. “Se eu consigo encher a casa do dono de um bar, ele tem que me pagar mais. Se a galera não curte a minha música, por que ele vai me oferecer um cachê maior?”, disse Eduardo.

Assim como o guitarrista, o músico uberlandense Michel Platini acredita que a entrada de novos artistas no mercado em Uberlândia é difícil. Para o cantor, muitos musicistas acabam se sujeitando a trabalhos que extrapolam vários limites. “Se o cara é novo na área musical e quer mostrar o seu som para a galera, acaba tocando de graça em muitos locais”, afirmou.

Para Michel, são muitas as variações da realidade de cada um, que vai de uma banda cover que tem um cachê de R$ 7 mil por duas horas de show e outra que ganha R$ 350. E para quem insiste em uma carreira autoral, a situação ainda é mais complicada. “Nesse sentido é preciso ter planejamento. Se focar só no cover você não sai dali, mas a construção da identidade da banda é algo que deve ser muito bem trabalhado. Depois disso não tem mais volta”, comentou ele que além de shows solo de voz e violão integra a banda Platinados e é vocalista da SkyHell, banda de metal com dois CDs lançados e por hora está parada.

Max Oliveira, empresário e integrante da banda Don Dillinger, criticou o comportamento de alguns músicos da região. “É normal a gente ver um artista criticando o outro, dizendo que um cobra menos por um show.” O uberlandense, diferentemente de Eduardo e Michel, não vive de música, mas afirmou que a música é uma paixão. “Eu faço porque eu amo. Eu organizo alguns eventos para a minha banda. Mesmo levando paulada, eu continuo insistindo principalmente na produção do som autoral”, disse.

De acordo com Paulo Ricardo, artista que se apresenta na região, o estilo musical que oferece mais oportunidades na cidade é justamente aquele com o qual o cantor trabalha, o sertanejo. Por outro lado, ele disse que com cada vez mais cantores chegando a Uberlândia a falta de serviço é algo normal. “Todo dia tem alguém novo no mercado. Em uma cidade grande como essa, muitas vezes fica difícil, até porque o uberlandense não dá muito valor para quem é daqui e prefere chamar alguém de fora”, afirmou.

Além disso, o artista falou sobre os altos custos que os músicos têm. “Eu tenho cerca de R$ 6 mil em equipamentos para fazer os meus shows. De 15 em 15 dias, eu troco as cordas do meu violão, que fica, em média, cerca de R$ 80. Os impostos aqui no Brasil atrapalham todo mundo. Por fim, a gasolina é a gente que paga, também”, contou.

Assim como Platini, Paulo falou sobre as multifunções de um músico e contou sobre sua vida fora dos holofotes. “As pessoas esquecem que nós temos uma vida pessoal. Eu tenho três filhos, tenho minha família, mas mesmo assim, trabalho de quarta a domingo, para no fim, ter um dinheiro para sobreviver”, detalhou o cantor sertanejo.

PROJETO DE LEI

Em Uberlândia, pretende incentivar artistas locais garantindo espaço na abertura de eventos com público superior a 500 pessoas. Um projeto de Lei aprovado na Câmara Municipal de Uberlândia no dia 7 de março estabelece que os shows musicais de cantores ou bandas nacionais e internacionais realizados na cidade deverão ter a participação de músicos uberlandenses. O projeto de lei é de autoria do vereador Doca Mastroiano e depende agora somente da assinatura do prefeito Odelmo Leão, o que se espera que aconteça nos próximos dias.


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