18/02/2018 às 05h58min - Atualizada em 18/02/2018 às 05h58min

Chef uberlandense realiza sonho em Paris

À frente do Bistro Paradis Alexandre Furtado fala sobre sua trajetória desde que deixou a cidade natal

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Chef Alexandre Furtado saiu de Uberlândia em 2004 em busca de novas oportunidades / Foto: Divulgação

Alexandre Furtado voltou a Uberlândia, sua cidade natal, que não visitava há dez anos. Porém, ele voltou muito diferente do Alexandre que decidiu se mudar para a Europa em 2004 em busca de mais oportunidades, cultura e qualidade de vida. Hoje ele tem seu próprio restaurante na capital gastronômica do mundo: Paris, na França. Durante a entrevista percebe-se que ele já pensa em francês quando puxa um leve sotaque ou esquece uma ou outra palavra do idioma materno. Porém, o Alexandre que visitou a redação do jornal Diário de Uberlândia não deixou que o sucesso tirasse seus pés do chão. De atitude humilde, avalia que seu sucesso nada mais é que fruto de muito trabalho.

“Deixei o Brasil em 2004 e fui primeiro para a Inglaterra primeiro. Em 2005 comecei a trabalhar na cozinha como lavador de pratos e rapidamente, como já sabia cozinhar, subi de posto e alcancei o cargo de chef de partie”, recorda ele referindo-se a nomenclatura para os encarregados de uma determinada área de produção na cozinha que pode ter vários assistentes ou cozinheiros.

Mesmo trabalhando e estudando o idioma inglês, ele sabia que precisava aprimorar seus estudos na área gastronômica e iniciou seus estudos específicos em Bournemouth, cidade-resort litorânea, no condado de Dorset, no sul da Inglaterra. Aos vinte e poucos anos ele levava do Brasil o talento nato para a cozinha. “Eu sempre cozinhava nos nossos encontros. Meus pais eram separados e eu costumava passar as férias com minha mãe na fazenda. Lá eu acompanhava tudo, ajudava no abate do porco ou da galinha até chegar ao produto final, na mesa. Na casa dos amigos eu já era o chef informal”, contou o chef que percebeu que queria investir na paixão que ainda estava um pouco escondida.

Como o chef e empreendedor ele é grato a cada fase da carreira, desde quando lavava pratos. “A gente tem que ter o olho em todo o processo, conhecer toda a cozinha para que o pedido chegue da melhor forma à mesa do cliente”, disse Furtado.

FRANÇA

Depois da temporada em Bournemouth o chef decidiu se mudar para Londres, onde trabalhou ao lado do chef francês Alain Ducasse no palácio de Dorchester. “No castelo vi a essência da cozinha francesa aplicada nos restaurantes três estrelas”, recorda. Após tirar umas férias em Bournemouth conheceu a esposa, Fabienne, uma franco-brasileira, em 2009. “Ficamos cerca de um ano juntos até decidirmos nos mudar para Paris, que já era também um desejo antigo dela”, contou Alexandre Furtado que mesmo sem falar francês conseguiu um emprego em um bistrô perto do Palácio de Versalhes já como chef.

Em dois anos no local e com os estudos do francês a todo vapor, afinal, o francês é conhecido por não serem muito corteses com quem não fala seu idioma. “A partir daí decidi que precisava avançar. Saí distribuindo currículos por restaurantes estrela por toda Paris. Não queria incomodar o Ducasse pedindo para me indicar, queria ser reconhecido pelo meu nome”, afirmou Furtado.

Não demorou e ele recebeu o convite para trabalhar no restaurante de Christian Constant. “Comecei a trabalhar lá como sub chef. Quando o sócio e chef dele saiu, o brasileiro Eduardo Jacinto, eu fiquei com o posto de chef por dois anos e criamos uma amizade”, recorda o uberlandense.

Mas Eduardo Jacinto entrou na vida de Alexandre novamente. “Ele queria abrir o próprio restaurante e embarquei nessa com ele. Criamos o Le Pario, uma mistura de Paris e Rio, em 2013 com sucesso total na abertura. Em três meses recebemos estrelas de guias como o Michelin”, disse o empreendedor que neste momento percebeu que era hora de abrir o seu próprio negócio.

O SONHO

Em 2015 Alexandre Furtado conheceu seu atual sócio, um banqueiro convertido a área de restauração Yoann Dinh, que queria abrir um restaurante tailandês e o brasileiro se dispôs a ajudar com o que conhecia sobre cozinha mundial, ou fusion food. “Foi quando ele me apresentou o local onde hoje está nosso restaurante. Era do jeito que eu imaginava, um lugar pequeno para fazer o que eu gosto. Conversamos e ali surgiu o Bistro Paradis com uma sociedade 50/50”, contou Furtado.

O sonho de Alexandre agora tinha seu endereço: Rue de Paradis, 55, área movimentada da capital francesa. Era novembro de 2015, mês em que Paris foi vítima de uma série de atentados terroristas que deixou quase 200 mortos e mais de 300 feridos. “Abrimos dois dias depois dos atentados e bem próximos de uma das áreas atingidas, era um caos total”, recordou.

Mas Paris não se rendeu ao medo e nem o empreendedor. Foi quando ele percebeu, ao ver seu restaurante de pé, com lotação esgotada quase todos os dias, que tudo é possível. “Existem barreiras mas não há limites para quem luta pelo sonho. Quando vi estava chegando onde queria. Tem o estresse de abertura, a preocupação com os guias, faz parte do pacote. Afinal, há uma pesquisa que mostra que um chef empresário passa cerca de 21 horas em seu restaurante”, disse.

Pai de três filhos, Alexandre Furtado não quer deixar essa pressão ser o principal mote do seu trabalho. “Nosso espaço tem 20 lugares, trabalho com uma equipe de cinco pessoas e temos ótimos feedbacks dos clientes é que temos um cardápio variado, bom, com preços acessíveis com nível 3 estrelas, segundo eles, o que me deixa muito feliz. O primeiro espaço na imprensa que tive destacou o fato de eu levar para o público a gastronomia francesa a um preço agradável que as pessoas não têm medo de entrar”, disse o chef.

Ele comemora o fato de o almoço, por exemplo, tem quase sempre o dobro da procura de sua capacidade. “Por isso eu trabalho com um cardápio que muda todos os dias, uso muitos ingredientes do cardápio brasileiro como batata-doce, mandioca, açaí, junto com clássicos franceses. Mas tem um sucesso em particular, um porco da Espanha, o porco ibérico, que é criado comendo somente castanhas e leva, só de cozimento 26 horas”, contou.

Alexandre Furtado mas no dia a dia recebe bastante estudantes de cinema, fotografia e publicidade das redondezas além de muitos turistas, brasileiros entre eles, principalmente do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e do Norte do Brasil. Depois dessa visita à cidade natal ele espera que os uberlandenses que visitam Paris visitem mais seu espaço. “Já estamos entre os 10 melhores restaurantes do Trip Advisor em Paris e boa resenha do Michelin. Serão muito benvindos e poderão sentir um pouquinho da culinária brasileira com a técnica francesa.” Está feito o convite!
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