21/01/2018 às 05h12min - Atualizada em 21/01/2018 às 05h12min

Técnicos atuam em diversas frentes

Comandantes de equipes assumem novos papéis que extrapolam o treinamento tático; veja depoimentos

ÉDER SOARES | REPÓRTER

Ser treinador, seja em qualquer segmento esportivo, não é uma tarefa fácil, principalmente quando se encontra condições de estrutura pouco adequadas, nas quais o profissional acaba precisando acumular outras funções, como ser psicólogo, pai, amigo e até patrocinador.

Em Uberlândia existe uma gama variada de segmentos esportivos, praças de esportes, centenas de profissionais-treinadores, alunos e atletas. A cidade conta com equipes de alto rendimento no voleibol feminino e masculino, como o Dentil/Praia Clube, Gabarito/Uberlândia e Uberlândia Vôlei, além do Uberlândia Esporte Clube e CAP Uberlândia, ambas no futebol profissional, rubgy, futebol americano e todas as modalidades de atletismo paralímpico, com diversos campeões, e um dos campeonatos de futebol amador mais importantes do país.

Apesar de práticas distintas, há desafios em comum para os comandantes destas e outras equipes. A reportagem do Diário de Uberlândia conversou com alguns treinadores de diversos esportes para saber a opinião de cada um sobre o papel do treinador, suas dificuldades e missões, sejam aqueles que trabalham com mais ou menos estrutura.

Entre as pessoas que comandam equipes em Uberlândia está Lener Fernandes, que partirá para a segunda temporada como técnico do Uberlândia Lobos (o time passará a se chamar Aufa, nas competições nacionais, por causa de uma fusão com a equipe de Araxá). “Muito mais do que ser um técnico, eu preciso ser um psicólogo, um amigo, um pai, aquele cara que dá uma bronca e ao mesmo tempo um afago. Tem atleta que funciona na base do carinho, outro na base da bronca, e tem outros que vão na base da motivacional. Vejo que um grande desafio é saber trabalhar com todas estas diferenças”, disse Fernandes, acrescentando que o fato de ser o único profissional remunerado na equipe torna o trabalho na função ainda mais intenso.

Quem também tem experiência na função, mas desta vez no futebol, é o técnico Welligton Fajardo. Ele treinou o Uberlândia Esporte Clube por cinco vezes, sendo a última em 2014 no Módulo II do Mineiro. Atualmente, Fajardo mora em São João Nepomuceno, na Zona da Mata Mineira, onde mantém um centro de treinamento e escolinhas de base. Com conhecimento de causa, ele fala sobre o que entende ser mais relevante na relação de treinador/atleta e o que um treinador precisa ter na profissão, seja qual for o seguimento esportivo.

“Acho que, antes de mais nada, o treinador precisa ser um professor, mas professor na expressão da palavra, que é ter um curso, mas não é curso de 15 ou 20 dias. Eu tive a oportunidade de ser um ex-atleta e ter feito uma faculdade de educação física, por isso entendo que se você sai da faculdade tendo várias matérias que abordam temas que dão maior preparo, isso te dará melhor estrutura para lidar com todas as situações inerentes ao treinador”, afirmou o técnico, que também tem outras especializações na área. “Acima de tudo é preciso ter o respeito e disciplina. A minha forma de trabalhar é sempre respeitando o ser humano. Se ele errou o gol ou foi herói, entendo que é preciso ter respeito e tratar todos de forma igual”, completou Fajardo.

Já no futebol feminino, é Alexandre Damas quem compartilha suas experiências. Educador físico, ele é treinador no projeto “Diva do Dom Almir”, projeto de futebol feminino de salão e campo que tem sede no bairro Dom Almir, bairro que fica na zona leste da cidade. Damas é daqueles que precisa “matar um leão por dia” para manter o projeto.

“Por ser um projeto de futebol feminino é ainda mais difícil. Falta apoio para melhorar a modalidade e ter estrutura para elas demonstrarem o que podem fazer. Então a gente toca o projeto como pode, por amor. Acho que a questão de ser treinador não é somente trabalhar como educador físico, mas ser uma pessoa que irá ajudar outras a se tornarem melhores e que possam enxergar além do que estão vivendo”, afirma Damas. 
 
INVESTIMENTOS

Falta de recursos altera dinâmica das equipes

Leandro Garcia já passou pelas páginas de esporte do Diário de Uberlândia. Ele é um dos principais treinadores do esporte paralímpico do Brasil na atualidade, trabalha pela Fundação Uberlandense do Turismo Esporte e Lazer (Futel) e ministra treinamentos no Sesi Gravatás para a equipe Minas Olímpica.

“Sobre os desafios da profissão, temos vivido uma época de avanços em algumas áreas e retrocesso muito grande em outras. O esporte amador, e principalmente os esportes individuais, têm sofrido com a drástica queda do investimento no pós-olimpíadas. E isso tem gerado um transtorno muito grande”, afirma Garcia.

Segundo ele, é cada vez mais comum atletas terem de financiar as próprias participações em competições. “Os atletas têm precisado tirar dinheiro do bolso até para pagar um profissional extra para complementar a equipe técnica, pois, na maior parte das vezes, existe apenas um profissional de educação física, mas não se tem os de outras áreas que também são necessários. E isso é um atraso, pois um professor de educação física não tem como substituir um psicólogo, não tem como substituir um nutricionista e não tem como atuar na fisioterapia. Neste sentido, os atletas é quem ficam prejudicados. Dentro deste contexto, os treinadores têm se desdobrado visitando todas estas áreas, diariamente, buscando parceiros para atuar nestas áreas em falta.”

AVALIAÇÃO

Competências múltiplas são característica moderna

Para Rodrigo Scialfa Falcão, mestre em esportes e especialista em psicologia do esporte, os treinadores modernos têm de adquirir muitas competências e habilidades pessoais, a principal delas é saber trabalhar em equipe, delegando tarefas e papéis. “Outra competência é ser um líder democrático com os membros de sua comissão técnica e ser carismático com os atletas. Um líder democrático não quer dizer que ele não tenha opinião própria, ao contrário ele escuta seus colegas para tentar obter as melhores decisões. Um bom técnico transforma grupos de atletas em equipes, ou seja, desenvolve a coesão e o respeito acima das individualidades”, afirma o pesquisador em seu artigo “Psicologia, Esporte e afinidades”.

O técnico Manoel Honorato, que comanda o time de vôlei masculino do Gabarito/Uberlândia e coordena o projeto da Academia do Vôlei, também fala sobre as várias competências de um treinador.

“Existem os treinadores que treinam muito, na expressão da palavra, na ação de treinar. Tem o treinador técnico, que vai mais além buscando uma correção biomecânica diária. o treinador “paizão”, que é aquele psicólogo e que entende o dia a dia do atleta e a hora certa de puxar a orelha ou passar a mão na cabeça.

Além destes, existem também os treinadores estrategistas, que vão além da parte técnica, partindo para a parte tática-coletiva aprimorada, levando estas estratégias para seus atletas na hora do jogo”, afirmou.
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