31/12/2017 às 05h26min - Atualizada em 31/12/2017 às 05h26min

Cultura tem série de desafios para 2018

Ano ainda marcado pela crise, 2017 teve seus méritos às custas de iniciativas independentes e parecerias da SMC

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Encerramento do Festival de Dança do Triângulo no CEU Shopping Park / Foto: Cleiton Borges/Secom/PMU

 

O setor cultural de Uberlândia se despede de 2017 com a certeza de que mesmo desmotivada a classe artística tem feito sua parte para essa roda não parar de girar. Em um ano ainda marcado pela crise Mônica Debs retornou aberta ao diálogo à Secretaria Municipal de Cultura (SMC). Com um orçamento na casa dos 0,6% do montante do Município a palavra parceria marcou esse primeiro ano da gestão que tem grandes desafios para os próximos três anos. Além de Mônica Debs, o jornal Diário do Comércio contou com relatos de alguns dos realizadores da classe artística da cidade sobre as dificuldades enfrentadas neste ano e as perspectivas para 2018 nesse que é um recorte do que foi percebido neste ano.

 

TEATRO

Katia Bizinotto, gestora do Grupontapé de Teatro e presidente do Conselho de Cultura da Ordem dos Advogados do Brasil, resume 2017 para o teatro em Uberlândia como um incrível exercício de resistência. “Do ponto de vista do ambiente sem perspectivas em que estamos nós criamos oportunidades e nos reinventamos para continuar existindo. Trabalhamos mais com o revés do que com a sorte quando a arte e a cultura ficaram de escanteio e os artistas, em geral, tiveram sua legitimidade questionada”, explicou a representante do grupo que completou 22 anos com o belo espetáculo “Tempo de Águas”.

Para Katia, o decreto de calamidade pública pelo Município no início do ano - que impediu a realização de muitos eventos, entre eles o Carnaval e alterou o cronograma de repasse de verba do Plano Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC) – como uma atitude que levou à queda de produção no setor que teve também pouco apoio em esferas nacional e estadual.

Para ela, em âmbito local, é necessário a colaboração dos que representam a sociedade civil em lugares de poder como a Comissão de Avaliação e Seleção (CAS) e o Conselho Municipal de Cultura. “Por conceito, eles trabalham para a arte e cultura da cidade como um todo e não para seu grupo político ou artístico”.

Mônica Debs lembra que os membros da CAS são eleitos em assembleia por cada segmento, que escolhe seus representantes. “O papel deles é importante e requer responsabilidades. Eles têm autonomia para aprovar ou não projetos. Particularmente não sei se todos ali representam bem seus setores, mas tenho que aceitar as nomeações. Porém, afirmo que já quebramos o monopólio de algumas pessoas ali e agora quatro funcionários da SMC leem os projetos para argumentar com a comissão”, disse a Secretária.

Com 17 anos de carreira a atriz uberlandense Maria de Maria estreou seu primeiro espetáculo solo em 2017, “Mulher de Juan”, que contou com financiamento coletivo e após sessões de pré-estreia na Escola Livre do Grupontapé, teve sua estreia no Teatro Municipal no projeto “Boca de Cena”. Ela sente que o movimento teatral na cidade segue com muitos “poréns”. A atriz comenta que o diálogo entre os diversos setores da cultura parece não se efetivar. As pessoas se conhecem, mas o que se vê são pequenos eventos a acontecer para quem os realiza. Salvo raras exceções, o que é proposto pelo poder público tem pouca ou nenhuma adesão da classe por ser um núcleo que não agrega afetivamente um círculo de pessoas. A seu ver, a maioria dos eventos ainda é produzida para a própria classe e seus familiares, no caso da produção local, ou para um pequeno núcleo de pessoas que se interessam por arte ou pelo mundo da “fama” no caso de produções externas.

“A arte não devia se dar só por afetos. São tantas outras razões para que ela aconteça. Ela resiste porque há os apaixonados que não desistem dela”, disse a atriz que comenta que apesar de seus quase 700 mil habitantes Uberlândia tem uma cultura incipiente. “Não se pode dizer que existe a construção de um panorama contínuo em nosso cenário cultural. Manter os movimentos que já existem é fruto de um trabalho árduo e diário para a SMC, mas o investimento por parte dos setores mais altos do governo ainda é ínfimo”, comenta.

Com foco na sua realidade e nas dificuldades que tem ao empreender uma estreia, por exemplo, ou ao ver outros na mesma empreitada, Maria de Maria acredita que um dos nós da cultura possível de se resolver é a informação. “Precisamos de investimentos em divulgação para atingir um público maior”, disse.

Mônica reconhece que a classe artística está desmotivada e lamenta que a SMC não tenha verba para uma divulgação mais maciça. Conta com parcerias e a mídia espontânea. Porém, os esforços para a continuidade do PMIC resultam em produções cada vez mais próximas da população, inclusive, algumas, com acesso livre ou mediante ingresso a preço popular. O Festival de Dança do Triângulo deste ano teve seu encerramento no CEU do bairro Shopping Park. Apesar da qualidade das apresentações, o público local não correspondeu, como a reportagem constatou. A estrutura física do lugar também deixou a desejar.

Depois das apresentações deste ano melhorias já foram feitas no local, que atende cerca de 2,5 mil pessoas por dia e segundo a Secretária realiza oficinas para a comunidade com o intuito de levar esse público a participar de mais ações neste espaço, que tem parceria com Projeto de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Território (DIST), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

O produtor e jornalista Carlos Guimarães Coelho, um entusiasta e batalhador do teatro na cidade foi responsável por grandes produções em circulação nacional apresentadas por aqui em 2017 como o infantil “A Gaiola”, os musicais “É melhor ser alegre que ser triste”, “Léo e Bia”, a comédia “God”, com Miguel Falabella, e o drama “Esta criança”, com Renata Sorrah, e dois espetáculos de dança do Grupo Corpo, entre outras produções. E mesmo com um elenco de peso a realização dessas sessões não é fácil principalmente pelo alto custo da produção. “Trabalhamos muito e tivemos como recompensa o retorno emocional, a alegria de ver a plateia se sentindo tocada e feliz pelas apresentações. Apesar de todas as adversidades, podemos considerar um ano vitorioso”, disse ele que elogiou a reorganização do Teatro Municipal de Uberlândia. “A equipe foi ampliada. Novas regras surgiram. E os esforços da equipe gestora do espaço vão se consolidando em busca de melhorias. Vejo com bons olhos a gestão de Mônica Debs que tem sensibilidade artística e não poupa esforços para atender à demanda cultural da cidade. Nem tudo está ao seu alcance, mas, ao menos, há o diálogo e a tentativa de atender ao segmento em suas propostas”, afirmou o produtor.

Nossos entrevistados foram unânimes em falar da falta que fazem espaços como o Teatro Grande Otelo e o Rondon Pacheco. Sobre o primeiro, envolto em um processo repleto de burocracias, uma solicitação para o não tombamento ou mudança na volumetria da fachada da avenida João Pinheiro- que poderia facilitar o processo de restauração - foram negados pelo Ministério Público (MP). “No momento estamos conversando com dois arquitetos levantando os aspectos necessários na construção de um espaço cultural e o projeto deve chegar em fevereiro ao MP. Se aprovado daremos sequência aos projetos complementares como hidráulico e elétrico. É um processo muito lento”, disse a secretária.

Sobre o Teatro Municipal, Mônica Debs descarta a privatização que chegou a ser comentada neste ano. O Teatro Rondon Pacheco ainda depende de negociações com o Governo Estadual.

 

ARTES PLÁSTICAS

Lilian Tibery é artista plástica e proprietária de uma galeria de artes em Uberlândia. Para ela o ano de 2017 foi positivo no sentido de uma retomada com mais vigor das atividades na área cultural em comparação a 2016. “Apesar da onda de descrédito baseado em falta de conhecimento e que se reverteu em um puritanismo irreal, a classe artística se manteve unida e firme em seus propósitos de liberdade criativa. Há de se discutir sempre os caminhos da arte que não se confunde com artesanato ou decoração”, afirmou. Sobre os órgãos públicos espaços institucionais voltados para a arte na cidade ela percebe excesso de burocracia e falta de verba para o desenvolvimento de projetos.

Mônica Debs afirma que o processo de desburocratização já começou com a simplificação dos editais que levam a análises mais transparentes. A Secretária cobra também mais colaboração dos artistas. “Temos projetos interessantes e chamo a classe artística para vir e dar as suas opiniões em qualquer momento, não só nos de dificuldade. Por exemplo, abrimos um cadastro pela internet para conhecer quem são nossos agentes culturais e a adesão é mínima.”

 

AUDIOVISUAL

Yuji Kodato é um jovem uberlandense que tem chamado atenção no segmento audiovisual com participação em festivais também no exterior. Para ele, neste segmento, Uberlândia tem um balanço positivo no que se refere a iniciativas independentes, com um grande número de artistas emergentes realizando trabalhos valiosos a partir de orçamentos quase nulos e incentivos escassos. “De alguma maneira acredito que isso se refere a maior acessibilidade aos equipamentos, técnicas e conhecimentos para se produzir audiovisual e também pelo desejo sincero de criar e realizar trocas”, disse.

Entre as principais realizações do setor em 2017 Kodato destaca a Mostra de Cinema Negro, o Forum.Doc, a Mostra de Cinema Sesc, o Entretodos – Festival de Curtas-metragens sobre Direitos Humanos, o Cineclube Cultura na Oficina Cultural, o Cine Doc Clube com exibições na UFU, a Itinerância do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, a 1º Mostra de Cinema Casa Aberta na Trupe de Truões, entre outras.

Segundo Kodato há um grande número de jovens filmmakers, fotógrafos(as) e produtores audiovisuais que não têm formação na área, mas realizam investigações autodidatas e descobrem como realizar criações originais e fazê-las circular. Um desafio que ele vê para 2018 está em conectar estas pessoas em coletivos e organizações. “A cidade é carente de mobilizações da classe e o ano que vem é uma ótima oportunidade para estabelecer parcerias. Uma opção estaria no fortalecimento do Setorial de Audiovisual que compõe o Conselho Municipal de Cultura e enfrenta dificuldades para mobilizar um número satisfatório de membros”.

Assim como no teatro, a escassez do público mesmo para boas produções e dificuldades para ampliar a divulgação destes eventos é algo que precisa ser tratado com mais atenção. E entre os pontos negativos ele percebe que Uberlândia carece de atividades, espaços e instituições de formação audiovisual. “Este papel tem sido desenvolvido majoritariamente pela realização de oficinas, em geral de curta duração e com financiamento público”, comentou.

Para 2018 ele aposta nas oficinas de longa duração que serão realizadas pelo Usinas Culturais, programa da SMC junto a um convênio do Ministério da Cultura do Governo Federal que está equipando três salas da Oficina Cultural para criar um laboratório audiovisual popular.

 

LITERATURA

A escritora Ivone de Assis, realizadora do Sarau Gotas Poéticas e diversos lançamentos de livros em Uberlândia por sua Assis Editora diz que em Uberlândia quando se fala em cultura poucas são as vezes em que a Literatura é inserida espontaneamente. “Parece até que a Literatura reside no esquecimento. Mas o ano de 2017 no município foi agraciado com muitos eventos no setor literário, a começar pelas proposições das universidades, faculdades, escolas, editoras, bibliotecas e institutos, passando pelos eventos culturais de médio porte, que foram muitos”, disse.

Ivone afiram que a cidade conta com um número expressivo de autores, poetas e contadores. Também há o tímido respaldo literário-financeiro da Secretaria de Cultura, pelos órgãos federais, estaduais e privados, no entanto, apesar dos esforços, a ascensão literária está longe de chegar no nível básico. Essa falta de visibilidade é explicada por não haver ações - investimentos/promoções arrojadas no setor, sobretudo por meio do município. “Sem isso não há avanço. Não é só o investimento do capital financeiro, mas, também, da promoção do capital intelectual”.

Para Robisson Albuquerque, da editora Subsolo, que também contou com diversos lançamentos literários em eventos voltados também para outros setores, a cultura e a arte tiveram um ano difícil. “Um dos aspectos que mais me assombrou foi o retrocesso na mentalidade da sociedade sobre a liberdade de criação e antigos e retrógados entendimentos ocos e superficiais sobre o fazer artístico, que vem voltando à tona”, disse.

Para ele a produção cultural local segue a duras penas e de vento em popa ao mesmo tempo nas casas de show, nos terreiros de Congada, saraus, eventos, festivais, exposições exclusivamente por conta da vontade dos artistas que bancam seus projetos e ações com ou sem apoio público ou privado”, disse ele destacando a circulação da peça “Benedites”, do Grupo Ocupa de Teatro, formado por estudantes dos cursos de Teatro, Dança e Música da UFU e a transformação do antigo restaurante Universitário da UFU no Campus Santa Mônica em no Núcleo de Cultura e Arte Carolina Maria de Jesus (NuCA).

A Subsolo lançou vários livros, realizou mais um ano do “Noite Literária”, inclusive em parceria com a Dicult/Proex UFU e participou da Fliaraxá. “Para 2018 continuaremos produzindo”, afirmou. or mais que falte um público leitor para a literatura o público em geral nos eventos culturais que ele acompanha ele considera razoavelmente bem frequentados na cidade.

Há um projeto na cidade chamado Ler Com Prazer, que consiste em ofertar livros para a população que pode pegar, ler em casa e depois devolver para outra pessoa ler. Porém, o que vemos são estantes vazias ou com panfletos nas estações de ônibus do corredor da avenida João Naves de Ávila, como se faltasse cuidado com o projeto. “Temos que insistir, não desistiremos nem desse nem de outras ferramentas de fomento à leitura. Um povo que não lê é um povo oprimido”, disse a Secretária Mônica Debs.

 

MÚSICA

O setor da música foi movimentado e trouxe iniciativas como a produtora Triluna, que tem em vista trazer o protagonismo feminino para a cena. Para uma das produtoras, Júlia Commiato, apesar de ter sido aquém do potencial da cidade, o ano cultural em Uberlândia foi positivo para a música independente. Segundo a produtora uma “cena” que parecia estar adormecida, voltou a mostrar sinais de vida. “Acredito que aconteceu porque houve a união da empolgação e a vontade de fazer acontecer de uma nova geração à experiência e o conhecimento de pessoas que estão envolvidas com esse cenário alternativo. A partir daí surgiram novas bandas, eventos, ideias, propostas e o mais importante, a promessa de que esse movimento leve Uberlândia a recuperar ou a construir o seu potencial como um polo cultural”, disse.

Porém, ela comenta sobre algumas barreiras que impedem o desenvolvimento da cena. “Em 2017 Uberlândia deixou claro que boa parte de sua população e sua política se pauta em ideais conservadores. Muitos estabelecimentos foram fechados, não só por conta de inadequações, mas por uma perseguição que se estabeleceu com relação à movimentação cultural que não gira em torno do lucro. Casas pequenas e eventos de pequeno porte foram barrados, enquanto eventos de grande porte que causam muito mais tumulto foram mantidos sem restrições”, comentou.

Sobre os locais fechados e eventos interditados, o que nada tem a ver com a SMC, Mônica pede prudência na hora da colocação porque podem não se tratar de ações arbitrárias.

A Secretária afirma que a SMC continua a investir em formação e projetos e na reconstrução do elo com os artistas e parceria com espaços privados. “Precisamos criar ações de democratização da arte no município com parcerias e melhorar permanentemente os espaços públicos não só em termos de estrutura física. A classe artística merece respeito. Queremos não só o resgate da auto-estima do artista mas o resgate de pessoas, valores e boas ideias e criações”, afirmou Mônica Debs.


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