03/12/2017 às 05h58min - Atualizada em 03/12/2017 às 05h58min

Honorato sonha com 'cidade do vôlei'

Há 18 anos em Uberlândia, técnico paraibano é um dos principais reveladores de talentos no esporte local

ÉDER SOARES | REPÓRTER
Apesar de dificuldades, Manoel Honorato diz acreditar no potencial esportivo encontrado em Uberlândia / Foto: Éder Soares

 

Há 18 anos chegava em Uberlândia, vindo da Paraíba, Manoel Honorato, figurinha carimbada do esporte uberlandense por ser, mais especificamente, um dos principais reveladores de talentos do voleibol da região.

Atualmente, Manoel é um dos coordenadores do Projeto Academia do Vôlei. Ele também comanda a equipe adulta do Uberlândia/Gabarito/Start, que a partir de janeiro participará da Superliga Masculina B, que é a divisão de acesso para a elite do voleibol brasileiro.

O Diário do Comércio esteve com Manoel Honorato, que contou sobre sua história, a paixão pelo voleibol, a chegada a Uberlândia, e o que pensa do cenário esportivo nacional.

 

Diário do Comércio: Como você começou no voleibol?

Honorato: Vi alguém brincando com as mãos no meio da rua, colocando uma corda de uma janela a outra atravessando a rua. Quando o ônibus vinha passar era um sufoco porque tinha de correr rápido para tirar a corda. Sempre fui presidente de sala de aula, desde os sete anos de idade, então tinha meio que este "dom" de liderar. Passei a usá-lo aos 15 anos, levando, todos os domingos à tarde, cerca de 20 meninos e meninas para treinar e brincar no quartel da polícia (tinha quatro irmãos policiais).

 

Qual foi o primeiro local de treino?

Comecei a treinar de verdade aos 14 anos no Sesi de Campina Grande. Não tinha vaga no vôlei, daí uma senhora chamada Ivonete disse: meu filho, entre no basquete, pois quando surgir a vaga no vôlei eu te colocarei. E foi o que aconteceu.

 

Você chegou a se profissionalizar no vôlei e jogou em alguma equipe?

Não como atleta, mas fui chamado para clubes importantes do Nordeste. Joguei nas equipes do estado e treinava com seleções universitárias.

 

Como foi a sua vinda para Uberlândia?

Estava em um dos meus estágios numa das maiores equipes do país, o Banespa (SP). Passei em Uberlândia e fiquei nove dias (1997), mas não quis ficar naquele momento. Formei em Letras depois em Educação Física, pós-graduado com níveis nacionais e internacionais, mas o desemprego bateu na porta e liguei para o pai de um garoto chamado Eduardo, de Uberlândia, que conheci no estágio. Ele me disse: “daquela vez quis trazer você para cá. Agora só vou te ajudar quando você estiver aqui na cidade”. Viajei 2.600 km e aqui cheguei em 1999.

 

Quem te deu a primeira oportunidade em Uberlândia?

Foi o José Lucas, que me deixou treinar no Sesi Roosevelt e Gravatás sem cobrar aluguel da quadra, pois tinha que me virar fazendo escolinhas. Depois o Praia Clube gostou muito do meu curriculum e me ofereceu aulas de natação, o que me deixou muito triste. Iria pegar, mas logo o Lázaro Gatola (ex-diretor) abriu uma vaga no vôlei mirim feminino, e ali no Praia fiquei por quatro anos.

 

Qual o seu primeiro título como treinador?

Em 1999, eu treinava 12 atletas masculinos no Sesi Gravatás e fiquei um ano sem receber nada, para plantar esta semente em Uberlândia. Eu trouxe rede, bolas, antenas, pois não sabia o que iria encontrar aqui. Em 2000 fomos para nosso primeiro Jogos do Interior de Minas Gerais (Jimis) e na última etapa vencemos, foi o 1° título.

 

No caso do projeto da Academia do Vôlei, quando começou?

Começou na Paraíba, em 1996. Trouxe a papelada para cá e fizemos a mudança no cartório. Então tem 21 anos de existência e 18 em Uberlândia.

 

Em todos estes anos no voleibol, quais títulos você considera como os mais importantes?

O terceiro lugar no Mundial Universitário, em Shentzen (China), o terceiro lugar no Pré-olímpico de Londres (como auxiliar), o título da Liga Nacional Sub-23, título dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), os sete títulos dos Jimis, além dos dez títulos do Campeonato Mineiro Universitário e um título de clubes.

 

Você comandará a equipe de Uberlândia em mais uma edição da Superliga B. Sabemos que é um sonho antigo colocar a equipe na Superliga principal. Você vê alguma perspectiva em relação a isso?

Sonho com isso, mas não depende só de mim. Tenho, todos os dias, o maior empenho possível dentro e fora das quadras. Um dia chegaremos lá, pois creio em Deus, que Ele é real e ajuda muito quem batalha e trabalha com honestidade. Luto muito pelos outros, tentando ser um pai.

 

Quais as principais dificuldades no esporte em Uberlândia?

A visão de quem está ou esteve no poder. A política para o esporte é muito fraca. A visão de quem tem dinheiro (empresas). Outra dificuldade é ginásio, meu Deus, acho que já passamos por 20. Creio que em janeiro o sonho será realizado, de termos a nossa própria quadra, no bairro Cidade Jardim.

 

O que Uberlândia significa para você?

Devo minha vida a esta cidade que me acolheu. Vejo em cada garoto, por mais pobre que seja, um potencial, não só no vôlei, mas como cidadão. Se eu ensinar princípios bons, eles serão bons pais de família. Alguns aqui me deram a mão, outros me odeiam. Por estes que me deram a mão preciso fazer o mesmo.

 

Como você vê a situação atual do voleibol brasileiro, tanto no masculino quanto no feminino?

O assunto é extenso. Faltou investir na base. A nossa mentalidade é de terceiro mundo ainda. Deixamos de lado os velhos, ou seja, os que conhecem de fato. Aplicamos pouca ciência do esporte. A sorte é que temos mais de 200 milhões de habitantes. Mas não sou pessimista. Sempre penso que muita coisa pode melhorar. Não com quem tem nome apenas, mas com quem tem cabeça. Faltam peças de reposição para as próximas Olimpíadas.

 

O que acha sobre a equipe feminina do Dentil/Praia Clube deste ano?

Fico com raiva de mim mesmo porque não acompanho tanto. Minha demanda é muito grande e me considero um cara centrado no que faço. Gosto das pessoas que ali trabalham. Eles têm respeito por mim e eu por eles. Tenho um sonho de chamar Uberlândia "a cidade do vôlei", como foi Suzano (SP), Bento Gonçalves (RS), entre ouras. Para isso temos que ter um link com as meninas. Projeto maravilhoso. Investiria, em 10 polis, cada um com 100 meninas, fechando em 1000. Sempre teriam peças de reposição da melhor qualidade, mas eles são muito competentes e creio que vão chegar lá.

 

Você tem dois filhos que jogam voleibol. Fale sobre eles.

O Júlio Cezar, de 18 anos, e o Henrique Honorato, de 20. O Júlio joga no Uberlândia/Gabarito, na equipe sub-19, enquanto o Henrique joga no Minas Tênis e já viajou para quatro países em Sul-americanos, Pan-americanos e Mundiais pela Seleção Brasileira. Henrique já está seguindo carreira, apesar de ter feito um ano da faculdade de Engenharia Civil.


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