30/10/2017 às 13h18min - Atualizada em 30/10/2017 às 13h18min

Atleta faz do risco um estilo de vida

Patense Fernando Nazário participa de provas em ambientes extremos, diante de neve, chuva e elevações

ÉDER SOARES | REPÓRTER
Atleta participa de provas solo em montanhas desde 2014, após deixar de competir em corridas em equipe / Foto: Divulgação

 

Radicado em Uberlândia há 16 anos, o patense Fernando Nazário, de 36 anos, gosta de desafios que superam o limite do homem. Em setembro deste ano, ele participou de uma das provas mais duras e arriscadas do mundo na América do Sul.

Em uma entrevista exclusiva para o Diário do Comércio, o atleta relata momentos de muita tensão e emoção em sua participação na Maratona de Ultra Trail Torres del Paine 2017, no Chile, onde conquistou a 4ª colocação em sua primeira prova de 80 Km.

O percurso pela Patagônia Chilena mistura estrada, trilhas e trechos de neve e conta com muito desnível. O uberlandense já havia conquistado o título da competição em 2014, quando foi campeão nos 67 km, e no ano passado, nos 50 km.

Torres del Paine é um parque nacional situado no sul do Chile, na região de Magalhães e Antártica Chilena. O parque foi declarado “Reserva da Biosfera” pela UNESCO no ano 1978.

A impressionante beleza de sua paisagem em meio a uma exuberante flora e fauna atrai visitantes de todo o mundo. Por sua beleza natural, Torres del Paine é considerado um dos lugares de maior interesse turístico do hemisfério sul.

 

Diário: Como começou e como foi a sua preparação para a participação deste ano no Ultra Trail Torres del Paine?

Nazário: Eu venho das corridas de aventura e iniciei nos esportes outdoor em 2006, em atividades em que pedalávamos, remávamos e corríamos em equipe. Em 2012, tive uma experiência de quase morte com minha equipe na região chilena de Punta Arenas. Em uma travessia de uma etapa de canoagem, os nossos barcos começaram a afundar e ficamos com a água no peito por quase cinco horas seguidas. Estas cinco horas foram um verdadeiro milagre em minha vida e na vida da minha equipe.

 

Foi a partir daí que você decidiu migrar para as corridas?

Sobrevivemos em um trabalho conjunto, sofremos hipotermia de último grau e fomos resgatados pela marinha chilena em uma ilha. Passado o susto, e dois anos após este incidente, decidi migrar das corridas de aventura em equipe e começar uma nova experiência, sozinho, com as corridas de montanha. Fiquei sabendo de uma competição que aconteceria nesta mesma região da nossa experiência de quase morte. Alguma coisa me falava que aquele lugar que tanto amava guardaria algo especial pra mim.      

 

O que é o Ultra Paine e quais as dificuldades que você encontrou por lá?

O Ultra Paine é uma competição de corrida em trilhas e montanhas que acontece no entorno da 8ª maravilha do mundo, o Parque Nacional de Torres del Paine, na região da patagônia chilena. As características desta região são bem surpreendentes. Nunca se sabe o real clima que encontraremos. Pode nevar, chover e ventar muito, mas uma coisa é certa, o frio é inevitável. O frio intenso, as montanhas e longas chuvas que castigaram a região na semana da competição deixaram o terreno bem encharcado e com muita lama e água em vários pontos das trilhas que corremos, tornando a competição ainda mais desafiadora.

 

Você foi sozinho ou levou um corpo de apoio?

Nestas competições, o atleta vai solo e conta apenas com os pontos de apoio que a organização disponibiliza ao longo do trajeto. O atleta deve fazer seus abastecimentos sem ajuda de terceiros. Terminei os 80 km em 10h40.  

 

Quantas vezes já participou de provas nesta região do Chile?

No Ultra Paine 2014 estreei, em sua primeira edição, sagrando-me campeão geral dos 67 km. Em 2015, fui campeão do Ultra Fiord na distância de 114 km, no mês de abril, e fui 5º Colocado geral nos 50 km do Ultra Paine, em setembro. Ano passado, fui vice-campeão dos 100 km do Ultra Fiord, em abril, e bicampeão do Ultra Paine na distância de 50 km. Este ano fui campeão novamente do Ultra Fiord na distância de 50 km, em abril, e 4º colocado geral nos 80 km do Ultra Paine no mês de setembro.

 

Qual o nível de desgaste de uma prova como esta, e o que se sofre durante e depois de concluído o trajeto?

O desgaste físico e mental é muito grande, principalmente na primeira semana após a competição. Levar seu corpo a circunstâncias extremas requer reprogramação mental e responsabilidade. Em alguns casos, tenho que esperar nove dias após a prova para voltar a treinar novamente. O aspecto emocional conta muito, preciso meditar sempre e organizar uma programação mental para acelerar o processo regenerativo.     

  

Além do Ultra Trail Torres, quais outras provas semelhantes em dificuldades você já participou?

O Ultra Trail de Torres del Paine foi minha quarta participação seguida. No Chile também competi a Ultra Fiord por três vezes. Participei do CCC na França, uma competição de 100 km, Mendonza, na Argentina, além de competições no Brasil como a Ultra Maratona dos Perdidos em Curitiba (PR).

      

Quando começou a sua relação com o esporte, especialmente com as corridas de aventura?

Minha relação com o esporte outdoor começou por meio de amigos que já praticavam e me convidaram para competir. Daí para frente tomei gosto, cada vez mais, pelo esporte em contato com a natureza e decidi seguir firme em meu projeto e sonho de vida.

 

Você tem outra atividade paralela às corridas?

Sou treinador e diretor técnico da Assessoria de Corrida Science Run Club de Uberlândia. Trabalho também como personal trainer em meu estúdio Science Fitness Club. Dou aulas de pós-graduação em cursos da área de educação física e outros da área da saúde.  

 

O que você ainda tem para este ano em termos de competições?

Este ano já iniciei a fase de transição, que é uma desaceleração do corpo e regeneração muscular e mental. Não competirei mais. Porém retomo aos treinamentos de pré-temporada na primeira semana de novembro.  

 

No ano que vem quais principais provas você irá disputar e quais as suas metas?

Já tenho um calendário de provas válidas pelo Circuito Mundial (França, Espanha, EUA, Itália e Chile) de Corridas de Montanha, porém, ainda devo fazer algumas reuniões com meus patrocinadores e verificar quais realmente conseguirei participar. Também quero competir pelo menos duas provas no Brasil.

 

Qual o seu conceito para aguentar uma aventura como esta, no Chile, em condições sub-humanas?

Não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar e continuar, o quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha. Esta frase poderia passar em branco como todas as outras, porém para mim, na Patagônia Chilena, ela fez toda diferença. 

 

FICHA TÉCNICA

Fernando Nazário

Idade: 36 anos

Nascimento: Patos de Minas

O que é:

- Trail Runner 

- Atleta Salomon Brasil / Midway Labs USA 

- Preparador Físico e Personal Trainer da Assessoria Science Fitness Club - Uberlândia

- Mestre em Educação Física na Área de Aspectos Biodinâmicos e Metabólicos do Exercício Físico


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