14/09/2017 às 05h31min - Atualizada em 14/09/2017 às 05h31min

Belo na simplicidade e na imperfeição

Utilizando técnicas japonesas, artista plástica uberlandense Alice Gussoni propões reflexão estética

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Uma das esculturas de Alice Gussoni na exposição “Wabi-sabi” que está em cartaz no Espaço Cultural do Mercado / Foto: Marcel Gussoni/Divulgação

 

Graduada em Artes Plásticas na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com estudos em cerâmica e escultura em Roma e também uma artista apaixonada pela arte da gastronomia, a Alice Gussoni traz em sua nova exposição, “Wabi-Sabi”, inspiração que vem do Japão. A mostra de telas e esculturas em cartaz no Espaço Cultural do Mercado Municipal busca proporcionar uma reflexão sobre como lidamos com as coisas simples da vida.

Em exposição, algumas peças levaram até cinco anos para ficarem prontas. A artista precisou dedicar-se integralmente à maternidade com a chegada dos filhos gêmeos. “Algumas cerâmicas foram esmaltadas e retornaram ao forno novamente antes de serem expostas”, contou.

Já as pinturas são um processo mais recente. Alice Gussoni tem estudado vários estilos de arte japonesa e também a aplicação do budismo, que pratica já há muitos anos, dentro da arte. Nesse processo a técnica wabi-sabi foi a que mais lhe chamou a atenção, tanto que mudou completamente o rumo que a exposição tomou. Desenvolvida por volta do século 15 essa Wabi-Sabi representa uma idealização artística com base nos ideais do zen budismo. É um conceito derivado dos ensinamentos das três marcas de existência, que descreve sua concepção estética do belo como aquilo que é “imperfeito, impermanente e incompleto”.

“O wabi-sabe é mais que estética é uma questão de voltarmos nossos olhares e valorizarmos as coisas que seguem o fluxo da natureza, ver a beleza nas coisas simples, envelhecidas, imperfeitas”, explica. Afinal, não é só a Primavera que deve ser apreciada. O cair das folhas no outono também é um processo digno de atenção. “Temos fugido muito disso por conta de uma filosofia forte no ocidente que vem desde a arte grega e romana. Trazem uma perfeição quase impossível de se alcançar, o que pode levar a frustrações e tristezas”, disse a artista.

Nas pinturas Alice não trabalha com retratos. Traz traços simples, manchas, texturas modestas e monocromáticas quando usa a técnica de pintura sumi-ê. “Não sou especialista nesta área mas senti que deveria compartilhar um pouco desse modo de viver que é mais que um processo artístico, é uma transformação que senti em mim”, comenta a artista. No sumi-ê trabalha-se com o mínimo possível de pinceladas, é buscar o máximo da simplicidade.

Alice fala um pouco sobre outra técnica japonesa também do século 15 que resume bem sua exposição atual. Usada na cerâmica, a kintsuji consiste em colar com ouro peças quebradas. “É uma forma de dizer que nossas cicatrizes devem ser vivenciadas e destacadas porque por meio delas crescemos como pessoas, fazem parte do nosso desenvolvimento”, explica.

Alice, que teve seu primeiro contato com a cerâmica aos seis anos de idade, encontrou nas técnicas japonesas uma forma de lembrar ao mundo que o passar do tempo não é um inimigo do ser humano e deve ter sua simplicidade, beleza e imperfeições vividos plenamente em qualquer uma das fases de nossa existência.

 

SERVIÇO

O QUÊ: Exposição Wabi-Sabi

QUEM: Alice Gussoni

ONDE: Espaço Cultural do Mercado Municipal (rua Olegário Maciel, 255, centro)

QUANDO: até 6/10, visitação das 12h às 18h de segunda a sexta-feira

ENTRADA FRANCA

INFORMAÇÕES: 3235-7790


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