30/07/2017 às 05h14min - Atualizada em 30/07/2017 às 05h14min

Um pouco do campo dentro da cidade

Cavalgadas promovidas por Comitivas de Uberlândia e região atraem cada vez maior número de participantes

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Registro de uma das cavalgadas realizadas pelo Sindicato Rural de Uberlândia que chega, em agosto, à 17ª edição / Foto: Divulgação

 

Gustavo Galassi tinha mais ou menos 7 anos de idade quando começou a se interessar pela vida no campo. Atualmente vice-presidente do Sindicato Rural de Uberlândia, o então menino se encantava com as comitivas e cavalgadas que saiam da avenida Belo Horizonte, no bairro Martins. Elas chamavam para o início da Feira Agropecuária, o Camaru, que neste ano chega à 54ª edição. “Era praticamente um desfile mesmo. Até tratores decorados faziam companhia aos cavaleiros que mostravam à cidade os valores do campo, era como se fosse um Carnaval agropecuário da época”, recorda Galassi.

Naquela época, esse movimento cultural já enchia os olhos do menino que, anos depois, em 2001, veio a criar a Cavalgada Camaru, que este ano está na sua 17ª edição e anuncia a chegada de uma das maiores feiras agropecuárias da região. No dia 27 de agosto, são aguardados aproximadamente 4 mil cavaleiros. “Começou com um grupo de amigos que saía ali da Praça Sérgio Pacheco. Com o tempo, o número de participantes aumentou tanto que a praça ficou pequena e mudamos o local de saída entre 2013, 2014. Neste ano vamos sair do lado do estádio Airton Borges, que terá uma estrutura montada para receber os peões e seus animais”, conta Galassi.

O trajeto entre o Airton Borges e o Parque de Exposições é de quase 6 km e, até por uma questão de crescimento da cidade, se adequa a todas as normas de segurança necessárias para uma boa jornada. “Trabalhamos junto com a Secretaria de Trânsito, Corpo de Bombeiros, temos ambulâncias e nos preocupamos com o bem estar do cavaleiro e do cavalo”, explica o pecuarista, que completa dizendo que é feita também uma campanha de conscientização entre as comitivas para que não haja consumo de bebida alcoólica. 

Gustavo Galassi afirma que além de mostrar mais a cultura rural para a população, que aplaude a comitiva por onde passa, as cavalgadas também movimentam o setor. Segundo ele, nas proximidades do evento é difícil encontrar até um cavalo para alugar num raio de 150 km. “É uma tradição que se tornou um evento muito grande e algo contagiante. No ano passado, debaixo de chuva, tivemos 1,5 mil cavaleiros”, lembra.

Para Gustavo Galassi, seja na Cavalgada do Camaru ou em qualquer outra em Uberlândia ou região, como as realizadas em Patrocínio, Araguari, Monte Alegre ou Tupaciguara, o objetivo principal é manter a cultura do homem do campo viva entre os moradores da cidade.

O vendedor Pierre de Castro é integrante da comitiva Os Cai&Pira e cavalga há cerca de três anos. Ele afirma que nos últimos 18 meses participou de praticamente uma cavalgada por mês. “Além disso, ainda tem a pega do garrote, provas de laço, ou team roping. Coisas que eu gosto porque sempre estive nesse meio de fazenda”, explicou.

Para quem não conhece, a pega do garrote consiste em uma competição em trio. Aqueles que derrubarem o bezerro mais rápido ganham. E tem a prova do laço em equipe, ou team roping, em que o cavaleiro montado laça o bezerro. “Tem muitos participantes principalmente porque os prêmios são bons. Tem até moto e carro”, conta Pierre, que já participou de diversas cavalgadas na região, como a do Camaru e a da Tenda dos Morenos. “O legal é que a gente vê a força da tradição que passa de pai para filho, sempre temos famílias inteiras nos eventos, vai desde as crianças até os avós.”

 

QUEIMA DO ALHO

Uma das tradições que será revivida na 17º Cavalgada do Camaru é a Queima do Alho, tradição das comitivas de peões de boiadeiro. Essa é uma festividade típica de alguns estados do interior do sudeste e centro-oeste do Brasil. A história deste ritual vem dos tempos em que os tropeiros viajavam para vender os bois. Os grupos eram compostos por um cozinheiro, um ajudante de cozinha e peões. Como as viagens duravam entre três e quatro meses, os cozinheiros tinham a preocupação de trazer no lombo dos animais alimentos não perecíveis, conservados no sal grosso. Barretos era o ponto final da longa jornada onde sempre se perguntava quem iria queimar o alho. Aquele que se dispunha durante a cavalgada ir à frente, já começava a descascar o alho e colocar na conserva de gordura animal para que, quando chegasse próximo ao horário de almoço ou jantar, já estivesse tudo preparado.

Para comitivas interessadas em participar da Cavalgada do Camaru e que ainda não confirmaram presença, basta procurar o Sindicado Rural. Para assistir, qualquer pessoa pode ir e não há cobrança de ingresso. A saída será às 11h do Estádio Airton Borges, na avenida Rondon Pacheco, em direção ao Parque de Exposições do Camaru, passando pelo Centro.

“Até o horário de saída e o dia, um domingo, foram pensados para causar o mínimo transtorno possível pelas ruas da cidade por onde a comitiva passará. E o que percebemos a cada edição é que a população está cada vez mais receptiva às várias comitivas que praticam a cavalgada, mostrando um respeito a essa tradição do campo que tem seu espaço dentro da cidade”, comenta Gustavo Galassi.

 

BOM MOMENTO

Moço “da roça” é atual “modernim”

Foto de Marcelo Campos registrou uma Cavalgada para Tenda dos Morenos em 2014 / Foto: Marcelo Campos/Imagensport/Divulgação

Quando Eduardo Moraes ia para a escola usando botas e chapéu era chamado, de forma não muito lisonjeira, de “da roça” pelos colegas. Hoje, ele vê os estudantes de agronomia das universidades da cidade de bota e chapéu “com moal” no meio universitário. Por afinidade e vocação, ele, que hoje tem 28 anos, trabalha como locutor de rádio e rodeios, produtor e cavaleiro, que já montou em rodeios. Se orgulha por ser um dos pioneiros nesse segmento. “É uma área que movimenta a cultura e a economia do país. Trabalho com isso há 12 anos e no ano passado organizei o primeiro encontro de comitivas de Uberlândia”, conta Moraes. Ele abriu o Clube do Capiau (avenida Araguari, 9, Martins), para cavaleiros e amazonas que careciam de um lugar para trocar ideias, ver um show. “A cada semana aumenta o movimento.”

Uma das comitivas que participam dos encontros no Clube do Capiau é Os Derramados, que tem como presidente Gilmar Marcelino Rosa. Antes ele já trabalhou com outras comitivas pioneiras da região como Os Escoltados, Os Tequileiros e Os tal Cowboy. “Fomos os primeiros na cidade a divulgar o movimento, andando de chapéu e roupa de montaria por ai. Não sei dizer a quantidade exata de comitivas que surgiram nos últimos dois anos, mas só registradas em um grupo nosso tem 22”, explica.Manter a tradição com responsabilidade faz parte do trabalho das comitivas, sempre atentas ao bem estar do animal que vai para as cavalgadas. “O cuidado com eles tem que ser diário”, afirma Marcelino, que participa de cavalgadas quase todo final de semana.

A tradição chamou atenção de Marcelo Campos, que há cinco anos faz coberturas fotográficas de eventos off-road no Triângulo Mineiro. “As cavalgadas têm um diferencial que é a paixão dos donos pelos seus animais. Observa-se trocas de experiências e ‘causos’ entre os participantes, é comum a participação de até três gerações da mesma família. Ao final das cavalgadas acontecem confraternizações com música e comida regional, mantendo a tradição dos tropeiros”, diz fotógrafo.

 


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