02/05/2017 às 10h08min - Atualizada em 02/05/2017 às 10h08min

O adeus a Belchior, o Coração Selvagem

Corpo do cantor e compositor que morreu no sábado vai ser enterrado hoje em Fortaleza (CE)

AGÊNCIA ESTADO | SÃO PAULO
RENATO ROCHA MIRANDA/GLOBO Belchior em especial da Globo sobre a Jovem Guarda em 2002

Morreu na noite de sábado, 29, aos 70 anos, o cantor e compositor Belchior, em Santa Cruz (RS). O corpo chegou em Fortaleza ontem e foi velado em Sobral, no Teatro São João, no período da manhã. De ontem, até a manhã de hoje, outro velório ocorreu no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza. Após missa o corpo segue em carro aberto do corpo de bombeiros para o para o Cemitério Parque da Paz, onde o sepultamento estava previsto para as 9h.

A causa da morte foi o rompimento de uma das paredes da artéria aorta. Quem determinou foi o médico legista Mário Both, do IML (Instituto Médico Legal) de Cachoeira do Sul. A informação foi confirmada pelo delegado de polícia Luciano Menezes, de Santa Cruz do Sul. O termo técnico utilizado no laudo é dissecção da aorta. O corpo de Belchior foi embalsamado na cidade de Venâncio Aires, antes de seguir viagem para o Ceará

Belchior vivia na Residência Bom Padrão, no bairro Santo Inácio, na cidade a 150 km de Porto Alegre, recluso. Alguns vizinhos, inclusive, nem sabiam que ele morava no local. Entretanto, sabe-se que o cantor possuía amigos na cidade, como o jornalista Dogival Duarte. "Ele estava bem, mas bastante magro", disse Duarte ao jornal O Estado de S. Paulo. Os dois se viram há um mês.

Segundo Duarte, há mais de um ano e meio Belchior estava na cidade. A casa em que morava com a companheira, Edna Prometheu, foi conseguida por intermédio dele. O escritor revela que Belchior vivia com ajuda dos amigos. "Ele não precisava de muito dinheiro e também não fazia questão de ter. Os amigos sustentavam ele por onde ele estava, era hospedado como visita. Passou um ano na minha casa tendo tudo."

Para Duarte, o autoisolamento de Belchior foi proposital, mas acabou se prolongando. "Ele parecia um monge, queria ler, se reciclar. Mas acabou passando tempo demais nesse intervalo."

 

Carreira

Belchior nasceu em Sobral (CE), em 26 de outubro de 1946, e depois de ser programador de rádio na cidade se mudou para Fortaleza para estudar filosofia e humanidades. Mudou para um curso de medicina, mas abandonou a faculdade e perseguiu a carreira artística.

Os grandes discos de Belchior são os cinco primeiros, gravados entre 1974 e 1979. Depois de um compacto na Copacabana com “Na hora do almoço” em 1971, ele foi contratado pela Chantecler para o primeiro álbum, de repercussão modesta, em que a experimentação com a poesia concreta se destaca. Ele representava uma geração que pretendia romper com a MPB de maneira provocadora.

Com “Alucinação” (1976), chega ao auge criativo. O produtor Marco Mazzola, que teve de enfrentar a direção da PolyGram para conseguir fazer o disco, chamou grandes músicos de estúdio que entenderam a poética do cearense e sua estética sonora não convencional, que misturava Luiz Gonzaga e Bob Dylan.

Com arranjos de José Roberto Bertrami, canções como “Velha roupa colorida” e “Como nossos pais”, lançadas por Elis Regina, têm peso e força também sustentadas pelo instrumental. A partir daí, Belchior conquistou seu lugar.

O álbum seguinte, “Coração Selvagem” (1977), mantém o padrão do anterior. Ainda mais interessante é “Todos os sentidos” (1978), que mostra um artista fascinado pela disco music em duas faixas, “Corpos Terrestres”, com participação das Frenéticas, e “Como se fosse pecado”. O grande hit, no entanto, foi “Divina Comédia Humana”.

Finalmente, em “Era uma vez um homem” e “Seu tempo” (1979), Belchior lança seu último grande sucesso popular, “Medo de avião”. Mas também estão ali “Pequeno perfil de um cidadão comum”, feita com Toquinho, e “Comentário a respeito de John”, escrita com José Luiz Penna. Nos anos 1980, seus trabalhos têm menor repercussão, mas não são menos instigantes.

Sumiço

Em 2006, o cantor sumiu sem deixar muitos vestígios. Belchior deixou o flat onde morava com a mulher Ângela Margareth Henman Belchior e os dois filhos na zona sul da capital paulista no final de 2006, quando problemas financeiros ficaram intensos. Ele também abandonou dois carros, que até o ano passado acumulavam dívidas de mais de R$ 200 mil.

A última entrevista conhecida de Belchior foi dada ao “Fantástico” (Globo), em agosto de 2009 - talvez sua última aparição pública. Na ocasião, ele negou o desaparecimento e se recusou a falar sobre as dívidas no Brasil, que agora também envolviam pensões para os filhos.

Na mesma matéria, Belchior declarou que vivia em São Paulo e também prometeu um disco de inéditas. "Com certeza eu vou de volta para a minha cidade amada, para os lugares mais queridos do Brasil, vou fazer show, vou soltar um disco com canções novas", disse. 


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