25/04/2017 às 07h58min - Atualizada em 25/04/2017 às 07h58min

“Joaquim” traz o homem antes do mito

Ficção destaca o homem por traz de Tiradentes, o herói da Inconfidência Mineira

Adreana Oliveira
Da Redação
Joaquim (Júlio Machado) traz a visão de Marcelo Gomes sobre o herói mineiro (Divulgação)

Joaquim José da Silva Xavier. O nome que aprendemos na escola, aquele que virou Tiradentes, o herói da Inconfidência Mineira, que tem seu dia celebrado neste 21 de abril. Em “Joaquim”, o mártir dá espaço ao homem sob direção do pernambucano Marcelo Gomes. O longa estreou no dia 20 de abril em algumas salas do Brasil e foi destaque neste ano no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Em entrevista à Agência Estado, Gomes afiram que sua motivação veio da mudança de paradigma. "Desde que o filme me foi proposto pela Wanda Filmes - Produtora espanhola interessada em retratar heróis da América Latina, essa questão me apaixonou - como um soldado da Coroa portuguesa vira um rebelde dessa mesma Coroa?"

A poesia ficcional criada por Gomes recorre a um amor impossível para tentar explicar o que houve. O alferes apaixonou-se por uma escrava negra, que tinha dono. Joaquim passa a sonhar com uma promoção, que não vem. Seu sonho é juntar dinheiro para alforriar a escrava. Mas, quando Preta foge, Joaquim só a reencontra no quilombo. E tudo vai mudar para ele.

Joaquim é interpretado por Júlio Machado, que tem sido elogiado pela imprensa especializada por seu trabalho no longa, assim como sua colega, Isabél Zuaa. Ela é filha de mãe angolana e pai da Guiné-Bissau. Nascida em Lisboa, veio para o Brasil em um intercâmbio cultural e por aqui ficou.

A produção de “Joaquim” foi uma jornada por Minas Gerais. O jornal Diário do Comércio conversou com a assistente de produção Beatriz Ferrari Masson, de São Paulo, que tem passagens por Uberlândia por seus trabalhos na área de comunicação e marketing. Ela ressalta que o filme não tem um caráter biográfico, até porque os registros desse período são praticamente inexistentes. “Pouco ou nada se sabe sobre a vida de Tiradentes, além das datas de nascimento e morte. ‘Joaquim’ é uma ficção construída a partir de referências sobre o personagem, os modos e costumes da época. É uma crônica da vida e da luta pela sobrevivência no século 18, a partir da visão de um homem comum, suas contradições, seus afetos, seus desejos, cuja consciência começa a ser despertada como uma reação à sociedade desigual, violenta e corrupta que existia na época”, afirma.

GRAVAÇÕES

Beatriz conta que parte da equipe de “Joaquim” ficou 11 semanas em Diamantina, sendo quatro de filmagens e sete entre de pré-produção e de produção. Um filme de época apresenta grandes desafios de produção. As locações escolhidas eram de difícil acesso. Estradas tiveram que ser praticamente reconstruídas. Foram filmadas muitas cenas na cidade, que acabaram não sendo usadas no filme, mas toda a “limpeza” dos elementos modernos, antenas, placas de trânsito, de comércio, semáforos, etc, tornam a produção mais complexa.

“A direção de arte, figurino e caracterização dos personagens são pontos altos da produção, que buscaram a partir de uma pesquisa aprofundada, trazer elementos de uma linguagem naturalista que é muito coerente no filme, na atuação dos atores, na estética, na fotografia. Apesar de extremamente elaborados, esses elementos ficam bem menos perceptíveis que nos filmes e novelas de época que estamos acostumados a ver”, explica.

ORIGENS

Em um debate promovido pela “Folha de São Paulo”, o diretor de “Joaquim”, Marcelo Gomes, afirmou: "quando fazemos terapia, sempre buscamos informações, fatos e emoções ligadas ao nosso passado, nossa infância". E para a assistente de produção Beatriz Ferrari Masson, para entendermos o Brasil de hoje é fundamental entendermos a nossa origem, nosso processo de colonização, que escravizou negros, saqueou nossas riquezas, exterminou povos indígenas.

Também é preciso compreender a beleza que há nas origens do povo brasileiro, as diferentes culturas que aqui chegaram e construíram com suas identidades e suas lutas o que hoje entendemos como nação. “Infelizmente a desigualdade, a corrupção, os privilégios, a exclusão são elementos que persistem através dos séculos”, finaliza.

“Joaquim” entrou em cartaz ontem em salas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e Recife. Por enquanto, não há previsão de exibição nas salas de cinema de Uberlândia, resta esperar pelo lançamento do filme em outras plataformas, em datas a serem definidas.


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