24/03/2017 às 09h54min - Atualizada em 24/03/2017 às 09h54min

Uma história para nossos tempos

Taís Araújo e Lázaro Ramos fazem curta temporada de espetáculo em Uberândia

(JULIANA HILAL/DIVULGAÇÃO) Carrie Mae (Taís Araújo) e Martin Luther King Jr (Lázaro Ramos) em cena

Lázaro Ramos bem que tentou fugir. Mas estava destinado a ele a realização de “O Topo da Montanha” no Brasil. O projeto ficou rondando a cabeça do ator e também diretor do espetáculo que encena amanhã e domingo, em Uberlândia, ao lado da mulher, a atriz Taís Araújo, que também não “amou” o texto à primeira leitura. As duas sessões agendadas para o Municipal tiveram ingressos esgotados no início da semna e uma sessão extra foi aberta no sábado.

Em cartaz desde 2015, o espetáculo foi visto por um público superior a 70 mil pessoas e segundo o ator, algumas assistiram mais de uma vez. O segredo, além do talento de seus protagonistas, é a riqueza do texto adaptado do original de Katori Hall. A versão brasileira ganha contexto atual nesse momento tão conturbado de nossa sociedade, o que leva o público a se emocionar e a se questionar.

Inspirada no último discurso do pastor protestante e ativista político Martin Luther King Jr, morto em 1968, (“I’ve been to the mountaintop”), “O Topo da Montanha” se passa um dia antes do assassinato do líder negro, cometido na sacada do Hotel Lorraine, onde ele, interpretado por Lázaro Ramos, conhece Carrie Mae (Taís Araújo), camareira que está em seu primeiro dia de trabalho no hotel. Os atores falaram com o jornal Diário do Comércio sobre esta produção.

 

DIÁRIO DO COMÉRCIO: “O Topo da Montanha” tem lotado os teatros por onde passa. Como as pessoas têm recebido essa história?

TAÍS ARAÚJO: Elas saem muito tocadas do espetáculo. É isso que faz com que a gente tenha vontade de fazer cada vez mais. E o espetáculo cumpre esse desafio de mostrar que podemos lutar contra o preconceito e falar de afeto, algo cada vez mais raro na sociedade.

LÁZARO RAMOS: A recepção do público é a melhor. A gente fez quase um ano num mesmo teatro em São Paulo e foi lindo ver as pessoas se divertindo, se emocionando, pessoas que voltavam. E a sensação se repetiu no Rio e em cada cidade que passamos. Teve uma menina que viu o espetáculo mais de dez vezes (risos). Famílias inteiras se juntavam por se sentirem representadas ou comemorar seus aniversários com a gente. É lindo notar que, falando de uma temática como essa, ter tanta gente querendo nos escutar. É um texto especial que consegue trazer reflexões de maneira leve.

Em contrapartida, como está a estrutura dos teatros em que se apresentaram? Estão encontrando uma produção local que supre as necessidades de vocês?

Lázaro: Cada Estado tem uma peculiaridade. Mas tudo tem sido bom até aqui. Somos sempre bem recebidos pelas produções locais, que entendem o quão especial é esse texto. E temos ainda uma produção que acompanha tudo de perto. O Radamés (Bruno), Bruno (Mattos) e a Vivi (Viviane Procópio) são produtores parceiros que estão conosco em tudo e que fazem essa ponte e contornam qualquer problema com facilidade.

 

Lázaro, você também dirige o espetáculo, foi sua a ideia de levá-lo para o tablado? Entre a ideia, os ensaios e a estreia demorou muito?

Lázaro: A tradução primeiro apareceu para mim e Taís por sugestões de amigos. Mas muito tempo depois encontramos a tradução perfeita. E foi Taís quem a leu primeiro e insistiu para que eu desse uma nova chance à obra. Ela também me convenceu a dirigir. Foi um grande desafio dirigir, atuar e produzir. O que torna mais tranquilo são os parceiros que temos, que são grandes produtores. A equipe de criação é muito parceira e fez com que o espetáculo tivesse a qualidade que ele merece ter. Foi um aprendizado gratificante e posso garantir que a experiência de produção, daqui para a frente, deve se repetir muito. Porque muitas vezes defendemos os projetos de outras pessoas como se fossem nossos, mas quando a gente consegue ter nossa voz escutada e nossos projetos potencializados, não nego que há um sabor e um prazer diferente.

 

Taís: O primeiro contato não foi positivo: não foi uma peça que amei. Porque primeiramente eu a li em inglês e achei que era muito norte -americana e fui a primeira a vetar. Mas depois eu li uma boa tradução e encontramos o segredo. O tradutor (Silvio Albuquerque) é um brasileiro apaixonado por Luther King e mais que traduzir o texto, ele traduziu sentimentos. E aí quando eu li, mesmo tendo sido a primeira a rejeitá-lo na versão em inglês, botei pilha para fazer (risos). Porque eu lia e chorara, lia e ria. Eu pensei: esse espetáculo é fundamental, é necessário, eu preciso fazer isso. E, bem, aí, fiquei pilhando o Lázaro, que também já tinha desistido (risos).

 

O que mais os atraiu no texto de Katori Hall? Assistiram alguma das montagens no exterior?

Taís: Não. Mas quando a gente leu viu que está muito atual para o Brasil de hoje. O que é lamentável, já que estamos falando dos Estados Unidos de 1968 e tudo se adequa perfeitamente ao Brasil de 2016. Então, é claro: nós estamos vivendo essas questões claramente, agora. O que é engraçado porque quando compramos o espetáculo não estava assim tão fervilhante como está hoje em dia. Então, a cada dia que passa “O Topo da Montanha” se torna mais atual e mais necessário para o público brasileiro.

Lázaro: É um texto com a habilidade de falar sobre direitos humanos, sobre coragem, sobre afeto. Independente de ser baseado na história de vida de um grande líder como foi Luther King, “O Topo da Montanha” tem um poder de comunicação que nos atraiu e fala de uma maneira agregadora. De uma maneira afetuosa, fala de uma luta dolorosa, mas por meio de humor, faz com que todo mundo se sinta parte da discussão e saia do espetáculo motivado.

 

Estamos vivendo um momento complicado no Brasil, na esfera política, na social. Parece que há uma avalanche de informações e pouco filtro para elas. As pessoas parecem estar cada vez menos abertas para os debates, para lidarem com o diferente... Como artistas e como cidadãos brasileiros, como vocês acreditam que poderíamos reverter esse quadro?

Taís: A peça resume um pouco daquilo que acreditamos. Nós acreditamos no debate. Mas, principalmente, acreditamos que ideias diferentes e embasadas podem mudar o rumo das coisas. Não é debater por debater, mas convidar o outro a reflexão, a olhar o próximo. Pensar juntos. Isso é fundamental para avançarmos.

 

A dinâmica para vocês trabalharem juntos no teatro é diferente da televisão?

Lázaro: A dinâmica, não. O que mudou é que, como casal e profissionais, amadurecemos. Costumamos dizer que nem brigamos mais. A Taís é uma atriz intuitiva, que me ensina muito, diariamente.

Taís: E o Lázaro é um ator e diretor extremamente organizado e focado. O que complementa e me dá mais ânimo.

 

Como vocês administram o tempo para equilibrarem a vida pessoal e profissional? Vocês têm dois filhos pequenos em uma idade que eles querem ficar muito grudados nos pais. Eles já entendem o trabalho de vocês? Já precisaram levá-los para o trabalho?

Taís: Eles não entendem exatamente ainda, mas já foram ao “Topo da Montanha” por exemplo. Eu gostaria de ter uma resposta pronta, mas posso dizer que todo tempo livre é de nossos filhos. E que temos a sorte de ter uma família unida, que cuida deles sempre que não estamos por perto.

SERVIÇO

O QUE: “O Topo da Montanha”

QUANDO: Amanhã e domingo às 21h e sábado também às 18h30 (sessão extra)

ONDE: Teatro Municipal de Uberlândia (Av. Rondon Pacheco, 7.070, Tibery)

INGRESSOS: De R$ 45 a R$ 90

DURAÇÃO: 1h20

CLASSIFICAÇÃO: 12 anos

INFORMAÇÕES: 3235-1568


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