02/02/2017 às 14h18min - Atualizada em 02/02/2017 às 14h18min

“Até o último homem”

Diversão e arte

Por Kelson Venâncio

 

Imagine um soldado que entra para uma batalha contra inúmeros inimigos japoneses, no meio de tiros, explosões de bombas e um mar de fogo sem portar uma arma sequer? Isso só pode ser mentira ou é mesmo algo que só acontece em filmes não é mesmo? Qualquer pessoa afirmaria isso após ler a primeira frase da minha análise. Mas acreditem se quiser, isso realmente aconteceu em 1945.

E é justamente essa história que é adaptada para as telonas no excelente filme "Até o último homem" que recebeu seis indicações ao Oscar 2017, entre elas melhor filme, melhor diretor para Mel Gibson e melhor ator para Andrew Garfield. A trama gira em torno de Desmond T. Doss, um médico do exército que, durante a Segunda Guerra Mundial, se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas. Porém, durante a Batalha de Okinawa ele trabalha na ala médica e salva mais de 75 homens, sendo condecorado, fazendo de Doss o primeiro Opositor Consciente da história norte-americana a receber a Medalha de Honra do Congresso.

E aqui já vai de cara o meu recado: para os preconceituosos com filmes de guerra, livrem-se desse preconceito, pois se assim fizerem, verão uma obra prima do cinema. Até porque praticamente até a metade da projeção temos uma narrativa que foca em Desmond antes dele ir para a batalha propriamente dita. E essa construção do personagem é muito bem feita já que o tempo dedicado a isso no início do longa nos faz conhecermos a fundo o caráter do jovem rapaz que se alista no exército para defender o seu país. O relacionamento dele com os pais, com o irmão e até a parte amorosa da história, nos faz gostar ainda mais de Desmond e posteriormente torcer pra ele lá no fim igual a gente torce para o time de futebol do coração.

O história foi bem adaptada para o cinema, apesar de que muitos fatos que aconteceram foram modificados na versão cinematográfica, o que é normal em um filme. A narrativa é crescente e empolgante, prendendo a atenção do público a todo instante. E ao contrário de outras produções que têm a guerra como tema, este longa nunca se torna cansativo. E depois de pouco mais de duas horas de filme, ainda ficamos com um gostinho de quero mais.

Depois de duas décadas de seu último Oscar, por “Coração Valente”, Mel Gibson está de volta a maior premiação do cinema. E ele faz um trabalho de direção impecável no filme e se ganhar a categoria será merecidíssimo. Gibson sempre adorou temáticas religiosas em suas produções e adora a redenção ao fim delas. E desta vez não foi diferente. Neste longa podemos até mesmo fazer um comparativo com a história da Paixão de Cristo também retratada por ele no cinema.  Desmond T. Doss poderia muito bem ser o "Jesus" desse filme que entrega a vida em amor ao próximo, até mesmo aqueles que o maltratam antes. E com isso, Gibson conquista também os expectadores que possuem muita devoção ao cristianismo.

As atuações também são excelentes. O elenco agrada com Teresa Palmer, Sam Worthington, Vince Valghn (numa versão magra) e Hugo Weaving, este último com uma pequena participação que merecia até mesmo uma indicação a melhor ator coadjuvante. Mas é o jovem ator Andrew Garfield quem rouba a cena em todos os quesitos. Se Leonardo DiCaprio ganhou o prêmio o ano passado por ter se entregado como nunca ao papel em “O Regresso”, Garfield também merece a estatueta em 2017. A entrega física e emocional do ator ao seu personagem é digna de aplaudir de pé. Depois de Desmond, acreditamos que o verdadeiro herói não foi o Homem-Aranha!

E pra completar, nos quesitos técnicos a produção não tem defeitos. O longa tem uma belíssima fotografia, uma ótima trilha sonora, uma boa edição e uma qualidade sonora incrível. Tanto que está concorrendo também a melhor edição de som e mixagem de som. Assistir o filme em uma sala com um equipamento adequado tornará sua experiência muito melhor. E por fim junte a isso as ótimas sequências do combate da tropa norte americana com os japoneses. Como em “Apocalypto” e em “Paixão de Cristo”, Gibson não tem medo de mostrar a realidade. Se a morte de Cristo foi violenta, ele retrata muito bem isso. Se uma guerra é um inferno com mortes brutais, sequelas e destroços, o diretor escancara tudo com cenas fortíssimas e muito bem feitas.

Nota 10


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