Assim… deixa eu explicar direito.
Imagina um pé de serra. Serra alta, dessas que brotam no meio do nada. Diz que, lá atrás, quando o mundo ainda estava se ajeitando, duas placas dessas de terra, remexidas pelo embrulho de estômago de um planeta novinho, tipo cólica de menino recém-nascido, resolveram se encontrar.
Toparam lá no fundo. No breu, sem barulho ou aviso, mas com força.
Pronto. Empinou a serra.
Anda uns trezentos, quatrocentos metros pra frente… ali já começa o quintal.
Da serra desce uma cachoeira boa, água batendo lá de cima, caindo num poção fundo, azul que só vendo. Em dia quente, é lá que a gente se enfia. E quando a lua está cheia então… vira até desperdício sair da água. Fica ali, horas, só aproveitando aquele frio bom que renova o corpo.
É dali que vem a água da casa.
A gente cavou um tronco de aroeira, fez o caminho dela. A água entra na cozinha viva, correndo forte. Passa numa canaleta de concreto, é água de tudo: de beber, de cozinhar, de lavar.
E os lambaris? Ah… esses já aprenderam o jeito.
Ficam ali na corredeira, batendo rabinho o dia inteiro, esperando resto. E sempre tem. Comem que é uma beleza. Engordam ligeiro. Aí escorregam, caem na bica e vão parar lá no rego do quintal.
Lá embaixo, num poço pequeno, mas nem tão raso, ficam as traíras. Pretas, gordas, só na espera. Comem resto de prato, limpeza de frango, de peixe… e, de vez em quando, um lambari mais bobo.
Vida boa pra elas.
No meio da varanda da cozinha tem um fogão a lenha, desses de respeito. Bem no centro. O forno e a chaminé ficam encostados na parede, onde passa a serpentina esquentando água. Dá pra ficar de um lado e do outro, proseando o dia inteiro sem nem ver o tempo passar.
E a mesa… grande, madeira grossa, antiga. Cabe gente que é uma festa. E sempre cabe mais um.
O rego d’água segue descendo, cortando horta e pomar, quase todo escondido debaixo de folha grande de taioba. Vai serpenteando, rodeando pé de fruta, até cair limpo lá na represa.
Na varanda ficam os cachorros.
Grandes. Imensos mesmo. Mas mansos. Sabem direitinho quem chega de bem e quem não presta. Quem vem em paz, eles nem ligam. Nem festa fazem. Só olham… daquele jeito deles.
Mas tão vendo tudo.
De noite é que se percebe. Um deita perto da janela do quarto, que vive aberta pra brisa fria e a luz da lua. O outro roda o terreiro. Se um quero-quero grita longe, eles já ficam espertos. Farejam, escutam, vigiam.
Bicho fiel.
A casa é alta, com varanda rodeando tudo. Pra subir tem três lances de degrau. Lá de cima dá pra ver longe, depois da porteira, pedaço da estrada. Ninguém chega sem dar sinal. Ou o passarinho avisa, ou os cachorros sentem, ou a poeira levanta.
Surpresa não tem.
Pasto quase não existe. Só o bastante pra duas vaquinhas boas. Leite pro gasto. O resto é mata virgem, sadia e barulhenta de tanto bicho.
Porque ali… o forte mesmo é outra coisa.
Ali nasce história.
Príncipe, princesa… aparece de tudo. Até Pégasos e dragões, tudo se mistura. Curupira, saci, ninfa, sátiro, Minotauro, vira um povo só. E eles andam no meio das angolas, dos frangos caipira, dos patos, dos pavões… até curicaca e seriema entram no meio.
É um mundo.
Todo dia nasce uma história nova. De estrela, de bicho, de gente, de lembranças.
Roça de criar palavra.
E é ali… nesse sossego cheio de vida, água correndo, mato verde e imaginação solta… que eu queria gastar meus dias.
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