06/03/2026 às 08h00min - Atualizada em 06/03/2026 às 08h00min

Beija-flor

WILLIAM H STUTZ

“O que faz o beija-flor
Ter vontade de voar?
Vai e diz ao meu amor
O que viu do meu penar(...)¨
Flávio Venturini 

Sempre pensei que os beija-flores fossem eternos.

Não sei de onde tirei essa ideia, mas ela me acompanhou por anos como verdade incontestável. Já vi pardais, pombas, urubus estendidos no asfalto. Cães, gatos. Nas estradas do Brasil, tamanduás, capivaras, até bois e cavalos largados no acostamento. A morte urbana tem vitrine pública e rotina banal.

Mas um beija-flor, nunca.

Para mim, eram pequenos milagres coloridos. Apareciam e desapareciam como se não pertencessem ao mesmo mundo das carcaças esmagadas por pneus apressados. Eram leves demais para morrer. Anjos não morrem — eu pensava.

Até esta semana.

Caminhava distraído quando notei algo brilhando na calçada. O sol refletia cores miúdas, como se uma caixinha de joias tivesse tombado e espalhado suas pedras preciosas no chão. Aproximei-me protegendo os olhos com a mão. Quando mudei de posição e fiquei contra a luz, entendi.

Era um beija-flor.

Pequeno, imóvel, com o bico fino apontando para o céu — como se ainda insistisse em indicar seu verdadeiro endereço. As penas guardavam arco-íris silenciosos. Os olhos, antes vivos, agora eram vidro opaco.

Sentei-me ao lado dele. Pode soar exagero, mas algo em mim também se partiu ali. Não era apenas a constatação da morte de um pássaro. Era o fim de uma fantasia antiga: a de que certas delicadezas do mundo estivessem protegidas do desgaste do tempo.

Talvez envelhecer seja isso — perder pequenas eternidades particulares. Descobrir que até as coisas que julgávamos intocáveis obedecem às mesmas leis do restante da vida.

Ainda assim, enquanto levantava e seguia meu caminho, um consolo discreto se impôs. Outros beija-flores continuariam riscando o ar nos jardins. Continuariam arrancando, mesmo dos mais sisudos, aquele meio sorriso involuntário que ninguém admite, mas todos sentem.

Perdem-se as ilusões, é verdade. Mas não todas.

Os sonhos — esses teimosos — continuam. Multiplicam-se. Renovam-se. E talvez seja essa a única forma possível de eternidade.

No fim das contas, o beija-flor morreu.

Mas a ideia de que o mundo ainda guarda delicadezas não.

E isso, por enquanto, basta.

Dessa forma, “Em meio a tantos gases lacrimogênios/Ficam calmos, calmos/calmos, calmos, calmos/Lá se vai mais um dia”.
Cantaram Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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