06/02/2026 às 08h00min - Atualizada em 06/02/2026 às 08h00min

Vivência

WILLIAM H STUTZ

“Dor não tem nada a ver com amargura.
Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais.
É pra ensinar a gente a viver.” – Adélia Prado

Perguntaram por que essa mania de tanto falar de bicho e de amenidades viventes. Falo de gente também e não é pouco. Mas me dou mais com os bichos e suas graças e trejeitos. São mais equilibrados e nunca falsos.

Já alma humana é como lua, todas têm um lado escuro que nunca é mostrado. Uma banda mora na escuridão e encerra sentimentos mais loucos, frustrações, invejas, olhares turvos. Lá, guardadinhas as maldades que todos negam carregar, mas basta estímulo, ataque de ira para que aflorem como correntes furiosas de mar aberto, pororoca avassaladora que a tudo consome.

Bicho tem disso não. Neste exato minuto aqui no meu quintal, dedilho ao triste/alegre cantar de sabiá em choco. Soa amargura, tristeza. Não é não. É a alegria triste de ser feliz em soltura. O céu como limite, os filhotes no ninho. Canta para mostrar quinhão de território. Divisas invisíveis demarcam espaço defendido a bicos e canto.

Bicho não melindre, não julga, não trai. Bicho retrata pureza. E não são apenas os belos que encantam. Os ditos feios, venenosos, perigosos também têm sua graça. Bicho não sai caçando gente para ferroar, bicho não faz crueldade. Serpentes, escorpiões, morcegos são tratados como criaturas das trevas, quando na verdade são apenas parte de um quebra-cabeça gigante onde cada ser vivente é parte. Tudo se encaixa, não existe acaso, nem coincidência. O grande desafio de quem quer viver em harmonia e paz é montar este jogo. Cada peça em seu lugar. O sábio, o humilde, o de coração aberto acha caminho mais fácil entre peças coloridas ou escuras. Monta ao longo da vida devagarzinho, sem pressa. Os de coração duro, os que não demonstram suas malvadezas se perdem em pouca paciência e, normalmente abandonam as peças na poeira e por inveja ou ciúme desprezam o jogo. Montam um canto de vida e ali se deixam ficar afogados em poças pequenas de mesquinhez e ruindade. Não avançam, não cantam, não sorriem.

Exemplos de gente do bem existem aos montes, mas somem diante da torrente de lama das maldades. Olho de bicho percebe fácil. Sabe onde pousar e descansar corpo. Com bichos, com as crianças e com os loucos mansos, me dou. Lucidez destes encanta, perfume de dia nascer, melancolia de sol se pondo. Não preparam surpresas que não sejam as belezas de cada ir e vir, todas diferentes, cambiantes, suaves, puras. Falo de gente assim, de alma colorida. Não gasto tinta com iniquidades, me consome energia, descarrega vitalidade, desperdício de tempo. Estes dias encerrou-se período importante no direito, mas triste em si mesmo. Energia negativa circulava por todos os lados, não poupava nem bicho nem gente. Ofensas e brigas pairam ainda em denso espaço. Muita água de cheiro, defumador e acender de velas para livrar o espaço de tanta deterioração ambiento/mental. Almas conspurcadas, sandice por poder. Este, o cantinho mal construído pedacinho do quebra-cabeça da vida. Assim em reza peço:

Livrai-nos de todos mala men! Saravá!

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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