Introdução — Um ano de contrastes e mensagens cruzadas
O ano de 2025 foi marcado por uma combinação pouco usual de sinais econômicos favoráveis no curto prazo e fragilidades estruturais persistentes no médio horizonte. Enquanto inflação e mercado financeiro indicaram alívio relevante, o quadro fiscal, as tensões geopolíticas e a volatilidade das expectativas deixaram claros os limites para um otimismo linear. Os principais acontecimentos do ano, articulando política monetária, contas públicas, mercado de capitais, comércio internacional e o ambiente global, para projetar os riscos e armadilhas que se desenham para 2026 — um ano político, instável e potencialmente disruptivo.
Política Monetária e Inflação — O alívio que não autoriza comemoração
Em 2025, a inflação apresentou desaceleração gradual, impulsionada sobretudo pela queda dos preços no atacado e pelo desempenho favorável da safra agrícola. O IGP-M encerrou o ano com deflação acumulada de -1,05% (FGV), revertendo a alta expressiva de 6,54% registrada em 2024, refletindo a retração dos preços das matérias-primas agropecuárias e brutas.
O IPCA fechou 2025 em torno de 4,41% em 12 meses (IBGE), dentro da banda de tolerância da meta, enquanto o IPCA-15 de dezembro veio abaixo das expectativas do mercado, reforçando o processo de descompressão inflacionária ao final do ano, evidenciando que o alívio observado não foi homogêneo entre os diferentes grupos de preços.
Diante desse quadro, o Banco Central manteve postura cautelosa, sinalizando que, apesar dos avanços, o processo desinflacionário ainda requer juros restritivos por um período prolongado.
Juros Elevados e Dívida Pública — O custo invisível da estabilidade
Mesmo com o avanço no controle inflacionário, o custo fiscal da política monetária tornou-se mais evidente ao longo de 2025. De acordo com o Relatório de Política Monetária de dezembro, a dívida bruta do governo geral deve seguir em trajetória ascendente nos próximos anos.
O fator central dessa dinâmica é o diferencial negativo entre juros reais elevados e crescimento econômico moderado. Com parcela significativa da dívida indexada à Selic — mantida em 15% ao ano — o custo de carregamento passou a superar a capacidade de amortização gerada pela economia.
A ausência de um superávit primário consistente reforçou o processo de rolagem da dívida, ampliando a percepção de risco fiscal entre investidores. sem uma âncora fiscal crível e duradoura, a sustentabilidade da dívida continuará a pressionar a política monetária ao menos até o horizonte de 2026–2028.
Mercado Financeiro — A Bolsa contrariou o manual
Em um dos movimentos mais surpreendentes do ano, o Ibovespa acumulou alta superior a 30% em 2025, chegando a operar próximo dos 170 mil pontos em determinados momentos, superando com folga a rentabilidade da renda fixa atrelada ao CDI.
Entre os fatores determinantes estiveram a antecipação de cortes de juros em 2026, o fluxo de capital estrangeiro favorecido pelos cortes promovidos pelo Federal Reserve e valuations ainda considerados atrativos.
Embora a renda fixa tenha permanecido competitiva e segura, perdeu protagonismo relativo diante da valorização expressiva dos ativos de risco. O resultado reforçou a leitura de que 2025 foi um ano de exceção, sustentado mais por expectativas futuras.
Geopolítica e Comércio Exterior — O custo do tarifaço
No cenário internacional, 2025 também ficou marcado por tensões comerciais relevantes. Os Estados Unidos impuseram tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, com alíquotas variando entre 25% e 50%, afetando especialmente aço, alumínio e segmentos do agronegócio.
Estimativas do Ipea apontaram perdas de até US$ 1,5 bilhão para a indústria siderúrgica brasileira, número que se tornou referência simbólica do impacto do chamado “tarifaço”.
O episódio expôs a vulnerabilidade do Brasil a choques comerciais em um ambiente global cada vez mais protecionista, o impacto setorial foi significativo e deixou marcas no fluxo comercial com os EUA.
Conflitos Globais e Commodities — O pano de fundo da instabilidade
O prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia, somado às tensões persistentes no Oriente Médio, manteve os mercados globais em estado permanente de alerta ao longo de 2025.
As commodities agrícolas recuaram, contribuindo para a desaceleração inflacionária, enquanto petróleo e minério de ferro oscilaram conforme as expectativas de crescimento global e os riscos geopolíticos. A desaceleração da economia chinesa limitou ganhos mais expressivos das commodities metálicas, ao passo que o petróleo permaneceu volátil, refletindo tanto decisões da OPEP+, quanto incertezas no cenário internacional que continuarão sendo uma variável-chave para o desempenho econômico em 2026.
Expectativas para 2026 — Volatilidade, política e incerteza
O Relatório Focus encerrou 2025 exibindo forte volatilidade nas projeções para a Selic em 2026, com estimativas oscilando em torno de 12,25% ao ano.
A Ata do Copom indicou espaço técnico para o início de cortes, mas condicionou qualquer afrouxamento monetário a sinais mais claros de convergência fiscal e inflacionária. O calendário eleitoral adiciona ruído adicional às expectativas, elevando o prêmio de risco e retardando decisões de investimento de longo prazo.
Conclusão — O ano que ensinou a desconfiar do conforto
O ano de 2025 não representou um ponto de chegada, mas sim um ensaio geral para um ciclo mais complexo. A inflação cedeu, a bolsa surpreendeu e o comércio resistiu, porém o custo fiscal elevado, a fragilidade institucional e o ambiente geopolítico adverso impediram qualquer leitura triunfalista.
O ano de 2026 se desenha como um período de escolhas sensíveis, no qual política, credibilidade e disciplina econômica serão testadas em um ambiente de expectativas frágeis e elevada volatilidade. O alívio observado em 2025 pode rapidamente se converter em frustração.
Mais do que números, o que estará em jogo em 2026 será a confiança — um ativo invisível, escasso e decisivo.
“2025 ensinou que números podem aliviar, mas não sustentam; 2026 exigirá escolhas que revelem se o país governa expectativas — ou apenas reage a elas.”
Fontes: IBGE, FGV, Banco Central do Brasil, B3, Exame, SBT News, Jornal de Brasília, Ipea, DatamarNews, Reuters.
FMI, OPEP, Bloomberg.
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