Introdução
A fragilidade da governança brasileira deriva menos da escassez de recursos e mais da priorização das narrativas políticas sobre a racionalidade técnica. O uso do palanque como instrumento de formulação de políticas, somado à instabilidade institucional e à incapacidade de construir consensos mínimos, reduz a eficiência estatal e compromete a confiança de investidores e agentes sociais. A combinação entre reformas interrompidas, volatilidade regulatória e produtividade persistentemente baixa mantém o país em um ciclo que restringe seu potencial de desenvolvimento econômico e social.
Superar esse cenário exige fortalecer instituições, profissionalizar a gestão pública e recuperar a previsibilidade das decisões governamentais. Sem esse alinhamento, o Brasil continuará desperdiçando energia, recursos e—principalmente—tempo, insistindo em práticas ideológicas que inflamam debates, mas atrasam o avanço estrutural do país.
1. Descontinuidade nas políticas públicas (anos anteriores – 2016)
No período anterior a 2016, a administração pública alternou entre agendas fiscais conservadoras e estímulos pontuais moldados por pressões eleitorais. Essa oscilação gerou políticas incompletas, iniciativas sem planejamento e interrupção recorrente de projetos estruturantes. A retórica ideológica, frequentemente superior às avaliações técnicas, resultou em programas lançados sem estimativas de impacto ou métricas de desempenho.
Embora não exista indicador único que quantifique de forma precisa perdas de investimento decorrentes dessa instabilidade, diversos relatórios de finanças públicas apontam que reversões de políticas e decisões de curto prazo geraram custos elevados, fragilizando a credibilidade fiscal e afastando investimentos em infraestrutura e inovação. A volatilidade institucional criou um ambiente de baixa confiança, cuja repercussão se estendeu para anos seguintes.
2. Polarização narrativa e paralisia reformista (2017–2020)
Entre 2017 e 2020, houve avanços pontuais — como a reforma trabalhista e o início da reforma previdenciária —, mas o ambiente político tornou-se cada vez mais dominado por confrontos ideológicos. Narrativas de mobilização social substituíram, em muitos momentos, debates estruturados sobre produtividade, infraestrutura e competitividade.
Essa prevalência do discurso sobre a técnica produziu efeitos concretos. Estudos econômicos e análises de risco apontaram que a polarização reduziu o apoio social a reformas de longo prazo e aumentou o custo de financiamento, devido à ampliação da percepção de incerteza. O investimento privado desacelerou e o Estado perdeu capacidade de planejar agendas plurianuais. A instabilidade não se limitou ao debate político: ela se converteu em dúvidas sobre o compromisso futuro com ajustes estruturais e enfraqueceu a articulação institucional necessária à implementação de políticas públicas duradouras.
3. Instabilidade institucional e impactos atuais (2021–2025)
A partir de 2021, a governança brasileira passou a operar em ambiente de tensão permanente entre os poderes da República, o que agravou a imprevisibilidade normativa e elevou o custo de capital. Intervenções regulatórias frequentes e baixa coordenação federativa dificultaram a execução de políticas públicas, criando obstáculos para planejamento e investimentos de longo prazo.
No campo fiscal, os limites tornaram-se claros. Segundo o Tesouro Nacional, no primeiro trimestre de 2025 a necessidade líquida de financiamento do governo geral atingiu cerca de 1,7% do PIB, evidenciando restrição orçamentária em meio ao compromisso declarado de responsabilidade fiscal. Paralelamente, a produtividade segue estagnada: dados do Observatório de Produtividade Regis Bonelli (FGV/Ibre) indicam crescimento de apenas 0,3% por hora trabalhada no segundo trimestre de 2025, alinhado ao baixo desempenho médio das últimas décadas.
No plano internacional, indicadores reforçam a persistência de fragilidades estruturais. O IMD World Competitiveness Ranking 2025 posiciona o Brasil entre as últimas colocações, com desempenho crítico em eficiência governamental, estabilidade regulatória e ambiente jurídico. Esses resultados demonstram que a fragmentação institucional e a baixa capacidade de coordenação permanecem como barreiras centrais à construção de políticas consistentes e à atração de investimentos de longo prazo.
Conclusão: o peso das narrativas e o preço do Palanque Permanente
A fragilidade da governança no Brasil decorre, sobretudo, da supremacia das narrativas políticas sobre a técnica. O predomínio do discurso de palanque, aliado à instabilidade institucional e à dificuldade de estabelecer consensos básicos, compromete a eficiência estatal, reduz a confiança de investidores e limita a construção de políticas públicas duradouras. Repetem-se reformas interrompidas, volatilidade normativa e produtividade baixa, perpetuando um ciclo improdutivo que impede avanços sociais e econômicos mais ambiciosos.
Romper esse padrão exige fortalecer instituições, profissionalizar a administração pública e restabelecer previsibilidade regulatória. Sem essa ruptura, o país seguirá consumindo capital político, recursos públicos e—sobretudo—tempo, insistindo em práticas que alimentam a retórica, mas sacrificam o futuro.
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