26/09/2025 às 08h00min - Atualizada em 26/09/2025 às 08h00min

El tempo pasa

WILLIAM H STUTZ

“You must remember this
A kiss is still a kiss
A sigh is just a sigh
The fundamental things apply
As time goes by (...)”

Composição de Herman Hupfeld mas na voz de Dooley Wilson como Sam no filme Casablanca, desta forma me traz as melhores recordações ever!

Cara, a vida tem remédio.

Cara, a vida tem remédio. E como tem.

Chega um momento em que já não contamos o tempo pelos calendários de oficina mecânica, mas pelas cartelas de comprimidos: hipertensão, colesterol, triglicérides, gota, depressão, glicemia. Remédio para dormir, para acordar. Para transar, para não transar. Para não morrer enquanto transa. Pílulas para evitar gravidez e outras para provocá-la. Complexos vitamínicos que compõem o alfabeto inteiro, de A até Z. Só não inventaram ainda uma vitamina com W, acho.

As cápsulas e comprimidos vêm, em geral, em caixas de 30 unidades. E, sem perceber, passamos a medir nossos dias por elas — e não mais pelo imã do gás pendurado na geladeira. O tempo corre quando o blister vai esvaziando. Um comprimido perdido no cantinho da cartela já parece sinal de que um mês inteiro se foi. Blister, aliás, que nome! “Cartela” é de bingo beneficente; blister impõe respeito.

Se ainda fosse o imã do gás, o tempo passaria mais devagar. Para quem mora sozinho quase o tempo todo, então, dura uma eternidade: café pela manhã, um pão com ovo à tarde e, no máximo, um macarrão instantâneo à noite. Botijão cheio é quase relógio parado. Mas caixa de remédio vazia acelera tudo.

Quando o fim se aproxima, é aquele “Deus nos acuda” até a farmácia. Lá, somos fregueses conhecidos, quase amigos dos balconistas. Enquanto esperamos, os olhos passeiam pelas prateleiras coloridas, as caixinhas perfiladas em ordem alfabética, pacientes à espera do destino ou de outro e verdadeiro paciente com comorbidade diagnosticada. Algumas serão consumidas com disciplina; outras vão direto para a gaveta até vencerem — existência desperdiçada. Dá até para imaginar que também sentem algo, e isso muda o jeito como olhamos para elas.

Até que o atendente chega, sorridente, com a pergunta que preferiríamos ouvir de um garçom de boteco:

— E aí, meu amigo, o que vai ser hoje?

Ah, se fosse uma cerveja gelada e uma porção de fígado com cebola! Mas não. Entrego a receita. Vem a pergunta de praxe, automática:

— De marca ou genérico?

Basta o franzir da sobrancelha para ele concluir: genérico. Pago, pego a sacolinha e já vou saindo quando, sem resistir, viro-me e quase suplico:

— Tem alguma novidade? Algum lançamento?

No fundo, não buscava só um comprimido diferente. O que eu queria mesmo era, inconscientemente, comprar mais um pouco de tempo.

“El tiempo pasa,
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo, como ayer.
En cada conversación,
cada beso, cada abrazo,
se impone siempre un pedazo de razón .(...)”

Años - Pablo_Milanes

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