“Meu avô ajudou a fundar uma cidade aqui, chamava-se Arraial dos Paulistas, ali perto de Três Ranchos, em Goiás. Minha mãe morava lá no Prata, na casa da tia Sinhá e do tio Argemiro quando se casou com meu pai. Foi um namoro assim: num dia viu, noutro mês conversou, no outro se casou. Meu pai voltou para a Itália com minha mãe e três filhos, Letícia, Caetano e Francisco Lá nasceu o Manoel. Ele já morreu. Papai ficou meio envergonhado lá. Porque, naquele tempo, era uma ganância, uma briga por qualquer coisinha. Qualquer pedacinho de terreno dava aquela encrenca Então ele não estava acostumado com aquilo e quis vir embora. Mamãe não quis, queria ficar. Ela contava que sofreu lá. Chegava o inverno, ela abria a torneira, a água não saia. Ficou lá uns três meses sem poder sair de casa. Os meninos... meus irmãos, já sabia falar italiano. Ficaram um ano lá. O Caetano foi um grande pintor. Ele estudou Belas Artes lá em São Paulo. Voltaram para Uberabinha e montaram um armazém muito variado para atender o pessoal que vinha da estação da Mogiana. Me lembro que tinha aquele pau para amarrar o cavalo. Tinha muito carro de boi que vinha e carregava lá. Querosene principalmente. Sal também. Ele era onde depois foi a Casa Capparelli. Antigamente tudo era muito pequeno e parecia grande A Casa Capparelli foi muito grande, o que é ela hoje perto de um Alô Brasil, de um Martins? Tinha 12 caminhões, naquela época era um mundo. Hoje, ter oitocentos…
Nós começamos num cômodo... tinha o que?
Era muito pequeno porque nós tivemos a mesma ideia do papai, atender o pessoal que vinha da estação. Quem não queria almoçar ou jantar no restaurante da estação vinha e comia alguma coisa. Então tinha no começo, broa pé de moleque, pinga, biscoito, groselha, fernete. A Casa Capparelli começou assim. Num segundo estágio começou a vir as famílias comprar. Nós tínhamos uma bicicleta e íamos de casa em casa, batíamos e perguntávamos “a senhora quer alguma coisa?” “Ah... traz um quilo de sal, um pote de anil, uma caixa de fósforos, era assim. A gente saia correndo, arrumava tudo aquilo voltava e entregava e eles pagavam no fim do mês. No começo, a gente ia atrás do freguês, isso não era comum nas noutras firmas era diferente. Acho que nós fomos os primeiros a fazer isso. Depois, as donas de casa começaram a ir lá buscar as coisas. Então chegava o sábado era aquele movimentão. Nós fomos largando a bebida, o biscoito porque tínhamos que vender coisas maiores. Então já abrimos o depósito que era no fundo. Quando meninos, nós chamavámos aquilo de papagaio. Não tinha janela, não tinha nada. Ali. Começamos a guardar mercadorias mais pesadas. Então, o dia que chegavam dez sacos de açúcar, a gente tinha que empilhar açúcar, feijão, açúcar, feijão, que era mais fácil de puxar os sacos. E foi crescendo, foi crescendo.
Fonte: Sebastião Capparelli
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