Ele está bem homenageado por uma das ruas do Fundinho, mas pouca gente sabe quais são os seus méritos para tanto. Ao contrário de muitos que são simplesmente amigos, ou pelo menos conhecidos, de alguma autoridade competente para nomear ruas, o padre João da Cruz Dantas Barbosa tem uma História que se confunde com o próprio desenvolvimento do velho aglomerado humano do século dezenove que foi São Pedro de Uberabinha.
Nascido no seio de uma família paracatuense que forneceu vários sacerdotes à Igreja Católica, entre eles, o famoso padre Pio, também nome de rua, João da Cruz veio a ser o terceiro pároco da Matriz de Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião Mártir. O primeiro foi o filho do Felisberto, José Martins Carrijo; o segundo foi o padre Antônio Joaquim Azevedo, mais conhecido como “padre Almas”, e o terceiro, o Vigário Dantas, que outro não é senão o João da Cruz, que assumiu suas funções em março de 1865.
Seu antecessor havia esboçado algumas obras de ampliação da antiga Capela que já exigia acomodações mais amplas para uma população que crescera bastante. Dantas Barbosa tomou do projeto, mudou-lhe alguma coisa, planejou duas torres soberbas que resistiram quase um século, derrubadas com todo o prédio pelo prefeito Vasconcelos Costa em 1943, para a construção de uma Estação Rodoviária. As obras da reforma foram iniciadas sob a administração de Felisberto Alves Carrejo e Francisco Alves Pereira e terminadas pelo último, pois o primeiro veio a falecer em 1876.
Em seguida, o Vigário Dantas resolveu construir a Capela do Rosário na praça do Rosário, que já possuía este nome antes da construção, e atualmente se chama Dr. Duarte. Esta capela também já estava planejada, só que para a margem direita do córrego São Pedro onde se amontoara algum material para as obras. Dantas Barbosa mandou subir tudo para a praça do Rosário e lá ergueu a pequena igreja.
Como todos sabem, o caminho de São Paulo para o centro oeste bifurcava-se depois de passar por Uberaba: um ramo seguia para a direita no rumo da Aldeia de Sant’Anna do Rio das Velhas (Indianópolis), e o outro pela esquerda buscava Santa Maria de Uberaba. Fora de todas as rotas, São Pedro de Uberabinha não era servida pelo Correio. Correspondências, jornais, notícias eram trazidos pelos “próprios” quando os havia. E tinham que ser pegados em Santa Maria. Logo depois da Guerra do Paraguai, o Vigário Dantas reuniu um grupo de interessados e, às suas expensas, criou-se uma linha regular de correio ligando Uberabinha a Santa Maria. Funcionava uma vez por semana. Até 1883, quando foi instalada a primeira agência postal oficial do povoado, o estafeta era pago pelos interessados locais.
Foi também o vigário João da Cruz Dantas Barbosa quem providenciou a construção do primeiro cemitério do arraial. Até sua chegada os enterros eram feitos no adro da igreja e ao pé de um cruzeiro que havia no início do cerrado, ali pelas alturas da atual praça Clarimundo Carneiro. Nesse mister foi muito auxiliado pelo missionário frei Paulino que veio pregar pelas missões. A pedido do vigário, o frei convenceu os habitantes a ajudar na construção da nova necrópole. O campo santo foi cercado por pedras e ficou pronto em poucos dias. O próprio frei pegava no pesado ao lado do povo. Depois que o frei se foi, o padre João tocou sozinho o acabamento.
Uma das obras mais importantes do vigário Dantas, entretanto, foi redigir o memorial elaborado pela comissão encarregada de justificar e pedir a emancipação do município, onde, além de oferecer as razões necessárias à decretação do que se pretendia, ainda retratava com muita clareza as condições econômicas do povoado naquela época. O referido documento conta que a Freguezia possuía sessenta engenhos de cana de açúcar, sete engenhos de serra, nove olarias de telhas, seis oficiais de ferreiro, quatorze oficinas de sapateiros, seiscentos carros arreados em trabalho (carros de bois), duzentos prédios, um cemitério, uma matriz importante, contendo todos os paramentos, uma igreja do Rosário em construção, duas aulas do sexo masculino e feminino, oito aulas particulares, dez capitalistas, nove negociantes de fazendas (tecidos), doze negociantes de gêneros do país e molhados, uma fonte de águas sulfurosas já acreditadas, um hotel bem montado, pedras de diversas qualidades e madeiras de lei. A exportação anual de gado, porcos e mais gêneros foi orçada em cem contos, a importação em cento e cinquenta contos, o número de eleitores era oitenta, o número de cidadãos aptos para jurados, duzentos, a criação de gado vacum em vinte mil cabeças.
O fato pitoresco da vida do padre João da Cruz Dantas Barbosa, o grande vigário Dantas, e que é um forte indício de que a Lei Áurea teve sua aplicação retardada na região, ou pelo menos no povoado, foi o registro de casamento dos negros Camilo Creoulo e Agostinha Creoula, feito no dia 10 de novembro de 1888, seis meses, portanto, após o 13 de Maio e em pleno vicariato do padre João. Lá no Livro apropriado consta com todas as letras que Camilo era ESCRAVO de José Gomes de Miranda e Agostinha era ESCRAVA de José Fernandes de Miranda.
Fontes: Tito Teixeira, Pedro Pezzutti, Antônio Pereira da Silva (in “Histórias de Uberlândia – vol. I”)
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