Sempre se disse que somos um povo chegado a discursos. Por nada, alguém se levanta e pede a palavra. Mas já foi pior naqueles tempos em que não havia rádio, nem TV, nem clubes e o cinema engatinhava febril e mudo. Qualquer ajuntamento por qualquer motivo, permitia o clássico: “meus senhores, minhas senhoras...”.
Time de futebol sem orador andava desfalcado. Discursava-se antes e depois do jogo, com vitória ou com derrota. Nosso estimado ex-governador Rondon Pacheco, mocinho ainda, foi orador do Uberlândia Esporte Clube!
Nas primeiras décadas do século passado, foi de grande importância para a cidade e para a região, a instalação, por Fernando Vilela, da Companhia Mineira de Viação Intermunicipal. O sucesso de suas estradas, entregues ao tráfego a partir de 1912, estimulou a abertura de outras empresas estradeiras.
Em 1919, os coronéis Ronan Rodrigues Borges e Sydney Pereira de Almeida, ambos comerciantes em Santa Rita do Paranaíba (Itumbiara), resolveram empurrar para a frente os terminais da estrada do Fernando Vilela. Criaram a Companhia Auto-Viação Sul Goyana ligando Itumbiara a Rio Verde. Abriram uma S/A e fizeram sua inauguração em julho.
Enviaram convites para a festa inaugural, a todas as cidades que se serviriam direta ou indiretamente da estrada. Assim, no dia 16 de julho, organizou-se comitiva em Uberabinha, com 30 “máquinas” (esse era o nome popular do automóvel).
Faziam parte o jornalista Vasco de Andrade, o coronel Ernesto Rodrigues da Cunha, o coronel Marciano de Ávila, o farmacêutico Leôncio do Carmo Chaves, o coronel João de Andrade, o industrial capitão José Thomaz de Rezende, o dr. Octávio Rodrigues da Cunha, João de Andrade Sobrinho, Oziris Rodrigues da Cunha, Durval Santos, José de Ávila, o coronel Renan Borges, o coronel Severiano Rodrigues da Cunha, o dr. Ignácio Penha Paes Leme, Abílio Carvalho, Evaristo de Castro, o professor Honório Guimarães, Benigno Ferreira, Oswaldo Rodrigues da Cunha, Carlos de Araújo (mais conhecido por “Sapinho”), o coronel Urias Rodrigues da Cunha e outros. A elite.
A brincadeira já começou na chegada a Monte Alegre quando um veículo quis ultrapassar o outro e tanta estripulia fez que acabou capotando. Ninguém se feriu. Agora, calculem a perigosa velocidade em que estava a “máquina”: eles tinham saído de Uberabinha a uma hora da madrugada; chegaram a Monte Alegre às 14,30 horas. Sendo a distância de doze léguas, desenvolveram uma média de 5,5 Km por hora!
Às dezenove horas chegaram a Santa Rita (Itumbiara) onde foram recebidos pela Diretoria da Sul Goyana. Pousaram e, no dia seguinte, às dez horas, seguiram para o pouso na Fazenda Cachoeira, que não era habitada. Antes tiveram que vencer o Rio Meia Ponte passando nas velhas balsas de antigamente feitas de pranchões de madeira colocados transversalmente em cima de canoas. Os dois últimos carros quase viraram as canoas e muita gente caiu n’água. O proprietário da “Cachoeira”, recebeu-os com um churrasco. Era a única coisa que havia. Comeram, mas não dormiram, tanta molecagem fizeram a noite inteira. Gritarias, gemidos, gente acordada que puxava a perna de quem cochilava, muitos tiritando de frio porque estavam com as roupas molhadas e não tinham “muda”. O Promotor de Justiça de Santa Rita, incorporado ao grupo, exigia “ordem” sem conseguir a mínima obediência.
Noite alta, adentrando à madrugada, o coronel Renan Borges pediu ao prof. Honório Guimarães que fizesse um discurso saudando os quase-náufragos. É nesse ponto que se instala a epidemia dos discursos.
O pouso seguinte foi na “Cabeleira”. Aí morava gente e a recepção foi melhor. Houve mesa farta, dançaram a catira e, para encerrar, “fez uso da palavra” o comerciante Merched Daher, de Franca.
Chegaram a Rio Verde, às 14 horas do dia 19. A cidade embandeirada. Na sua entrada, um arco do triunfo fechado por uma fita que cabia ao coronel Ronan desatá-la. À sua direita, uma tribuna de onde os excursionistas foram saudados por dois discursos. Vasco de Andrade falou agradecendo pela Sul Goyana, o coronel Marciano de Ávila falou pelos coronéis e o coronel Ernesto Rodrigues da Cunha pela comitiva de Uberabinha.
Fez-se um corso de mais de 30 “máquinas” pela cidade.
Os excursionistas pousaram no Hotel de dona Maria Afonsina. No dia 20, às 12 horas, começaram as solenidades. Foram feitos nada menos que 10 discursos saudando a nova empresa e suas estradas. Entre tantas falas, falou o Diretor Técnico da nossa Companhia Mineira, o Dr. Ignácio Penha Paes Leme. Do lado de fora, a cada discurso, uma das bandas (eram duas) sapecava um dobrado.
Às 20 horas, houve baile e, no dia seguinte, a comitiva descansou. No dia 22, pela manhã, foram para Jatahy; mais sete horas de viagem. O povo os esperava com a cidade engalanada e muito confete. Houve muitos discursos de novo, mas nem me preocupei mais em registrar quantos nem quem falou. Quem respondeu a todas as saudações foi o prof. Honório Guimarães.
À noite, banquete. A sala ricamente ornamentada com escudos verde-amarelos pendurados pelas paredes representando 22 cidades goianas. A mesa era em forma de “L”, para mais de 100 talheres. Os discursos, aqui, foram, pela ordem dos brindes: “au dessert”, “au champagne”, “au liqueur” e, finalmente, o brinde de honra, encerrando a falação. Em seguida, baile. Durante o chá que se serviu, mais um discurso e o prof. Honório Guimarães declamou dois sonetos.
A comitiva retornou no dia 24 e, como não pararam mais nem houve mais discursos, chegaram no dia 26. Rápido, não?
Fonte: jornais da época.
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