Cabelos grisalhos agora longos, fazia tempos que não a via. Fragilidade de louça chinesa. Lúcida, mas já a repetir casos contados com frequência. A ferina capacidade de intencionalmente magoar e se esconder sob o véu do tempo, da idade se mantém jovem, ativa. Como para as crianças, avalia que tudo pode ser perdoado. Amor não cultivado, difícil frutificar, impossível perfumar. Leva-se.
Num lampejo de bem pensar, não menos egoísta do que os outros, um murmúrio significativo: - "Parece que tudo foi a tanto tempo."
Boto reparo, mas agora me calo, sem magoas, sem culpa, sem nada. Observo.
Cachoeiras
Algumas partes do cerrado, e aqui quase planalto, assustam e trazem surpresas.
De uma paisagem onde o horizonte é o céu, onde o maior morrote pode ser um cupinzeiro perdido no pasto ou na mata retorcida, ou ainda lombo de tatu-canastra em eterno correr afobado, surgem locais mágicos.
Ao longe percebe-se estranha névoa a subir como se brotasse do chão. Perto chegando ouve-se baixo murmúrio que aos poucos se transforma em elevada e delicada música, até se transforma em rugido forte e ensurdecedor.
Uma grota do nada aos seus pés se abre, cachoeira de gigantesca queda surge como miragem.
Ao chegar ao fundo, poço imenso se forma ladeado de exótica vegetação, pouco comum por essas bandas, a força da água massageia a alma e o calor escaldante fico longe, lá no alto. Um mergulho na essência da natureza. Um retorno.
Amanhecer
O amanhecer hoje foi excepcionalmente amarelo.
Contraste com a verde algazarra das maritacas e o arco-íris das saíras a brigar com seus reflexos. Encantei em contemplação.
Marimbo de barro
Imitando seus irmãos pássaros joões-de-barro, pequeno marimbondo faz sua casa.
Ou teria sido o contrário, João de Barro a observar caprichoso oleiro?
Infinito assombro, beleza miúda e frágil.
Inesgotável riacho translúcido de incontáveis surpresas, sem corredeiras, deslizando preguiça e eterno
Mergulho ali sempre, todo dia, me refresco, me renovo.
Vida pulsa
Vida.
Telhado
Telhado como chuva escorre.
Cria bica, poça em terra de cultura
Sujo quintal em desmazelo.
Talvez e só talvez como alma do dono
Tormento dolorido. Incúria interna e permanente.
Em impetuoso enxurro de barro, pedra e lama lá se vão histórias e vida
Conto, depois conto; são tantas e tantas.
Chuva agarrou
Depois de longo período de chuva meio pedra meio tijolo, parece que finalmente a temporada das águas agarrou.
Sair da cama foi um suplício, eram cinco horas, escuro que só. Dei uma puxada na manta de tear, esta eu trouxe lá de Andrequicé, terra de Manuelzão, aquele de que Rosa, o João tanto falou, e virei para o lado.
Se é uma mania que tenho são mantas e colchas de tear, por onde ando procuro, coleciono, junto, para guardar em canastra não senhor, usamos todas lá em casa. Cobrem camas e sofás. Para dormir uma carícia, principalmente as de algodão, as de lã bem cardada sapecam um pouco, nada que um lençol não resolva. Tenho muitas, de todos os cantos, muitas de Goiás mas a maioria é nossa aqui das Minas.
Estou sempre a buscar novas. Pontos, cores, fios e desenhos, para mim cada uma tem uma história, obra de arte única, não existem duas iguais. As guardo para sempre, não apenas as mantas e as colchas, mas também as histórias amigas, as histórias, amigo.
Ando longe por uma. Tem alguma? Manda que de bom grado aceito.
Tecelãs de mãos mágicas, o barulho do tear batendo me encanta, fico horas sentado perto de um, observando, cismando, chego a cochilar de tanta paz que envolve.
Então: Dei puxada na manta, senti o friozinho gostoso do barulhinho da chuva tamborilando na janela. Pensei, mais cinco minutos.
Qual nada, de um pulo direto para chuveirada fria, um despertar forçado, café quentinho e assim fui eu trabalhar.
Faz mal não, quinta-feira me vingo, é feriado e que venha chuva da madrugada e da manhã.
Lembrei dos bons tempos de república, sem chance de ir à primeira aula num dia assim, ainda mais que íamos de bicicleta para o campus Umuarama - muitos quilômetros de leve, mas sentida subida.
Saudades.
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