Uma vez o escritor Mário Ferreira disse: “a ansiedade é um problema criado pela nossa imaginação, mas com consequências reais”. Uma frase tão forte quanto perigosa. Pois o mundo que acreditamos conhecer e é real para nós, um dia foi fruto da imaginação de alguém.
A diferença é que o que acontecia entre a imaginação e a realidade era esquecido ou controlado por poucos, assim, nós seres pouco inteligentes, acreditávamos em um modo de vida ficcional, que se consolidava aos poucos e se tornava real com séculos de caminhada.
Um processo marcado por sangue, força e mentiras. Afinal, as crenças de alguém, um dia poderoso, caem por terra. E esse alguém vê a sua realidade se tornar ficção, enquanto outra toma o seu lugar.
Poucos tentam mudar a roda, milhares de pessoas só querem pegar carona, não pensam e não raciocinam, simplesmente seguem o bando. É melhor aceitar o que se tem do que morrer sozinho com as nossas ficções. Vamos nos agarrar nas ilusões da maioria, assim fingimos escapar da solidão e não nos culpamos se algo der errado.
Afinal, o nosso instinto é de sobrevivência, esse instinto, por sua vez, sempre em conflito com a nossa racionalidade. Me pergunto: somos inteligentes? Ou apenas atores da nossa própria imaginação? Pensamentos assim podem classificar a vida como um verdadeiro drama com pequenos momentos de felicidade, sempre envaidecidos e repetitivos quando possível. Pouco, não é?
Dentro dessa caixinha existem outras que criamos para sustentar o que temos. Para suportar a realidade da nossa ficção consolidada, somos capazes de criar heróis, rainhas, reis, princesas, príncipes e vilões. Talvez, por isso, gostamos tanto da narrativa da jornada do herói, pois ainda não consolidamos a ficção tão presente em nosso dia a dia.
Mas já pararam para pensar que o tempo para consolidar uma ficção e impor uma crença mudou? Entre as nossas construções e desconstruções há milhares de anos e, se pensarmos bem, as eras demoravam a ruir.
Na verdade a estupidez humana era mais velada, mais protegida, agora não há tempo para construirmos novos padrões ou inventarmos outros deuses, a velocidade das informações não nos deixam consolidar nossas ficções e, ao mesmo tempo, nos mostra o animal frágil que somos.
Estamos em busca de um novo ídolo, um novo exemplo imaculado e perfeito conforme a história nos conta. Sem exemplos, sem ídolos, sem ter em que se apoiar, passamos a acreditar que somos donos das nossas próprias ficções. Em meio a esse processo de desconstrução da nossa própria imagem, buscamos desesperadamente alguém que valide a nossa nova criação.
As ficções dessa era digital tem imagem, sons e várias versões para tudo, quando se busca permanentemente uma verdade para sustentar a nossa existência, nós encontramos teorias que alimentam e criam milhares de outras ficções.
Quando se fala que a atual geração vem menos “inteligente”, eu falo que ela veio sem tempo para acreditar e organizar as ficções que outrora viesse a criar.
Contudo, será que podemos recriar? Nossas ficções dizem que sim, no entanto, a realidade atual inventada por nós, me faz acreditar que não. Se o medo nos impede de evoluir, ele também nos faz caminhar para trás.
Mais conectados e mais distantes, não estamos cooperando para uma nova era, por outro lado, estamos regredindo a uma velocidade nunca vista, ao mesmo tempo em que não conseguimos contar somente uma história para fortalecer velhas, novas ou outras ficções.
Perdidos e ansiosos por algo que não conseguimos criar, transformamos em desespero o nosso medo da realidade, já muito fragilizada pelo excesso de ficções acumuladas diariamente. Sem a convicção necessária para seguir, o nosso instinto de sobrevivência se perde e nós voltamos a ser somente animais em meio a uma selva sem sentido, porém muito atraente, vazia e perigosa.
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