Hoje, a inspiração me falta, a reflexão sobre a vida me toma o tempo, enquanto isso, o tempo passa. Acelerado, com milhões de pensamentos, todos embaralhados e sem nenhuma conexão, coloco uma música para me ajudar a acalmar.
Com batidas leves e um ritmo que varia entre o rock e a MPB, mesmo sem saber o que se encaixa como música popular brasileira, as palavras parecem estar um pouco menos agitadas.
Já que nesta sexta-feira (23), o Rei Roberto Carlos se apresentou por aqui, poderia muito bem-estar escutando alguns dos seus sucessos, que muitos dizem ter uma pitada de rock e muito da música popular brasileira.
Essa popularidade vem da sua genialidade e de sua habilidade inegável de saber trabalhar as palavras e as crenças adquiridas ao longo da vida, determinando como as pessoas o veem. Entre as notas e as letras, há emoções escondidas ou escancaradas, tudo na medida certa para que ele conseguisse seguir o caminho que escolheu.
Alternando entre a melancolia, tristeza, pequenas doses de dopamina e agarrado em uma fé que o fez guardar para si uma condição, que muitos descobriram recentemente, e que ele faz questão de parecer apenas um detalhe.
Sem querer argumentar, sem utilizar das palavras que ele sabe usar tão bem, Roberto Carlos sempre soube que a palavra que o definiria, também poderia ofuscar o seu dom, não para ele, mas para os outros.
Assim, falando de emoções populares e raramente falando literalmente das dores que só ele tem, um legado se construiu. Cantando as tristezas comuns e os nossos curtos momentos de alegria, Roberto Carlos preferiu, sabiamente, esconder do público uma característica única.
Ele sempre soube que muitos não queriam ver o que o torna humano. Por isso, a cada novo sucesso na boca do povo, mas ele alcançava uma posição que só ele tem. Entre uma nova mania e toques que somente um astro popular pode se permitir a ter, o cantor, cada vez mais presente no homem, se distanciou da imagem pequenina que poderiam fazer dele.
O nome se consolidava e a vida mostrava algumas surpresas e, assim, a sua família também o fez retornar, em doses discretas para mídia, a imagem de quando era menino. Um filho, que tanto idolatrava o astro, também me fez perceber o homem fantástico que ele é.
Ele protegeu o filho, assim como construiu a sua fortaleza. Entendendo as exposições que o tempo nos obrigou a ter, ele permitiu que o seu filho, Dudu, tivesse uma vida plena e com realizações, mas que ele discretamente se envolveu.
Compreendo que o filho preferiu e viveu outro caminho, ele foi a base sustentável. O pai fez o papel dele. Com o medo e protetor, porém mantendo a maneira que escolheu para si, Roberto soltou e segurou o seu filho quando preciso, fazendo com que um pouco da sua imagem de astro, também fosse aproveitada por Dudu.
Roberto Carlos utilizou a música e construiu um reinado, pois sabe que os reis são eternos, entre críticas e acertos, ele já está imortalizado pelo seu dom. Contudo, ele prefere se manter discreto quando todos falam da sua perna.
Os holofotes que ele escolheu foram outros. Ele aproveitou um tempo de anonimato, onde a exposição era programada e as dores eram somente nossas para construir quem ele queria ser. Já como pai foi humano, protegeu o filho, mas deixou ele livre até onde pode, tendo a certeza de que a imagem e a coroa conquistadas facilitariam e diminuiria a dor, que sentiu um dia, ao ser fuzilado por olhares de terceiros.
Roberto Carlos, o homem, Roberto Carlos, o rei. Ambos escondem medos e dores, dúvidas e certezas, antes do rei, o homem escolheu não falar sobre uma de suas dores, mas o Rei poderia fazer o homem sentir que eles são um só e que a sua majestade será ainda mais imponente quando ele se expor, afinal, a deficiência é um detalhe dentre tantos que temos.
E já que ele conseguiu a coroa, nós não precisaríamos mais nos esconder e simplesmente se contentar em ser aceito. Em tempos em que todos se expõem sem saber o que querem, o Rei poderia compreender a força que tem, somente um representante como Roberto Carlos poderia mostrar que a singularidade nos torna únicos e que se apegar aos detalhes nos fazem viver uma vida comum.
Não viva um reino monótono. Amplie seu legado, você pode ser lembrado como “O Cara” que fez o mundo rever o modo como se inclui as pessoas, pois os detalhes tão pequenos nos fazem grandes, mas temos que nos enxergar capazes, assim como você fez sozinho.
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