No silêncio escaldante do domingo, às 13h50, a paz envolve tudo como um manto protetor. Os pensamentos, normalmente tão barulhentos, agora ecoam de modo suave em minha mente. O vento seco suspende qualquer som, até mesmo o canto alegre dos pássaros que preenche os dias. Neste momento, reina uma sinfonia de quietude.
Abro uma lata de cerveja com um estalo, que parece romper o tecido do tempo. O primeiro gole desce suavemente, como se cada sorvo fosse mágico, trazendo consigo um alívio quase ritualístico. Opto por não colocar música; desejo ouvir o vazio, absorver cada nuance deste domingo peculiar.
O tempo flui enquanto saboreio minha terceira latinha. Telhas se acomodam com estalos ocasionais, lembrando-me da constante presença do lar. Uma moto passa velozmente pela estrada, escapamento aberto, desafiando a calmaria com sua urgência. Lembro-me da falta de fiscalização nestas áreas, onde a estupidez pode reinar desenfreada.
Um bem-te-vi irrompe o silêncio com seu canto vigoroso, ecoando de uma antena enferrujada, cercada por “espinhas de peixe” abandonadas – me remetem ao filme Bye Bye Brasil de Cacá Diegues, Caravana Rolidei com Salomé, Lorde Cigano e Andorinha e depois Ciço e Dasdô cortando uma Transamazônica dos anos 1970 rumando para Altamira.
Cabos e canos dobrados balançam perigosamente, mas não se soltam hoje, permanecendo suspensos como um lembrete frágil da conexão que nos mantém ligados.
O abraço seco do cerrado envolve tudo ao meu redor. As angolas, geralmente tão tagarelas em sua interminável algazarra, agora repousam em um silêncio estranho. Imagino suas gargantas secas pelo pó, preferindo a quietude à exaustão de tentar cantar.
Assim, neste domingo, às 13h50, eu me encontro imerso neste pequeno mundo de serenidade, onde cada som, mesmo o mais leve, carrega um peso especial. É um momento de introspecção, de aceitar o silêncio como um presente temporário, antes que o ciclo da vida neste cerrado retome seu curso habitual barulhento, carregado de vozes, gritos e brigas. Latidos de cães e mães aflitas tentando colocar seus filhos para dentro de casa ao chamá-los como um sargento para o banho. HORA DO BANHO!!!! JÁ DEU! AMANHÃ TEM AULA!!!! Nas televisões as mesmas vinhetas de todos os domingos. Penso, acho que em silêncio, ou talvez em um murmuro audível, que seria bom almoçar, pois já vai passando das cinco da tarde. A passarada, respondendo a chamado mudo, começa o ritual de conversas colocando assuntos em dia. Limpam as penas. As maritacas namoram catando piolhos das cabeças de suas parceiras, e elas, felizes, de olhos fechados, deixam o pescoço arrepiado tombar rente ao peito.
Alguém liga um som. Para minha alegria não era música sertaneja.
Estranho, hoje é domingo, ontem foi dia de São Pedro. Nenhum foguete, nenhum cheiro de fumaça de fogueira. O santo das chuvas nos olha com preocupação aqui no cerrado seco e já queimado.
Aliás, até o dia de São João foi menor este ano e as festas das igrejas, agora sempre cercadas por tapumes de alumínio limitantes, escondem as barraquinhas e bandeirolas coloridas. Não ouvi, nem vi quadrilha e sanfona.
“O balão vai subindo/ Vem caindo a garoa /O céu é tão lindo/ A noite é tão boa São João! São João/ Acende a fogueira/ Do meu coração...”
Tem mais não, aqui não! E viva o Nordeste, guardião eterno de nossas festas juninas, de nossa cultura, de nosso folclore.
Aqui vai se perdendo, perdendo, perdendo...
Evoco meu silêncio novamente, nostalgicamente feliz.
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