04/08/2017 às 14h41min - Atualizada em 04/08/2017 às 14h41min

Os custos econômicos da sobrevivência

“Entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra e terão a guerra”

BENITO SALOMÃO | COLUNISTA

A frase acima foi proferida por Winston Churchill ao então 1° ministro Britânico Neville Chamberlain após as negociações que resultaram no Tratado de Munique, em 1938, que permitiu à Alemanha de Hitler a anexação da antiga Tchecoslováquia. Como se sabe, a guerra era inevitável e teria início no ano seguinte, em 1939. E esta mesma frase poderia ser dita após a votação da aceitação da denúncia por corrupção passiva envolvendo o presidente Michel Temer, que foi encaminhada pela Procuradoria-Geral da República PGR à Câmara dos Deputados.

Nas falas da esmagadora maioria dos deputados que votaram a favor do relatório do Dep. Paulo Abi Ackel do PSDB – MG, que propunha o arquivamento da denúncia, escutava-se o seguinte argumento: “pelo progresso, pelo crescimento, pelo emprego, pelas reformas, voto sim”. A partir da postura destes 263 deputados que votaram a favor do arquivamento de uma denúncia, cujas provas audíveis a sociedade teve acesso pelos jornais, é possível que qualquer pessoa com conhecimento mínimo de economia adapte a frase de Churchill:

“Entre a desonra e a crise, escolheram a desonra e terão a crise”

E não é difícil explicar o porquê. A presente crise, com seus desdobramentos políticos, jurídicos e econômicos, é resultado de um processo semelhante de tolerância à corrupção iniciado anos atrás, em 2005. Na época, a sociedade brasileira, a justiça e as elites econômicas e políticas do país fizeram vista grossa ao presidente Lula e ao seu Mensalão em nome de uma pretensa prosperidade econômica que, hoje se sabe, não duraria ad eternum. E isto, em grande medida atirou o Brasil na atual década, com o pior desempenho econômico desde que se tem dados. Diante disto, é possível refletir sobre uma segunda frase, do pensador alemão Karl Marx em seu livro “O 18 Brumário de Luis Bonaparte” e que se aplica perfeitamente a esta realidade:

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”

Não é muito difícil entender que o resultado da votação que engaveta o processo contra Temer, em nome de uma pretensa prosperidade econômica que ainda não há no Brasil, é uma farsa que repete a tragédia de 2005. E o terror econômico vivido no país pela herança de Dilma é uma tragédia sem precedentes na história do país, que certamente se repetirá como farsa dentro de pouco tempo, na ausência de novos hábitos políticos. Isto por que a economia não é capaz de prosperar na corrupção, pelo contrário, numa combinação de capitalismo de compadres com um presidencialismo de cooptação, apenas alguns poucos grupos de empresários, burocratas e políticos prosperam, já que têm acesso a regras, privilégios e garantias específicas para si.

Ademais, reformas econômicas modernizantes não podem ser pretexto para a impunidade. É infantilizar o debate, acreditar que é preciso tolerar um presidente pego em flagrante ouvindo confissões de um empresário quanto ao suborno de juízes, em nome de reformas econômicas. Mais do que isso, é preciso institucionalizar a agenda de reformas.Elas não são de Temer, como vende a marquetagemoficial. Esta agenda foi imposta pela gravidade da crise. Já se falava disto durante o período do ministro Levy e, não custa lembrar, o PMDB com Eduardo Cunha e o mesmo baixo clero que absolveu Temer votava contra estas mesmas medidas que hoje juram lealdade, tudo isso quando não impunham pautas bombas como o fim do fator previdenciário ao governo anterior.

A Câmara dos Deputados errou e Temer deveria ser afastado, pelas mesmas razões que Collor foi, sendo inclusive absolvido pelo STF em seguida. A prerrogativa da inocência a priori não pode ser pretexto para submeter a nação brasileira à dúvida. Se o presidente é inocente das acusações da PGR, ele deve ser o principal interessado no avanço das investigações e no rápido resultado da justiça para preservar sua biografia. No entanto, age ao contrário. O que pensar de um presidente que trocou parlamentares na CCJ? Que exonerou 10 ministros de seu governo para votarem a favor do arquivamento de sua denúncia no Plenário? Que empenhou R$4 bilhões em emendas parlamentares nos meses de junho e julho para aglutinar votos a seu favor? Isto somado com o refinanciamento das dívidas previdenciárias rurais, negociadas com a bancada ruralista, custando R$706 bilhões ao tesouro. Tudo isso em simultâneo a um aumento pornográfico de impostos sobre os combustíveis, sob pretexto de que o governo precisa de R$10 bilhões para cumprir a meta fiscal deficitária em R$139 bi. Do julgamento da justiça, a princípio, Temer sobreviveu, mas o julgamento da história lhe será implacável. E a sociedade brasileira, que está escolhendo a desonra ante a crise, ficará com os dois em questão de pouco tempo.

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