23/04/2022 às 08h00min - Atualizada em 23/04/2022 às 08h00min

Diabetes: uma pandemia sem freios

JOÃO LUCAS O'CONNELL
O diabetes é uma doença crônica, caracterizada pelo aumento dos níveis de açúcar no sangue, o que pode provocar danos em vários órgãos, se não for tratado adequadamente. Nos últimos 30 anos, muito se estudou e muito se descobriu sobre a fisiopatologia, o diagnóstico e o tratamento da doença. Entretanto, o número de diabéticos e o número de complicações relacionadas à doença também aumentou e vem trazendo alerta à comunidade médica e científica. Existem três tipos principais de diabetes: tipo 1, tipo 2 e o diabetes gestacional.
 
Recentemente, descobrimos muita coisa sobre o manejo mais adequado da doença. Entendendo a fisiopatologia da doença, reforçou-se ainda mais a preocupação com situações que antecedem o quadro de diabetes propriamente dito. Hoje, preocupa-se muito mais com o diagnóstico de obesidade abdominal e pré-diabetes, que são condições predisponentes para a maior parte dos casos de diabetes tipo 2.
 
Assim, o diabetes tipo 2, que é o tipo mais comum, acontece em decorrência de uma dificuldade de ação do hormônio insulina, produzido no pâncreas. Devido, principalmente, ao excesso de tecido gorduroso no corpo, o organismo gera uma resistência contra a ação deste hormônio que, mesmo sendo produzido em maior quantidade, passa a não agir adequadamente. Esta falha na ação da insulina vai levar, mais tardiamente, à deficiência da produção deste hormônio (por esgotamento do pâncreas). Com falhas na ação ou produção da insulina, a glicose não entra para o interior das células e permanece no sangue, provocando dano tóxico (glicotoxicidade) a vários tecidos. O diabetes tipo 2 está, portanto, intimamente relacionados a maus hábitos de vida, como a má alimentação, o sedentarismo e a obesidade.
 
A fisiopatologia das outras formas da doença é diferente. O diabetes tipo 1, que geralmente se inicia na infância, está relacionado a uma autoagressão do sistema imunológico contra o próprio pâncreas, o que altera a secreção de insulina para o resto da vida. O diabetes gestacional está relacionado a uma dificuldade temporária no manejo da glicose, causada pela produção de hormônios produzidos na placenta que bloqueiam a ação da insulina em algumas mulheres.
 
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil chegou, no ano passado, a 9,14% da sua população com mais de 18 anos vivendo com diabetes. Em 2020, esse índice era de 8,2%. Ou seja, só em 2021, houve um aumento de 11,47% do número de pessoas diagnosticadas com o problema. Hoje, o país já conta com cerca de 15 milhões de adultos convivendo com a doença, que, anualmente, causa 6,7 milhões de mortes em todo o mundo. A situação tende a piorar. A taxa de brasileiros adultos obesos (IMC igual ou maior a 30) em 2019 era de 20,27%, passando para 22,35% em 2021. Apesar de ser um número já significativo, acredita-se que ele pode ainda ser subnotificado, pois muitos casos de diabetes não são devidamente diagnosticados.
 
O fato ainda é mais grave porque, em geral, os hábitos de vida inadequados que levam ao diabetes (obesidade, má alimentação e sedentarismo) também induzem um processo inflamatório sistêmico que aumenta o risco do surgimento de várias outras doenças como a hipertensão arterial, a esteatose hepática, algumas neoplasias, o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral e outras.
 
Infelizmente, a tendência é que tenhamos cada vez mais e mais casos de pacientes diabéticos ao longo dos próximos anos. Com o aumento do diagnóstico da doença, mais complicações graves (infarto, AVC, problemas renais, visuais e circulatórios surgirão. Muito se avançou no diagnóstico e tratamento da doença nos últimos 30 anos. Porém, infelizmente, os melhores tratamentos ainda são caros e inacessíveis para a maioria da população. O problema é muito complexo. Assim, é preciso preparar os sistemas de saúde (público e privado), procurar capacitar melhor os profissionais de saúde para o diagnóstico e tratamento da doença e intensificar a promoção de campanhas voltadas para a comunidade, mostrando os riscos da má alimentação, da obesidade e da falta de atividade física.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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