18/08/2021 às 08h00min - Atualizada em 18/08/2021 às 08h00min

Conflito no Afeganistão e os riscos para os mercados

ANTONIO CARLOS
O Afeganistão é um país historicamente importante nas rotas comerciais e disputas políticas da Ásia. Vizinho de países com poderio nuclear, como o Paquistão e a China, a importância geopolítica do Afeganistão é fácil de ser avaliada. Recebe influência religiosa do Irã, país com o qual também faz fronteira. Ocupa uma área de 652 230 Km2, sendo o 41º maior do mundo em área, Cabul é a maior cidade e também a capital do país, possui uma população estimada em 4,6 milhões de pessoas, sendo o 37º país mais populoso do mundo.

O Afeganistão protagonizou vários períodos de instabilidade e viveu tantos conflitos armados que sua economia e infraestrutura ficaram em ruínas – em vista disso é que grande parte de sua população se tornou refugiada. As circunstâncias históricas, impediram o domínio de potências imperialistas sobre o país, mas também resultaram em baixo desenvolvimento econômico.
Após a revolução marxista de 1978 e a invasão soviética em 1979, teve início uma guerra entre as forças governamentais apoiadas por tropas soviéticas e os rebeldes mujahidin, apoiados pelos Estados Unidos, Paquistão, Arábia Saudita e outros países muçulmanos. 

Após a vitória dos rebeldes, em 1992, teve início uma guerra civil, entre diversos grupos rebeldes, que foi vencida pelos talibãs. Em 1996, após anos de guerra civil, o grupo fundamentalista sunita Talibã tomou o controle da capital, Cabul, e impôs um regime extremista no país.

Forças americanas invadiram o país após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 pelo Al-Qaeda. Os americanos alegavam que o Talibã dava apoio e abrigo a Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda e mentor dos ataques às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York.

Em dezembro de 2001, o Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizou a criação da Força Internacional de Assistência para ajudar manter a segurança no Afeganistão e assessorar a administração do presidente Hamid Karzai. A guerra de vinte anos entre o governo e o Talibã atingiu o clímax com a ofensiva Talibã e a consequente queda de Cabul ocorrida em 15 de agosto de 2021.

O Afeganistão é o país mais perigoso do mundo,  incluindo o título de maior produtor de refugiados e requerentes de asilo, enquanto a comunidade internacional está reconstruindo o país. O país é extremamente pobre, muito dependente da agricultura (principalmente da papoula - matéria-prima do ópio) e da criação de gado. A inflação continua a ser um problema sério.

A falta de professoras é uma questão que diz respeito a alguns pais afegãos, especialmente em áreas mais conservadoras, ainda não permitem que as suas filhas sejam ensinadas por homens.
O país enfrenta agora o retorno do Talibã ao poder, o que, se for como foi nos anos 1990, significaria uma deterioração das liberdades civis, especialmente para mulheres e meninas cujas liberdades foram ampliadas no governo civil.

A rede rodoviária está atualmente sendo reconstruída e está sendo ampliada o que acabaria com a última lacuna no noroeste do país, mas, encontra-se atrasada devido à precária situação de segurança local.
Vamos refletir: ... a turbulência no Afeganistão entrou para a lista de problemas globais a serem monitorados por investidores. Estrategistas não esperam um impacto imediato no mercado com o Talibã novamente no controle efetivo do país. O mundo todo sinaliza com cenários de longo prazo, com a possibilidade de o país se tornar novamente um terreno fértil para ataques terroristas internacionais, justamente quando se aproxima o 20º aniversário do 11 de setembro de 2001, os ataques da Al-Qaeda ao World Trade Center, em Nova York.

Se os dias de uma única superpotência acabaram, a queda de Cabul poderia representar uma fase de baixa na cotação do dólar e para o mercado de Treasuries (títulos de dívida emitidos pelo governo americano), bem como para países que se beneficiam do “guarda-chuva de segurança dos EUA”.

Por outro lado, isso poderia favorecer o renminbi (nome da moeda oficial da China) e o mercado de títulos em renminbi, já que a China é a potência em ascensão na Ásia. A mudança também favoreceria o mercado de títulos da Rússia e o petróleo, devido às chances de maiores tensões no Oriente Médio.

As conexões do Afeganistão com mercados mais amplos são bastante pequenas, disse Ilya Spivak, chefe para Grande Ásia do DailyFX. “Começaria a ter impacto se a área se tornar um palco para o terrorismo novamente”, disse. Investidores provavelmente hesitarão em negociar muito com esse tema “a menos que algo aconteça” a esse respeito, acrescentou Spivak.

A presença limitada de empresas globais no Afeganistão necessariamente restringe seu impacto mais amplo nos mercados, disse Jeffrey Halley, analista de mercado sênior da Oanda Asia Pacific. “Duvido seriamente que qualquer grande empresa tenha operações de escala lá”, afirmou.

As relações com o Brasil, diferentemente de outros países ocidentais, cujas relações com o Afeganistão são marcadas pelo setor de segurança e militar, o Brasil tem com o país asiático contatos em outras áreas.

O principal setor que liga as duas nações é a agricultura, com ações de cooperação realizadas no âmbito do Acordo Básico de Cooperação Técnica (ACT), de 2006.

O comércio entre os dois países não chega a ser particularmente significativo, atingindo US$17,41 milhões em 2018 - sendo quase todo o valor em exportações brasileiras. A balança comercial em 2020 foi favorável ao Brasil com um superávit de mais de US$ 37 milhões (importações de apenas US$200 mil contra exportações de US$37,6 milhões).

Pensando estrategicamente... os números refletem um comércio limitado sendo que os principais produtos exportados pelo Brasil são carne de frango, milho e café.

Em relação ao conflito interno afegão, a posição brasileira é de que o país "acompanha atentamente a situação no Afeganistão e apoia os esforços da comunidade internacional em prol da reconciliação nacional e da reconstrução do país".
 


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