06/02/2021 às 08h10min - Atualizada em 06/02/2021 às 09h10min

Ter ou não ter filhos

ALEXANDRE HENRY
Dias atrás, vi uma postagem de uma conhecida no Instagram que me chamou a atenção. Era uma ilustração tendo, de um lado, uma mulher com marido e filhos; do outro, uma mulher sozinha, tomando vinho. Em cima de ambas, uma mesma frase: esta é uma vida feliz. O que me marcou foi o fato da pessoa que postou a mensagem se enquadrar na segunda opção, já estando na casa dos quarenta anos de idade, sem filhos ou marido. Ela estava ali, claramente, justificando sua escolha de vida, algo que achei triste.

Não, não achei triste o fato de ela ter escolhido não ter filhos ou marido e, sim, de ter que ficar se justificando por isso. Das duas, uma: ou ela ainda não está tão certa de sua escolha ou há muita gente cobrando dela uma opção diferente. Como a conheço um pouco, voto na segunda hipótese. Provavelmente, são inúmeras amigas, parentes e coisa e tal que vivem perguntando se ela não vai mesmo se casar nem ter filhos. O pior é que muitos provavelmente não ficam apenas na pergunta, acrescentando ainda comentários sobre um suposto futuro nebuloso sem um casamento ou uma prole.

Vamos aos fatos.

Eu escolhi me casar. Depois, escolhi ter filhos. Hoje, a minha vida é a da ilustração à esquerda na postagem da minha amiga. Posso dizer, especialmente em relação à paternidade, que eu não me arrependo. As lágrimas que derramei no dia em que minha filha nasceu, a alegria que transborda do meu coração a cada sorriso dela e a cada pequena evolução em seu desenvolvimento, tudo isso é algo que me deixa absolutamente realizado. Não consigo, assim como praticamente todos os pais, visualizar a minha existência sem minha filha para me completar.

Mas, nem tudo são flores. É fato que se casar traz uma série de limitações, pois você passa a dividir seu tempo, suas atividades e todo o restante com outra pessoa, de quem você se torna também responsável e que impõe a você muitas restrições. Quanto a este último ponto, não falo apenas de fidelidade, mas da própria liberdade de se fazer o que se quer, na hora desejada. Casou? Isso não existe mais. Quanto a ter filhos, bem, aí já é outro patamar. Filhos representam um investimento altíssimo, seja do ponto de vista financeiro, emocional, de tempo e por aí vai. Quando são pequenos, a situação é ainda mais dramática, pois a sua vida gira em torno deles e ponto final. Tudo o que você pensar em fazer deve levar em conta o fato de que há um (ou mais) ser pequeno que depende integralmente de você. Além disso, filho é para sempre. Mesmo quando adultos, pode ser que você ainda tenha que ajudá-los em muita coisa, inclusive doando seu tempo para cuidar de eventuais netos.

Quem é solteiro não passa por praticamente nada disso. As restrições mais relevantes costumam ser de trabalho, só isso. Você pode sair na hora em que quiser, fazer os planos que desejar, escolher seu destino de viagem sem qualquer preocupação, ficar o feriadão inteiro maratonando séries, enfim, você é senhor quase absoluto de seu próprio tempo, de suas finanças e decisões de vida. “Ah, mas lá na frente, a pessoa vai se arrepender, pois vai envelhecer sozinha!” – você pode argumentar. E quem disse que quem tem filhos também não envelhece sozinho? Conheço muita gente cujos filhos se mudaram para longe e a velhice tem sido quase igual à de quem não teve filhos. Aliás, alguns envelhecem sozinhos mesmo com a prole morando na mesma cidade, o que é ainda mais triste.

Isso não quer dizer que constituir uma família seja pior do que escolher uma vida sem cônjuge e filhos. Também não quer dizer que seja melhor. A conclusão é idiotamente simples: são opções diferentes de vida, cada qual com seu lado bom e seu lado ruim. É difícil ter que dizer isso, mas é importante, já que muita gente que escolheu não ter filhos sofre por se sentir um pária da sociedade e muita gente que tomou o outro caminho pensa que pode massacrar psicologicamente quem escolheu não formar uma família.

Em resumo, deixe cada um viver suas próprias escolhas e não dê palpite. No mais, se você teve filhos ou se você não teve, saiba que um dos maiores segredos para ser feliz, quando se tem que tomar uma decisão tão importante quanto essa, é simplesmente nunca mais pensar em como poderia ter sido a sua vida se o caminho fosse outro. Aproveite ao máximo sua família, delicie-se com o sorriso de seus filhos, caso essa tenha sido sua opção. Viaje muito, divirta-se com os amigos, tome vinhos e maratone séries, se esse foi o seu caminho. Viva feliz com a sua escolha e extraia o máximo de prazer dela, sem olhar para trás.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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