03/02/2021 às 08h00min - Atualizada em 03/02/2021 às 08h00min

A Lei de Gérson aplicada ao comportamento social

ANTÔNIO CARLOS DE OLIVEIRA
Não é de hoje que desenvolveu na cultura brasileira a famosa Lei de Gérson, que é um princípio em que determinada pessoa ou empresa obtém vantagens de forma indiscriminada, sem levar em conta as questões éticas ou morais.

Para os que não lembram da sua origem, a Lei de Gérson surgiu na década de 70 quando Gérson, o famoso jogador de futebol, serviu com garoto propaganda da marca de cigarros Vila Rica e disse a emblemática frase: “Eu gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve você também!”

A famosa citação de Gérson sintetizou de uma vez só o jeitinho brasileiro de fazer o errado parecer certo. A partir dali, querer levar vantagem contaminou os discursos, as relações e ações do povo brasileiro. Entranhado na cultura popular, o termo virou sinônimo de levar vantagem acima de tudo.

A tão conhecida "Lei de Gérson" transformou-se em uma forma usada para exprimir traços bastante característicos e pouco elogiosa do caráter das pessoas, sempre associada à disseminação da corrupção e ao desrespeito às regras de convívio para a obtenção de vantagens pessoais.

Essa expressão "Lei de Gérson", cunhada por Maurício Dias faz alusão à uma propaganda de 1976 criada pela agência Caio Domingues & Associados, que havia sido contratada por uma fabricante de cigarros, para a divulgação do produto. O vídeo apresentava o famoso jogador da Seleção Brasileira de Futebol, Gérson como protagonista. Nele, mostrava em seu início a afirmação de que Gérson foi o "cérebro do time campeão do mundo da Copa do Mundo de 70". A narração é feita pelo entrevistador e a cena se passa em um sofá de uma sala de visitas.

O desenrolar dessa história nos remete ao anos 1980, quando os meios de comunicação em massa brasileiros começaram a divulgar notícias sobre corrupção na política brasileira e a população começou a utilizar o termo Lei de Gérson, reforçando o conceito da expressão “jeitinho brasileiro”. A expressão pode ser utilizada com conotação positiva - ligada à noção de criatividade ou negativa - ligando-se às noções de malandragem e corrupção, dependendo do contexto estabelecido.

Do ponto de vista cultural o jeitinho brasileiro, retrata a malandragem, desonestidade, amoralidade, sendo este (jeitinho) bem visto por grande parte dos formadores de opinião, por considerarem a forma que a população, cercado de mazelas, tem de sobreviver. Infelizmente isto faz com que a população não consiga se desenvolver em diversos setores sociais, uma vez que o jeitinho é modo de vida de grande parte da população, sem distinção de classe social.

Em alguns países, as leis não admitem permissividade alguma e possuem franca influência na esfera dos costumes e da vida privada. Em termos mais populares, diz-se que, ou “pode”, ou “não pode”. No Brasil, descobre-se que é possível um “pode-e-não-pode”. É uma contradição com a qual já estamos habituados.

No cotidiano, tornou-se comum ignorar as leis em favor das amizades. Desmoralizadas, incapazes de se imporem, as leis não têm tanto valor quanto, diante da palavra de um “bom” amigo. A informalidade era – e ainda é – uma forma de se preservar o indivíduo.

Vamos refletir: ... a cultura do cancelamento é movimento que adquiriu muita força com o advento das redes sociais – cancela rapidamente atitudes inadequadas sobretudo do ponto de vista ideológico ou comportamental. Como definição, “a cultura de cancelamento é a iniciativa de conscientização e interrupção do apoio a um artista famoso, um político influente, uma empresa, um produto ou personalidade púbica devido à demonstração de algum tipo de postura considerada inaceitável”.

Mobilizar é bem mais rápido nos dias de hoje, onde o acesso às mídias sociais é democrático e todos podem ser virtualmente autores, editores, divulgadores, críticos e afins.

Entretanto, como os abusos das nossas competências positivas podem se transformar em comportamentos indevidos? A questão está neste caminho da criatividade à corrupção. O certo deveria ser certo mesmo quando ninguém está vendo, o errado é errado mesmo que todos estejam fazendo.

Pensando estrategicamente: ... a chegada do Covid-19 nos convida a novos comportamentos. A pandemia expôs de forma explícita a nossa vulnerabilidade como sociedade, estamos igualados como seres humanos. Ela trouxe uma nova regra de priorização para todos: a vida em primeiro lugar. Negócios, processos, sistemas, tecnologia, produtos devem estar a favor das pessoas e não, o contrário.

A pandemia nos impulsionou para uma visão mais coletiva, afinal a falta de saúde do outro pode me atingir, então o outro importa. Sempre importou na realidade, mas agora, a velocidade imperativa da interdependência plural está escancarada. Uma economia pós-pandemia demanda cuidado com a desigualdade social.

Muitos alegam que o propósito de qualquer negócio são as pessoas, como então evoluir para uma cultura de coletividade e ética se, individualmente, tantos estão desesperançados buscando a própria subsistência neste contexto de atividades econômicas tão dramaticamente reduzidas?

O novo “jeitinho brasileiro” clama pela colaboração recíproca, o interesse genuíno pelo próximo, a ação prática de cuidar e acolher-nos mutuamente, onde a relevância esteja no essencial, e não mais, no consumismo desenfreado, no supérfluo, no excesso, na vantagem individual.

Queremos confrontar crenças e realizar mudanças significativas e construir um futuro melhor, onde a Lei de Gérson não prevaleça.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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