16/01/2021 às 08h00min - Atualizada em 16/01/2021 às 08h00min

Quem é Miguel?

IARA BERNARDES
Dia 23/08/2011, sentia um desconforto, falta de apetite, um pouco de enjoo, até que minha mãe disse: “Você está grávida! Seu rosto está redondo, você está com um peito que nunca teve. Vai fazer um exame.”. Quando mãe fala, a gente finge que não concorda, mas sempre fica com uma pulga atrás da orelha, então, lá fui, meio descrente do teste ser positivo, tirei sangue, esperei o resultado e com ele em mãos li e jurei que era negativo. Estava feliz por ter razão, por não ter que me dobrar à sabedoria de minha mãe. Malhei, corri e ao chegar na casa dela mostrei o resultado, exclamando convicta: “Te falei, negativo!” e as gargalhadas ecoaram pela casa. Mas sabe aquele ditado de quem ri por último ri melhor? Ela abafou meu riso frenético com um sonoro “você leu errado, isso é positivo, liga no laboratório e ouça da boca de outra pessoa.” Ainda convicta da minha super habilidade em ler exames de sangue, liguei e a confirmação veio: POSITIVO!

Naquele momento, meu chão se abriu, fiquei quente, depois senti frio, tive dor de barriga e não queria acreditar, afinal, não estava pronta para ser mãe! Eu trabalhava 14 horas por dia, amava meus dois empregos e num ato insensato exclamei: “Não comemorem! Mulheres grávidas perdem bebês!”. Mal sabia eu o poder das palavras, mas, por praxe, fui e comprei um sapatinho de tricô, escrevi um bilhetinho bonito e esperei meu esposo chegar em casa. Como se fosse hoje, eu me lembro do que escrevi: “O aniversário é meu, mas o presente é nosso! Parabéns, Papai.”. Meu marido ficou extasiado e, como em uma novela das oito, nos abraçamos e comemoramos. Até ali estava fazendo apenas o que achava que era para ser feito, cumprindo tabela sem ainda entender o que seria aquilo e como o universo já conspirava para me mostrar o quanto minha vontade pode se transformar em realidade.

No dia seguinte, 24 de agosto, meu aniversário, cheguei para trabalhar e lá estava minha mesa, repleta de balões, mensagens carinhosas e muitos abraços quentinhos me aguardando. Logo contei a novidade para minhas colegas de corredor e novos balões chegaram, cartões em formato de carrinho de bebê e palavras carinhosas. Entre um abraço e outro senti uma cólica e fui ao banheiro: estava sangrando! Liguei para minha médica e ela mandou eu ir ao consultório imediatamente. No mesmo dia, tive a notícia que a gravidez poderia ser interrompida, mas ainda era cedo para saber, e aquelas palavras do dia anterior começaram a ecoar na minha mente. Mulheres grávidas perdem bebês! Mulheres grávidas perdem bebês! Mulheres grávidas perdem bebês!

A partir daquele momento, comecei a desejar que estivesse errada, mas, no fundo, sentia que o destino estava selado. Procurei viver com o pensamento que daria tudo certo, mas o processo foi doloroso, triste e cheio de remorso. Poderia, simplesmente, ter sagrado, o feto sido expelido, mas não! Foram muito exames para ter certeza que o embrião não se desenvolvia e a falta de humanidade das pessoas que os faziam me machucava fisicamente e emocionalmente. Em setembro de 2011, agendamos minha curetagem, e o plano de saúde, simplesmente, negou o pedido, pois, de acordo com eles, estava no período de carência para parto. Parto? Que parto? Depois de muita briga, o procedimento foi feito e quando pensei que tudo ficaria bem... meu corpo não entendia o que estava acontecendo, e complicações aconteceram. Depois de 15 dias, outra raspagem foi feita e junto com ela uma dor inexplicável, só que, dessa vez, apenas a alma doía. Não tinha mais filho, meu filho morreu, e quando todos falavam que havia perdido meu filho, eu pensava que poderia perder uma chave, mas não um filho, ele estava morto, fora enterrado dentro de mim antes de ser retirado e jogado no lixo hospitalar.

Por muitos anos, menosprezei essa dor e repeti todas aquelas frases que ouvira em “consolo”, não sabendo que no fundo só transferia para outras mulheres a dor que não havia aceitado, o luto que não tinha vivido.

Miguel morreu com 12 semanas de gestação, e para os outros, pode parecer pouco, mas, para mim, foram 12 semanas tentando fabricar um ser humano. Meu corpo não conseguiu, minha mente não ajudou e fui, absurdamente, egoísta ao ceder ao medo que tinha de perder a vida tranquila que tinha. Por isso, até hoje, aquelas palavras ecoam em minha mente: Não comemorem! Mulheres grávidas perdem bebês! Mulheres grávidas perdem bebês! Mulheres grávidas perdem bebês!
 

*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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