19/09/2020 às 08h00min - Atualizada em 19/09/2020 às 08h00min

O peso além da balança

IARA BERNARDES

Em março de 2020, era comum vermos nas redes sociais fotos de pessoas malhando, tentando melhorar os hábitos alimentares e aproveitando a “mudança que o coronavírus nos propunha”. Na verdade, eu mesma fui uma dessas: com disposição e discurso de fazer melhor, tirar o máximo do contexto conturbado. No entanto, o que vemos agora, 6 meses após o start, são pessoas insatisfeitas com seus corpos, reclamando diariamente do sobrepeso e frustradas com a inconsistência de seus propósitos. Porém, tudo isso é consequência de anos de escolhas alimentares ruins, permissividade na dieta e, é claro, a compensação que tendemos a fazer quando estamos ansiosos, descontando na comida essa inquietação que nos acomete em momentos estressantes. 

Além disso, memes e mensagens da voracidade dos pequenos ao atacar a geladeira, também se tornou frequente e, confesso, por aqui também não tem sido diferente, haja visto que a geladeira, coitada, já nem consegue mais trabalhar direito, é muito requisitada ao longo do dia, manipulada por pequenas mãozinhas à procura do que há de mais secreto, guloseimas escondidas - e existentes apenas no imaginário deles- , que ficam no fundo daquelas muitas mini gavetas que aguçam a curiosidade da molecada.

Para entender um pouco melhor essa relação com a comida e saber como podemos melhorar esses hábitos desde a infância, conversei com a nutricionista e empresária Lu Castro, da Nutri4Kids.

Setembro é também o mês ao combate à obesidade infantil, Setembro Laranja. Na sua opinião, como anda esse processo de conscientização alimentar das famílias?
Com todas as mudanças que têm acontecido devido à pandemia, vimos no início que os pais ficaram bem preocupados com a alimentação de toda a família. Como toda a rotina alimentar ficou centralizada nos lares, isto é, crianças não se alimentam mais nas escolas e os adultos pararam, inicialmente, de comer em lanchonetes e restaurantes, precisavam se reorganizar para que tudo ficasse dentro da normalidade. Por isso, percebemos que uma parte da população passou a se preocupar em mudar os hábitos alimentares, levando em conta o bem estar físico, já que é massiva a quantidade de informações sobre o impacto positivo de uma boa alimentação.

No início da pandemia víamos muitas pessoas postando que estavam fazendo atividade física e se alimentando bem. No entanto, muita gente tem reclamado que está engordando. Você teria uma teoria para isso? 
No início da pandemia havia o sentimento de que era a hora de colocar em prática tudo o que estava apenas nas promessas de Réveillon, porém, com o passar do tempo e sem a perspectiva de retorno às atividades habituais, acabamos saindo da nossa “rotina”, ficamos mais estressados, apreensivos, tristes, sem organização do nosso dia e isso também acabou influenciando para que a atividade física e alimentação fosse deixada um pouco de lado. Já que sem a ajuda dos educadores e a liberdade que tínhamos pré-pandemia todos os sentimentos ficaram mais aflorados, principalmente a ansiedade, devido a insegurança do momento. Sendo assim, acredito que esse contexto estressante contribuiu nesta questão, afinal, temos que lembrar que a alimentação está ligada às nossas emoções, logo, muitas pessoas acabam “descontando” na alimentação os seus sentimentos e isso acaba sendo um dos fatores para o ganho de peso.

Toda comida gostosa é altamente calórica?
A pergunta certa é: toda comida gostosa é saudável? Depende da carga nutricional. Uma comida calórica que seja rica em nutrientes com certeza irá beneficiar seu corpo, diferentemente de um alimento calórico pobre em nutrientes, como é o caso de comidas industrializadas. É importante pensar que comida gostosa é muito particular. Para uma pessoa, uma salada pode ser bem gostosa e para outra um bolo de brigadeiro pode ser altamente prazeroso. Isso depende muito do paladar que estamos acostumados. Mas sempre devemos lembrar que as comidas saudáveis “calóricas” têm seus benefícios e aliadas à prática de atividade física são sempre bem-vindas! 

A boa alimentação começa na infância, certo? Como a família e a escola podem ajudar as crianças a terem hábitos saudáveis?
Na verdade, tudo começa com o exemplo e consistência nas escolhas. Como nutricionista de escolas, percebo hoje uma grande preocupação com a alimentação no ambiente escolar. Na prática, tenho achado mais importante a escola formar uma filosofia sobre a alimentação e assim os pais acabam se familiarizando com cada uma. Observamos escolas que trabalham com buffet saudável, onde as crianças se servem; lanches saudáveis compartilhados entre as crianças e proibição de produtos industrializados. Assim os pais começam a adaptar essa rotina em sua realidade. Apesar de termos esse pensamento e orientarmos as escolas, o mais importante é que essas instituições, família e escola, estejam sintonizadas na mesma ideia sobre os hábitos saudáveis. É inadmissível uma escola ainda ter na cantina alimentos como frituras, refrigerantes e doces e lutamos para que isso seja totalmente banido de qualquer maneira desse local de aprendizagem e formação humana. Diretores e mantenedores das escolas devem entender que a alimentação é obrigação de cada instituição e precisam estipular uma forma de trabalhar isso, além de informar aos pais os métodos que serão organizados para que seja efetivada uma boa alimentação no recreio, junto a isso, os pais precisam estender essa filosofia em seus ambientes familiares.

Após essa conversa, acredito que fica mais fácil entender como é importante, desde os primeiros anos, introduzirmos hábitos de alimentação que sejam benéficos para a saúde de nossos filhos e como sabemos que o exemplo é sempre o melhor caminho, que tal começar hoje mesmo a se alimentar melhor, beneficiando sua própria saúde e cuidando para que os pequenos cresçam saudáveis e mantenham essa rotina ao longo da vida? Aproveito para te fazer outro convite, me conta nas redes sociais como está a alimentação dos pequenos por aí. Beijos!


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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