28/08/2020 às 15h56min - Atualizada em 28/08/2020 às 15h56min

Estrelas

WILLIAM H. STUTZ
Just for the record: Acordei jurando que era domingo, imagine a frustração quando me vi segunda-feira. Isto posto, voltemos à realidade.

Desde pequeno, bom, miúdo ainda sou, pois que seja, desde bem novo sempre tive fascinação pelo céu particularmente à noite, pelas estrelas e suas coadjuvantes. Os cometas, meteoros, meteoritos, planetas passíveis de serem vistos a olho nu e até satélites artificiais. Anos a me enganar fingindo serem os tão esperados OVNIS. Com estes sonhava insistentemente, um desejo indescritível de ser abduzido, levado para onde a Terra seria apenas um minúsculo ponto perdido na galáxia. O imenso quintal de minha casa de infância, em uma Belo Horizonte ainda pouco iluminada por neons e abafada por prédios imensos a esconder tudo era meu observatório. Subia no pé de goiaba, me equilibrava lá nas grimpas espantando um tanto de sonolentos passarinhos aninhados, alguns já no terceiro sono. Resmungavam com um bater de asas e mudavam de galho, irritados com o sonho perdido. Aquietavam logo e eu podia, lá do alto, por atenção no meu e só meu céu repleto de estrelas e fantasias. Observava e criava histórias na minha cabeça, viajava longe. Imaginava a delícia de liberdade solta em flutuar calmo, sentia no rosto as asas de pequenos vagalumes que sempre me acompanhavam. Acho que tinha certo medo de ir sozinho, assim convocava sempre algum pequeno bicho para viajar comigo. Vagalumes, borboletas, carrancudos besouros de chifre e minha gata. Uma vez levei até nossa cadelinha vira-lata, coitada, era incapaz até de em árvore subir.. Outro que convidei, mas só uma vez, foi nosso papagaio e nunca mais. Ele falava demais e não conseguia me concentrar nas belezas do infinito. Esta palavra martelava em minha cabeça de criança. INFINITO. Como assim? Não acaba nunca e nunca, atrás de morro sempre outro morro e outro e outro? Meu coração infantil disparava de tanta alegria curiosa. Quer dizer que tanta beleza vai além de tudo? Criava hipóteses e sonhava com outras gentes me olhando com o mesmo espanto de um outro céu. Será que tinham goiabeiras para subir também? Papagaio conversador aposto que não.

Interessante, nunca passou uma noite sequer sem que eu avistasse movimento lá no alto, E não me refiro a aviões (morria de inveja dos privilegiados pilotos por estarem tão perto de tudo que eu admirava). Toda vez que me empoleirava acompanhava o dançar de algum meteorito a cruzar ligeiro meu céu, às vezes dois ou três em uma única noite. Sabia de cabeça os horários dos satélites passarem e se atrasassem segundos imaginava tragédias, pegava um galho como se fosse um microfone e mentalmente me comunicava com a “base” — Huston o Satellite Alph Explorer 1 RGD464 - sigla inventada a partir de nosso endereço na capital das  Alterosas – Rua Gonçalves Dias 464 - está atrasado, favor checar localização. Sentia-me um importante cientista da NASA. Os cometas me fascinavam ainda mais. Como eram imponentes em sua trajetória. Onde estiveram a visitar? Aonde iriam depois de bailar em espetáculo sobre nossas cabeças?

Hoje nem minha antiga casa existe lá em Belo Horizonte. Derrubada, o chão tratado e o plantio de mais um gigante de frio concreto semeado aos poucos vai crescendo, para enfim dar “vida” a mais um empreendimento onde mil se aglomerarão em moradia que, seguramente, jamais olharão para o céu.

O tempo carregou tanta coisa correnteza abaixo, me fez esquecer muito, mas a paixão pelas estrelas, pelo céu, permanece acesa e muito bem viva dentro de mim. Não tenho mais a goiabeira, mas ainda em noites de lua nova me jogo no chão, bem quieto, a observar e esperar que alguém ou algo me busque para a mesma viagem sempre sonhada.

Quanto aos cometas, continuam me atraindo como abelhas ao doce mel. O cometa Halley me decepcionou, mas entendi suas razões. A humanidade não merecia seu esplendor e continua não merecendo. O perdoei solidário.

Cometa Neowise esteve de passagem por aqui em julho deste 2020 estranho. Esperei ansioso madrugada adentro, mas não sei se dormi ao relento deitado no chão ou se as nuvens impediram visão. Não tem problema. Ele voltará daqui a 6.765 anos. Sou paciente, vou aguardar.




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