01/08/2020 às 17h54min - Atualizada em 01/08/2020 às 17h54min

Pornocracia

ALEXANDRE HENRY
A internet chegou ao Brasil em seu formato comercial em 1995. Hoje, já temos vinte e cinco anos de internet no país, mas isso é muito pouco diante da revolução que a rede representou, revolução essa que ainda não foi digerida pela humanidade. Não deu tempo de “aprendermos” a viver nesse novo mundo e, a cada dia, temos mais e mais desafios. Um deles, por exemplo, é em relação à liberdade de expressão. Como trabalhar liberdade de informação, respeito à privacidade, direito à honra e outros temas em uma época em que qualquer pessoa fala o que quiser para milhões de outras pessoas a qualquer hora?

Bom, mas o título deste texto indica que ainda não cheguei ao tema principal. Pois bem, assisti dias atrás a um documentário muito interessante chamado “Pornocracy”. Basicamente, ele mostra como o mundo da pornografia mudou com a chegada dos grandes sites de sexo, como o Porno Hub e o X-Videos. Quando a internet nasceu, o que tínhamos? Revistas pornográficas vendidas em bancas, quase todas com as capas vedadas. Também havia filmes em fitas de videocassete e, depois, em DVDs. Mas, era um conteúdo relativamente controlado, seja quanto à venda, seja quanto ao consumo. Claro, a molecada sempre burlava o sistema, mas não era algo tão simples quanto apertar uma tecla de computador.

Quanto às produções, elas eram dominadas por empresas devidamente constituídas e legalizadas. O documentário “Pornocracy” trabalha bem essa parte. Os atores e atrizes eram reconhecidos, recebiam cachês razoáveis e as produções apresentavam performances sexuais apenas um pouco além do, digamos assim, convencional.

Quando a internet surgiu, essa indústria do sexo não foi tão afetada de forma imediata, até porque a rede custava a suportar fotos em baixa resolução. Aos poucos, porém, o aumento da velocidade de transmissão dos dados fez das revistas masculinas, como a Playboy, suas primeiras vítimas. As vendas simplesmente despencaram, já que as fotos circulavam gratuitamente na rede. A indústria de filmes, porém, ainda estava a salvo, pois a internet não tinha capacidade para a transmissão fácil de arquivos de vídeo.

Como você já sabe, isso mudou e, há pouco mais de dez anos, surgiram os grandes sites de pornografia. Eles passaram a concentrar milhares de vídeos gratuitos em um só lugar, sem qualquer controle de acesso. Como é narrado no “Pornocracy”, isso fez com que as produtoras de filmes pornográficos fossem à falência, tal como já tinha acontecido com as revistas. Por outro lado, passou-se a consumir muito, mas muito mais conteúdo pornográfico, mas o baixo retorno financeiro levou os atores e atrizes a receber cachês que não representavam nem 10% dos valores anteriores. Mais grave do que isso, houve um aumento gigantesco de demanda por sexo fora do padrão. Antes, ver um casal transando era algo raro e, por isso, um vídeo com esse conteúdo era consumido com avidez. Quando fotos de mulheres nuas e filmes de casais em situações comuns de sexo se tornaram corriqueiros, muita gente passou a desejar algo mais forte. Definitivamente, em relação ao que dá prazer, seja comida ou sexo, é difícil para o ser humano ter temperança. Consequentemente, conforme relata o documentário “Pornocracy”, o “mercado” começou a exigir de atores e atrizes cenas mais pesadas, algumas delas com graves comprometimentos à saúde dos profissionais. Claro, além de tudo isso, com remuneração ridícula.

Hoje, essa é a situação que vivemos: há pornografia de graça na internet, em um volume absurdo, acessível até para crianças, e com performances cada vez mais distantes do que é normal. Quando me refiro a “normal”, não estou sendo conservador e muito menos retrógrado, mas apenas me referindo àquilo que não faz mal à saúde física ou mental de alguém. Para complicar ainda mais a situação, há uma demanda crescente por vídeos caseiros, o que leva muita gente a se filmar ou a filmar relações sexuais de forma não consentida por todos os participantes para, depois, divulgar na rede.

Aonde vamos chegar com tudo isso? Sinceramente, eu não sei. A internet, como eu disse, é algo muito novo para o volume de transformações que ela trouxe. Mas, de algo tenho certeza: precisamos pensar com seriedade em um ponto de equilíbrio entre a liberdade individual de cada um, seja relativa à liberdade de expressão ou sexual, e a proteção a bens também muito importantes, como a saúde mental de crianças e adolescentes, a privacidade, a honra, a vida privada, a imagem, etc. Se não encontrarmos um equilíbrio, nossa sociedade adoecerá cada vez mais.




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