22/07/2020 às 10h53min - Atualizada em 22/07/2020 às 10h53min

O papel da mulher em época de pandemia

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA
A pandemia trouxe consigo grande impacto sobre a vida das mulheres. A relevância do seu papel social, doméstico e o cuidado integral com as crianças e idosos são aspectos que devem ser considerados, aliada à violência e vulnerabilidade econômica que indicam fortemente a desigualdade de gênero.

Independentemente se trabalham fora, são as mulheres que realizam grande parte do trabalho doméstico. São delas grande parte do esforço em exercer atividades não remuneradas no âmbito familiar – voltado aos cuidados com os idosos e crianças, além é claro, que muitas delas enfrentam hoje o trabalho remoto.

Dados divulgados recentemente (2019) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indicam que as mulheres dedicam em média 18,5 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados com as pessoas da família, comparados com 10,3 horas semanais gastas nessas mesmas atividades exercidas pelos homens. Essa rotina aparece de forma relevante quando analisamos as restrições impostas pela pandemia.

Um aspecto a ser considerado é a situação vivida por mais de 11 milhões de famílias brasileiras, compostas por mães que exercem a dupla ou até a tripa jornada, muitas vezes elas não têm com quem compartilhar o trabalho de casa.

Por um lado, o isolamento social é uma medida protetora, por outro lado revela-se uma ameaça à vida através do aumento da violência doméstica. Segundo informações do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (2020) houve um significativo aumento (9%) das denúncias de violência contra as mulheres durante a primeira semana da quarentena (17 a 25 de março) em relação à semana anterior. Ao mesmo tempo que as mulheres enfrentam o medo de que o vírus irremediavelmente poderá a qualquer momento as atingir. Defrontam também com uma sobrecarga de trabalho mais intensa, pois, além do trabalho doméstico, do trabalho realizado à distância (home office) e dos boletos que continuam vencendo, as crianças que estão sem creche, sem escola e sem opção de lazer.

Vamos refletir: sabemos que o universo feminino é complexo e diverso. Há um consenso que a carga para as mulheres é e será mais relevante e cansativa. Diante disto, sem dúvida, é necessário ter uma perspectiva de gênero ante à pandemia. Na divisão de gênero do trabalho, as múltiplas jornadas ainda pendem desfavoravelmente sobre as mulheres.

As políticas públicas são muito afetadas com a realocação de recursos e insumos para a pandemia no que se refere à saúde feminina. Em epidemias passadas para a recuperação de emergências, a redistribuição de recursos fragilizou as políticas públicas voltadas aos direitos reprodutivos e sexuais. Isto já acontece em circunstâncias como esta pandemia de Covid-19 na qual o remanejamento de recursos fragilizou aquelas que necessitam em momentos bastante delicados como durante a gestação ou no atendimento após violência sexual.

As mulheres representam grande contingente das trabalhadoras na economia informal e/ou nos trabalhos domésticos. A redefinição econômica afetada pela restrição de circulação e redução de contato social impacta diretamente sobre estas trabalhadoras que, repentinamente, ficaram sem possibilidade de sustento próprio e de seus familiares, pois, são elas as provedoras do lar. Neste sentido, merece registro a política pública federal de alocação de renda, mas, que não abrange os setores femininos mais afetados. Algumas atividades não reconhecidas tipicamente exercidas por mulheres.

Pensando estrategicamente: ... a mais nefasta das causas: o aumento da violência doméstica. Nos momentos de precariedade econômica e instabilidade social, a violência de gênero no ambiente doméstico ganha contornos ainda mais alarmantes.

Com milhões de pessoas na China passando algum tempo dentro de casa, ativistas de direitos humanos dizem que houve casos crescentes de violência doméstica. Na Itália, houve aumento significativo dos índices de violência; no Brasil já há alertas neste sentido – o que demonstra a universalidade da opressão. A convivência forçada com agressores, por um lado, e a dificuldade de acessar os serviços de resposta oficial, por outro, impulsionam o aumento da violência, em especial, na sua face mais nefasta que é a violência física e sexual.

É salutar é necessário adotarmos um olhar de gênero para as respostas à pandemia da Covid-19, não apenas individual, mas também institucional.

Pensando para o futuro, de modo mediato, devemos pensar no legado que fica, refletindo estratégias específicas de desenvolvimento e recuperação econômica das mulheres.

Independentemente da linha do tempo no agora ou no depois, nada disso ocorrerá sem inclui-las no debate; isto é fundamental para que nada sobre as mulheres seja pensado sem as suas participações!




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