17/06/2020 às 17h57min - Atualizada em 17/06/2020 às 17h57min

Sem dinheiro e sem crédito, como ficam as PMEs?

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA
Sem receita e sem crédito oficial, a maioria das PMEs brasileiras pode se tornar inviável com a pandemia do coronavírus. A crise vivida por elas é um problema para todos nós.

Sem conseguir realizar novas vendas, as empresas têm buscado as linhas de crédito disponíveis no mercado. A alternativa encontrada por grande parte foi suspender temporariamente os contratos dos funcionários, enquanto outros continuam trabalhando em regime de redução salarial.

Visando amenizar o problema, desde meados de março, tributos como PIS, Pasep, Cofins e Simples Nacional foram adiados, assim como o recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Houve também a postergação de duas prestações nos financiamentos da Caixa Econômica Federal que regulamentou uma carência de até 90 dias para as novas contratações de crédito comercial junto ao banco.

Para a retomada econômica, os empresários precisam de crédito para conseguir pagar os custos fixos enquanto a operação da empresa continuar fechada. As instituições financeiras do país anunciaram medidas para dar fôlego financeiro às empresas. Elas criaram linhas de crédito voltadas para o financiamento de capital de giro e da folha de pagamentos. Como disse Carlos Melles, presidente do Sebrae, a entidade está negociando para que o governo assuma mais o risco do crédito às PMEs. “Se somar tudo hoje, há de 40 a 50 bilhões de reais para crédito às micro e pequenas empresas. Mas entre o anunciado e de fato colocar a mão no dinheiro é um parto”, diz.

De acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), do dia 16 de março até 8 de maio, os bancos liberaram 31,36 bilhões de reais para micro e pequenas empresas em novos empréstimos e 43,28 bilhões de reais para empresas de médio porte. O valor é bem inferior aos empréstimos concedidos às grandes empresas (R$ 216,87 bilhões) e às pessoas físicas (R$ 86,45 bilhões).

Atualmente uma fonte de financiamento que vem ganhando força são as fintechs (startups financeiras). Estima-se que o Brasil tem cerca de 100 fintechs de crédito. Dessas, 24 são classificadas como Sociedade de Crédito Direto (SCD), que realizam operações de crédito de capital próprio, e as demais operam como correspondentes bancários, atuando com uma instituição financeira parceira por trás.

Um levantamento realizado pela fintech Creditas apontou que 21% das pessoas que buscaram empréstimos entre março e abril o fizeram para investir no próprio negócio. Entre as opções procuradas estão crédito com garantia de imóvel e de automóvel. No home equity, o tíquete médio buscado pelo pequeno empresário é de R$ 14 mil.  

Segundo o Ministério da Economia, a previsão é gastar 258,5 bilhões de reais para atenuar os efeitos da pandemia. A maior parte do montante é destinada a pessoas físicas. O auxílio emergencial no valor de 600 reais mensais para pessoas em situação de vulnerabilidade representa 47% desse total.

Vamos refletir: ... “Em geral, o crédito já é complicado e caro. Em um momento de incerteza, em que as empresas possuem poucas garantias de que vão conseguir retomar, fica ainda mais difícil”.

As PMEs representam em torno de 96,6% dos negócios, contribuindo com 30% do produto interno bruto (PIB) brasileiro. Elas são responsáveis por aproximadamente (52%) dos empregos formais. O cenário é desolador, em 2019, enquanto as médias e ­grandes empresas fecharam 88.000 postos de trabalho, as micro e pequenas empresas abriram 731.000 vagas. Essas informações são extraídas em dados do Ministério da Economia.

Quem perde com isso é o país. As microempresas, com faturamento anual de até 360.000 reais, e as empresas de pequeno porte, que faturam até 4,8 milhões de reais, são vitais para a economia como geradoras de emprego e renda.

Pensando estrategicamente: ... Inovação é justamente a forma que algumas empresas encontraram para contornar a crise e a dificuldade de acessar crédito. “Se ficarem esperando até passar a crise, talvez morram no caminho”.

Segundo cálculos do professor Paulo Ribeiro, do Insper, as medidas anunciadas pelo governo federal para micro, pequenas e médias empresas equivalem a 0,99% do PIB nacional, enquanto as políticas americanas para o setor correspondem a 5,8% do PIB do país. Outro ponto que diferencia os dois países é a assunção do risco do crédito. Nos programas americanos, o governo assume majoritariamente o risco de inadimplência, o que deixa os bancos mais confiantes para ceder o crédito. Por aqui, isso não tem acontecido. “O setor privado, em momento de muita incerteza, não tem incentivo para tomar risco e assumir inadimplência”, diz Ribeiro.

Devemos ser ágeis em nossas decisões, ou o remédio poderá chegar tarde, quando o paciente já estiver na lista dos “obituários de empresas”, engrossando ainda mais nossas estatísticas de fracasso.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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