16/05/2020 às 08h20min - Atualizada em 16/05/2020 às 08h20min

Bobagens cotidianas na rede

ALEXANDRE HENRY
Quando eu era estudante universitário em São Paulo, há mais de uma boda de prata no tempo, eu tive meu momento adolescente com um caderno que tinha a Carla Vilhena na capa. Sabe a jornalista? Pois é, eu a achava lindíssima (continua sendo) e tê-la ali no meu caderno, bem no meio da aula, deixava-me feliz. Mas, foi um amor passageiro. Logo, parei de dar atenção para a moça e nem reparava nela direito quando a via nos telejornais.

Outro dia, porém, ela apareceu no meu Twitter. A postagem dela era bem curta: “A tampinha de água sanitária que eu ia usar pra descorongar as frutas caiu na minha roupa. NA MINHA ROUPA”. No dia seguinte, o Twitter me mostrou outra mensagem dela, desta vez acompanhada por uma foto de uma lavadora de louças toda cheia de frutas: “Pra completar o dia em que a água sanitária caiu na minha roupa, eu fui seguir a dica de descorongar frutas na lava-louças e descobri que, mesmo com o display de temperatura desligado, a minha máquina esquenta a água. Retirei todas as frutas cozidas e agora estou fazendo doce”.

Eu confesso que, por um tempo razoável, já fui assim também. Assim como? Explico: acontecia uma coisa legal no meu cotidiano e eu corria para as redes sociais, na mesma hora, para publicar aquilo como se fosse a notícia da disponibilização da vacina para COVID-19. Claro, o “legal” era só na minha imaginação. Aliás, era algo interessante, sim, mas apenas para mim. De vez em quando, eu tentava dar um toque “engraçadinho” na postagem, fazer um drama ou qualquer outra coisa que trouxesse mais apelo à minha postagem. Tudo isso, claro, quando eu já estava na casa dos trinta anos de idade, caminhando para os quarenta, bem longe de qualquer justificativa para agir como um adolescente que namora uma modelo na capa do seu caderno.

O mais interessante disso tudo é que eu tinha retorno daquelas bobagens. Se eu publicava uma foto do dedo roxo com a frase “Fui tentar dar uma de marceneiro e olha o que eu consegui!”, logo tinha dez, quinze ou até mais pessoas comentando aquele acontecimento. Por outro lado, eu também comentava publicações alheias do gênero, mesmo que não tivessem (e nunca tinham) a menor importância para a minha vida.

Ler as postagens da Carla Vilhena me levou a uma reflexão sobre tudo isso e me colocou em um conflito interno. De um lado, eu trago comigo a máxima de que o que importa é a pessoa ser feliz. Quem está feliz, por mais que o motivo seja bobo para o resto do mundo, geralmente não faz mal para outras pessoas e contribui para uma existência coletiva mais pacífica e saudável. Por isso, tento me abster de qualquer crítica quanto a comportamento ou jeito de ser que permita a alguém ser feliz, por mais estranho que seja (desde que, claro, esse comportamento não prejudique outras pessoas). Por outro lado, e aqui está a origem do meu conflito interno, já não consigo mais entender o que faz uma pessoa gastar parte considerável do seu dia postando bobagens cotidianas, muitas vezes expondo de forma desnecessária sua própria intimidade. Sei que há explicações psicológicas para isso, mas é que minha vida se tornou tão mais ocupada nos últimos anos que não consigo mais me imaginar gastando minutos preciosos do meu dia com coisas assim. Não tenho tempo livre para ler um livro ou ver um filme e vou ficar navegando no mundo virtual atrás de bobagens da vida alheia?

Pensei sobre isso durante a semana toda e, no final das contas, decidi dar mais peso às minhas crenças do que às minhas críticas. Sim, tendo superado a fase do “vou postar que o prato caiu no meu dedinho do pé esquerdo”, não consigo mais ver graça em algo assim. Mas, é fato que essa exposição do cotidiano nas redes sociais, esse compartilhamento desenfreado de miudezas da vida privada, tudo isso serve para entreter muita gente, mesmo aquelas que apenas comentam as publicações de seus contatos. Pessoa entretida é o quê? É pessoa que, geralmente, não está pensando em coisas ruins, que não está fazendo maldade, que não está prejudicando ninguém. Se é uma felicidade real ou ilusória, isso não importa. Basta que seja felicidade. E, como eu sempre digo, o mundo precisa de pessoas felizes, só isso.

Enfim, já passei da fase de postar detalhes do meu dia a dia e não pretendo mais perder tempo com isso. Mas, não vou me incomodar com quem gosta, inclusive com a ex-musa do meu caderno de faculdade. Que ela continue falando de roupas manchadas e frutas cozidas. Se ela se sente bem assim, melhor para ela, melhor para a paz mundial.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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