29/04/2020 às 13h46min - Atualizada em 29/04/2020 às 13h46min

Covid-19: as incertezas econômicas e o recomeço

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA
Ao final de 2019, o Banco Central previa um aumento do Produto Interno Bruto (PIB) para o Brasil de 2,2% em 2020. A situação econômica se estabilizou antes da Covid-19. No caso brasileiro tudo caminhava para a recuperação do mercado de trabalho, controle da inflação, taxas de juros para patamares civilizados, criminalidade em queda, taxa corrupção como nunca se viu antes e os empresários manifestando disposição de retorno aos investimentos.

De um momento para o outro, o que se via era um cenário de terra arrasada, o Ibovespa despencando 36,86% entre janeiro e março – sinalizando o pior trimestre para a história do índice. Ao fim da crise global de saúde, será necessário reconstruir a economia. As previsões do Boletim Focus na última semana eram de uma queda de 2,96% e agora é de contração de 3,34%. Para 2021, a estimativa passou de crescimento de 3,10% para 3%. Alguns bancos já projetam forte retração para 2020. Há expectativa de queda na economia neste ano na ordem de até 7,7%, em virtude dos impactos da pandemia.

A antiga diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) defendeu que a política seguida pelo BCE, com taxas de juro muito baixas e o recomeço em novembro passado da compra de dívida no mercado, "atua como um estabilizador automático eficaz" para apoiar a zona euro.

Para o presidente do Federal Reserve (FED), Jerome Powell, o banco central norte-americano "está a seguir de perto" a epidemia ligada à Covid-19, que teve origem na China e já se propagou a mais de 180 países. Tudo isso "haverá certamente implicações, pelo menos a curto prazo na produção chinesa", declarou Powell.

O que estamos vivendo no momento não tem precedentes em nossa história. Por um lado, temos o avanço de uma epidemia global da Covid-19 que já infectou 1 milhão de pessoas em todo o mundo, e por outro, se já não bastasse o tamanho desta ameaça, temos também outra tensão - a crise política brasileira, representando uma ameaça que potencializa as incerteza quanto ao futuro da economia.

O atual governo segue com o seu discurso de extrema direita, mantendo o perfil de uma liderança antissistema e que mobiliza seus seguidores para os passos seguintes. O seu discurso que constrói minorias: aliados radicalizados pela sua narrativa ideológica e extremamente vinculada à dinâmica do calendário eleitoral, o que em nada contribui para a solução do problema.

O isolamento social em virtude da tragédia da Covid-19 em sua fase mais aguda da contaminação, é absolutamente prioritário para se evitar o aumento do contágio. A prática recomendada por grande parte das autoridades sanitárias mundo afora, fará com que boa parte do mundo fique paralisado ao longo de aproximadamente 6 meses. O choque de oferta advindo dessa paralisia é inédito e no momento, faltam dados para se identificar as consequências na economia. Os dados diários dos últimos 60 dias, mostram quedas da ordem de 80% contra o mesmo período do ano anterior nos diversos segmentos da atividade econômica. É claro que a queda não é linear, alguns segmentos acabam apresentando um desempenho melhor que outros, como o agronegócio, varejo farmacêutico, supermercados e e-commerce, especialmente de produtos essenciais, mas certamente não conseguem compensar o impacto nos demais seguimentos da economia.

Essa forte queda no nível de atividade tem feito o governo agir corretamente com as políticas fiscal e monetária. Ressalvados os atrasos nos pagamentos e na logística de entrega de recursos para as pessoas na economia informal.

Vamos refletir: estávamos saindo da crise de 2015/16, com diversas empresas vivendo um processo de recuperação após anos de desempenho frustrado e ainda carregando as dívidas contraídas com a recessão do período anterior. Boa parte dessas empresas foram pegas enfraquecidas ou se reerguendo. O choque de demanda virá da falta de confiança e de um aumento forte na taxa de desemprego. Restaurar a dinâmica da economia nessas condições demandaria políticas fiscal e monetária que no momento não teremos. Nossa capacidade foi usada à exaustão nas recessões em 2008 e 2015/16, respectivamente. A dificuldade disso será imensa, com essa decisão tendo que ser tomada as vésperas de período eleitoral.

Pensando estrategicamente: as dificuldades políticas do atual governo, cada vez mais isolado, podem prejudicar o andamento de reformas necessárias para o crescimento. Então, qual o caminho a ser seguido? É urgente que o governo comesse a preparar para o “day after tomorrow” pós-covid, aos moldes do programa Pró-Brasil anunciado recentemente - com grupos de trabalhos formados por equipes do Banco Central, Ministério da Economia e demais Ministérios, pensando medidas para serem aprovadas em 2021 e acelerar mais do que nunca o processo de concessões e privatizações.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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