19/04/2017 às 08h59min - Atualizada em 19/04/2017 às 08h59min

Fratura exposta não pode ser curada com Band-Aid

Antonio Carlos de Oliveira

Antes, havia um problema com a política brasileira, mas agora as coisas mudaram: existe um hipopótamo sob esse tapete.

Finalmente ficou óbvia a veracidade de informações nas delações dos executivos da Odebrecht e, ao solicitar uma investigação acerca dos maiores partidos do país, o ministro do STF criou um fato político inimaginável: se essa análise for feita de forma correta e se – e isso é o mais importante – houver coragem para tirar dela todas as suas preocupantes consequências, o ministro poderá ajudar o Brasil a nadar contra a correnteza dos grandes retrocessos que nos assolam.

A realidade é que o Estado brasileiro precisa de uma reforma que não pode ser feita por meias verdades. Temos que encarar todos os nossos problemas, de frente. E pelo que estamos vendo do alto da ponta do iceberg, eles são mais profundos que imaginamos.

Antes de tudo, precisamos analisar estrategicamente e observar alguns pontos: Diante dos atuais acontecimentos, o discurso que associava a corrupção unicamente a um lado político, caiu por terra. Ora, não estamos mais naquela fase em que todo roubo era justificado a um posicionamento político de viés partidário. Precisamos amadurecer esse pensamento. No atual governo, por exemplo, cada ataque aos direitos sociais, cada nova concessão às elites tem sido defendido como uma correção de rumos. Mas será?

As novas delações e investigações denunciam que essa é apenas mais uma conversa pra boi - ou brasileiro - dormir, e mostra o quanto a corrupção está no cerne da política brasileira. A maioria dos nossos mais importantes ministros está sendo investigada. Os papas do Congresso estão sendo citados - cada vez mais - em cada uma das delações. Mas agora, a desculpa acabou. Parece que não há mais para onde fugir.

Por isso, fica evidente que cada vez mais é preciso ir a fundo. Quando falamos de uma reforma política no Brasil, fica claro que ainda não temos dimensão do tamanho dessa necessidade. E para descobrir, é preciso sair das análises rasas e investigações superficiais e buscar todo o podre por debaixo dos tapetes políticos.

Os últimos acontecimentos mostram a importância de enfrentar a verdade, e não ficar contente com remendos, pois consertos e emendas não vão mais satisfazer a sociedade. Está mais do que claro que a máquina burocrática brasileira está viciada, e está na hora de conhecermos o verdadeiro status em que estamos.

Mas se exigimos mudanças, esse não seria o momento certo de assumirmos a responsabilidade de fazer, nós mesmos, aquilo que cobramos dessa classe corrupta que nos representa? Sejamos sinceros. Sabemos que a reforma política não poderá vir dos partidos políticos nem dos nossos “importantes” representantes. Mas ao invés de tomarmos uma atitude consistente, ficamos acomodados apenas em criticá-los.

Se agora estamos cada vez mais tomando conhecimento das roubalheiras e crimes cometidos, por que não assumir o protagonismo dessa história? Em um cenário ideal, uma reforma política verdadeira também pode ser popular.

O peso do Estado é muito grande, graças a essa nossa negligência em não enfrentar a necessidade real de mudança.

Ou seja, o caráter ímprobo e obtuso do sistema político do nosso país está exposto. Nesse sentido, tudo leva a crer que a disposição de reformá-lo não vai partir de dentro dele. Portanto, fica um questionamento: nós, profundos conhecedores de nossos limites e misérias enquanto sociedade, estamos dispostos a lutar por mudanças? Vamos sair da cultura do comodismo, da leniência e da aceitação? Ou vamos, mais uma vez, transferir esta responsabilidade, tentando tapar o sol com uma peneira? Não dá mais para curar fratura exposta com Band-Aid, precisamos de uma intervenção sem arremedos, na qual o importante são os interesses do país, e não os interesses de particulares.

(*) Analista de negócios – Professor universitário.        

 

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